E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana que foi a Semana do Autismo, que, para a minha família atípica, é uma data importante porque causa das nossas pessoas com autismo e porque o autismo é cada vez mais prevalente.
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana que foi a Semana do Autismo, que, para a minha família atípica, é uma data importante porque causa das nossas pessoas com autismo e porque o autismo é cada vez mais prevalente. Tenho de aproveitar para fazer reverência ao trabalho inigualável do Coração Azul que é um projecto dedicado ao autismo e a outras perturbações do neurodesenvolvimento, liderado pela minha mãe e por outra mãe atípica como ela e como eu, e que tem sobrevivido a todos os desafios que o contexto nacional oferece. Foi um final de semana em que a comunidade cristã observou todo o simbolismo da Sexta-feira Santa e do domingo de Páscoa, que relembra o sofrimento, a saga e a crucificação de Jesus Cristo para nos salvar... A nós que, permanentemente, pareceremos criar os nossos próprios infernos na terra, particularmente com os líderes que, de alguma forma, elegemos ou permitimos que cheguem e mantenham o poder. O Irão abateu um caça americano, segundo noticiado por demasiados órgãos de notícias, para desconfiar da veracidade numa guerra cheia de desinformação, e a Áustria juntou-se à Itália, à Suíça, França e à Espanha, nação cuja firmeza do líder deu início ao movimento de recusa do uso do espaço aéreo pelos EUA na guerra contra o Irão. Uma rejeição inédita que lembra que os líderes que apostam em guerras e que são capazes de criar o tal inferno na terra, têm - como tudo - o seu tempo que também há de passar com mais ou menos estragos pelo caminho.
Essa decisão dos americanos de avançar para uma guerra seguindo a batuta do governo de Israel, que já mostrava ao que vinha com a guerra genocida em Gaza, é das melhores descrições do tipo de liderança (ou da falta dela) a que o mundo está sujeito. A guerra em Gaza já matou mais de 70 mil palestinianos e continua a amontar os relatos da mais extraordinária falta de humanidade possível. A cadeia americana de notícias CBC noticiou que, em março, as forças israelitas torturaram um bebé de 18 meses com queimaduras de cigarro e pregos nas pernas — bem a propósito da crucificação. Os registos mostram que apagaram cigarros nas pernas de um bebé com um ano num país em que desde que a ofensiva começou uma criança é morta a cada hora, 40 mil perderam os pais ou cuidadores, mais de 20 mil morreram. É inimaginável o sofrimento daquela mãe que por umas horas não sabia o que tinha acontecido ao seu bebé que havia sido detido pelas forças israelitas que detiveram o pai, e que volta traumatizado, aterrorizado, torturado. Uma covardia sem limites.
A nova guerra — e porque está a afectar as economias do mundo inteiro — está a tirar ainda mais o que se passa em Gaza das manchetes dos jornais para o esquecimento, e, em dias de reflexão, é bom revisitar o sofrimento que acontece à nossa volta e que tendemos a deixar cair no esquecimento, particularmente quando as questões económicas começam a sobrepor-se à empatia com o próximo como poderá acontecer com o disparar dos combustíveis.
Outra coisa que a nova guerra está a fazer é recriar a crise dos anos 70, quando os países produtores do Golfo cortaram o fornecimento de petróleo a países ocidentais, como os EUA e Portugal, num embargo que protestava contra o apoio a Israel (novamente Israel) numa guerra que a Síria e o Egito começaram devido à ocupação de território árabe por Israel. Mas desta vez será pior, segundo uma análise publicada no New York Times, porque o preço do combustível vai disparar para o nunca visto naquela que está a ser considerada a pior crise energética que a humanidade já enfrentou. Os países que não apostaram em energias limpas ou que, como o nosso, produzem, mas não aprenderam a refinar os seus recursos vão sofrer as consequências da decisão de entrar na guerra vinda do outro lado do Atlântico.
Talvez ciente e a antever esse sofrimento, o presidente da República teve um daqueles momentos do relógio parado que duas vezes por dia está certo em que declarou que “as motivações do colonialismo no passado são as mesmas que levam hoje qualquer superpotência a fazer intervenções militares, como aconteceu no Iraque e agora no Irão.” Como esses momentos não são frequentes é bom dar-lhes a devida atenção querido leitor. O chefe de Estado e do estado de coisas disse ainda que “o mundo transformou-se numa selva, onde qualquer superpotência evoca um direito inexistente à luz do Direito Internacional, o do ataque preventivo, suportado apenas na presunção de que alguém se está a preparar para me atacar e destruir,” lembrando o caso do Iraque e, agora, do Irão, a propósito da 11.ª cimeira de Chefes de Estado e de Governo da Organização dos Estados de África, Caraíbas e Pacífico (OEACP). E agora pergunto eu: estará o encanto pelos EUA a desvanecer-se agora que se aproxima a hora de ir embora e em que os resultados de todos os esforços para que o namoro desse frutos se mostraram fraquinhos?
É refrescante ver algum realismo da parte do líder, até porque Angola vai sofrer com a guerra no Irão apesar da alta do preço do petróleo que alguns já andavam a festejar esquecendo-se de que o país importa quase tudo o que consome, que o pouco que produz é frequentemente dependente de algum insumo importado, e que essas desvantagens nos iriam chagar mais rápido e com mais violência do que qualquer reflexo da alta do petróleo porque os contratos do petróleo de hoje já foram negociados, e os que se negoceiam hoje só vão ter reflexo no futuro, quando os preços estão a disparar agora. O Valor Económico noticiou esta semana que o país entrou em modo de racionamento de combustível, que apenas dois petroleiros estão atracados e à espera de descarregar. O que tarde ou cedo se vai reflectir nas bombas de combustível com falta de táxis dificuldades de operações de funcionamento devido à dependência dos geradores, enfim o caos que conhecemos a cada corte de energia. E as inaugurações de refinarias, ele é Cabinda, ele é Lobito, ele é Soyo nenhuma se traduziu em funcionamento pleno porque entre nós gostamos de cortar fitas para a pimpa, mais do que para, de facto, criar soluções com impacto solidamente positivo. Mas é com esperança sempre querido leitor, que marcamos encontro aqui e até à próxima na sua Rádio Essencial.




COMBUSTÍVEL EM FALTA E DÍVIDA FORA DE CONTROLO