E agora pergunto eu...

29 Apr. 2026 Geralda Embaló Opinião

Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana em que, começando pelos temas mais importantes, a Rádio Essencial começou a recolher donativos para a comunidade afectada pelas enxurradas em Benguela, e em que o querido leitor poderá contribuir para o alívio de quem perdeu tudo nas cheias.

E agora pergunto eu...
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Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana em que, começando pelos temas mais importantes, a Rádio Essencial começou a recolher donativos para a comunidade afectada pelas enxurradas em Benguela, e em que o querido leitor poderá contribuir para o alívio de quem perdeu tudo nas cheias.

As cheias na Califórnia do chefe de Estado e do estado de coisas, que têm em comum com a Califórnia americana que lhe serviu de modelo (proferido a alto e bom som numa dessas alturas em que provavelmente a emoção do palco parece ou levar ou expor a completa falta de senso) talvez a abundância de água, continuam a demonstrar como o país está tão debilitado a nível de serviços de emergência que se torna verdadeiramente criminoso. As histórias saídas da província, no pós-desastre, de falta de apoio institucional básico, com as pessoas a dormir em tendas à chuva, e os exemplos de abuso e de tentativa de controlo da narrativa no meio da desgraça de angolanos são revoltantes. Devia haver algum mecanismo que tornasse automaticamente os políticos, e os líderes sobretudo, absolutamente escravos das suas palavras, de modo a que o vento não as levasse com a facilidade com que o faz, e os responsabilizasse por aquilo que prometem.

A propósito de controlo de narrativa, a actualidade da semana foi marcada entre a classe da comunicação social pela nomeação de Norberto Garcia para o Centro de Formação de Jornalistas, ele que chefiava até há bem pouco tempo o Gabinete de Acção Psicológica que entretanto se fundiu com o Gabinete de Estudos Estratégicos  para se travestir de Gabinete de Estudos e Análises Estratégicas da Casa Militar do Presidente da República, que soa menos comuna e menos dictatorial, mas que mantém as mesmas funções e que sabemos ser o berçário de múltiplas narrativas de controlo e manipulação da opinião pública, de propaganda e de fomento do ódio que facilita a manipulação popular. Se muitos jornalistas se questionam sobre o porquê de ir parar ao centro de formação o que tudo indica ser um outsider - não é pelo menos um jornalista reconhecido entre pares... Se se questionam se se tratará de um castigo e por que motivo o trambolhão da Cidade Alta para a plebe, infligido a quem se habituou de tal modo às nuvens que deverá ter recuperado o hábito do Moet Chandon na feijoada, mais provavelmente motivação pessoal porque a nível profissional a função em si já seria digna de repulsa... Se se questionam se escola de jornalismo como purgatório não é insulto à profissão e por extensão aos jornalistas; a pergunta que me ocorre é se o gabinete conhecido entre a classe como gabinete de ódio pelo hábito perverso de pôr a circular narrativas de ataque a pessoas mais do que defesa de ideias, se com a saída do director, o poder considerá fechar o gabinete cuja razão de ser é a tal "acção psicológica", por outras palavras, manipulação da opinião pública?

Em Portugal, neste momento, grassa um escândalo porque a comunicação social, fazendo o seu trabalho, publicou um orçamento de 40 mil euros do governo de Montenegro para uma empresa de monitorização de redes sociais cuja principal função é detectar críticas ao governo português. O tema foi levado à Assembleia Nacional, como acontece nas democracias normais e que não ficam paralisadas sob a égide de guerras que terminaram há décadas, e o governo teve de responder aos representantes do povo. Um deputado que estudou o histórico da empresa contratada pelo governo português afirmou que a mesma havia visto um contrato com o governo britânico suspenso porque focava a sua actividade de monitorização das redes nas contas de jornalistas e da oposição política, o que foi considerado um atentado à liberdade de expressão e de opinião. O deputado queria saber se em Portugal as mesmas leis estavam a ser respeitadas ou se o interesse do governo se sobrepunha ao respeito pela integridade da liberdade de expressão. Nós aqui, discussão é guerra, “extermínio”, e ‘podemos tudo porque fomos magnânimos e poupámos as vossas vidas’ - uma vergonha.

Voltando aos 40 mil euros que levam a questionamentos em Portugal, e agora pergunto eu, qual é o orçamento do nosso bem mais poderoso gabinete de ação psicológica e informação e estratégia? Sendo certo que os atropelos à liberdade de expressão, os ataques à liberdade de imprensa e o manifesto investimento em narrativas de ódio, são parte inalienável da cartilha de um gabinete de acção psicológica que se preze, qual é o orçamento? Mais do saber porque foi exonerado o chefe importa saber, em nome da transparência, que investimento público é canalizado rotineiramente para promoção e protecção não do Estado mas do partido que governa, não para solidificar instituições, não para medicamentos nos hospitais públicos, não para iluminação das vias públicas, ou água nas escolas, não para protecção civil que nos fez tanta falta nas chuvas, mas para protecção do partido que se diz maioritário e que por isso nem devia de precisar de tais muletas! Quanto gasta o gabinete para espalhar propaganda, fel e ódio entre os angolanos?

A propósito de fel e ódio, a marcar a actualidade internacional esteve certamente Donald Trump e o seu comparsa Bibi que são especialistas nisso, mas estiveram aqui mais perto sul-africanos que viram algumas ruas do país encherem-se daquela sub espécie que mascarada de zulos grita "fora estrangeiros" e não reagiram. "Estrangeiros fora" mas não os brancos que, esses, pensam eles, trazem turismo e emprego; apenas os pretos, seus iguais e seus irmãos em jornadas como a libertação da África do Sul do Apartheid que os oprimia sem disfarces.

Uma senhora do Zimbabué foi assassinada por cobrar um prato de comida que havia confeccionado, vários africanos foram atacados por multidões covardes que agem em matilhas, há vídeos de grupos a entrarem em hospitais públicos e a gritarem que "quem não é sul-africano que se levante e saia porque os médicos estão de serviço para nacionais e não para estrangeiros", com ameaças de que iam verificar os documentos das pessoas nos bancos do hospital para se certificarem de que eram sul africanos... a imagens que saem sobre as milícias ‘Dudula’ são do pior que os africanos têm para mostrar ao mundo.

O governo do Gana chamou o representante da África do Sul para questionamentos depois de um seu nacional ser interpelado por este grupo de xenófobos que lhe diziam que voltasse para a sua terra e fosse reparar o que lá estava mal e que o levou a sair e o governo emitiu uma nota de protesto contra a nova onda de xenofobia. Onda cíclica que, ao longo dos anos, vai e volta como uma praga e que já matou quase 700 pessoas, sobretudo dos países vizinhos do Zimbabué, do Lesoto e de Moçambique, que migraram para a África do Sul em busca de melhores condições de vida. Em 2008 foram mortos 62 estrangeiros. Os milicianos dizem-se zangados porque estes estrangeiros - que são menos de 4% da população - lhes roubam os empregos, mas não atacam os brancos que são donos de 70% das terras e comandam cerca de 80% do tecido empresarial e industrial do país. Aliás, há brancos que se juntam às passeatas de correr com os africanos estrangeiros…

Esperemos que o governo angolano se junte ao do Gana e a outros para condenar e questionar a liderança da África do Sul sobre como vai pôr cobro a essa pouca vergonha que envergonha todos os africanos mais do que o crónico subdesenvolvimento do Continente Berço. Afinal, como nos poderemos queixar dos brancos — que aqui vieram explorar o continente há 500 anos — de hoje ficarem a dar curvas quando queremos ir aos seus países, quando temos entre nós versões do Chega em esteróides, pioradas pela selvajaria africana?

É com cansaço, mas com esperança, sempre, querido leitor, que marcamos aqui encontro e até à próxima, na sua Rádio Essencial.

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico