E se fossemos governados por incompetentes?
O que mais terá de acontecer para o senhor ministro do Interior interiorizar que este cargo não lhe cabe? Não se trata apenas de incompetência, é algo mais profundo. É uma vontade exasperada de maquiar a realidade, de vender uma estabilidade que não existe.
O que mais terá de acontecer para o senhor ministro do Interior interiorizar que este cargo não lhe cabe? Não se trata apenas de incompetência, é algo mais profundo. É uma vontade exasperada de maquiar a realidade, de vender uma estabilidade que não existe. O problema é que, na governação de Manuel Homem, quase sempre "o tiro sai pela culatra". Primeiro civil a assumir a pasta, o nosso homem foi encorajado pelo seu benfeitor a “não ter medo da farda”. Segundo João Lourenço, a inteligência bastaria para o cargo. Pelo visto, esse requisito tem sido poupado. Apesar da omnipresença nas redes sociais, não há um único sector do seu ministério que tenha conhecido uma reforma estrutural palpável. As esquadras continuam a carecer do básico. Os agentes continuam a fazer da "gasosa" a sua ‘bebida’ de eleição. As operações stop já não têm critério, dia ou hora, tornaram-se emboscadas à rotina do cidadão. Num mundo paralelo, o ministro mantém a narrativa de redução da criminalidade, mas o dia-a-dia de Luanda desmente-o. Os criminosos, cada vez mais destemidos, sentem-se à vontade para actuar à luz do dia, e não apenas na periferia. Tratar documentos como carta de condução ou passaporte tornou-se uma busca pela agulha no palheiro. E como esquecer a postura do ministro perante a revolta de Julho de 2025? Manuel Homem apressou-se a fazer balanços onde misturava perdas humanas com danos materiais, como se tivessem o mesmo peso. Pior: tentou convencer-nos de que não vimos o que vimos. A morte daquela mãe, abatida pelas costas, foi tratada pelo ministro como uma "narrativa construída". Não sei se sugeriu que o vídeo foi montado ou se simplesmente desvalorizou a vida alheia, mas o facto é que para o ministro “o envolvimento em actos de pilhagem deve ter consequências”. Se uma dessas consequências for o fuzilamento policial sem resistência, então estamos conversados. Enquanto o seu antecessor era o rosto da ‘pulungunza’ e ficou conhecido pela frase "a polícia não está aqui para distribuir rebuçados", Manuel Homem tenta vender a imagem do modernizador tecnológico, o "Ministro 4.0". Assim, tirou da cartola os passaportes eletrónicos como a solução mágica para um problema que, desde o crente ao ateu, ninguém explica por que leva anos a resolver. Prometeu que o documento sairia no máximo em 30 dias e no mínimo em 48 horas. E vocês acreditaram, né? A gota d’água veio esta semana com o "experimento" na Marginal. Um centro de apoio para a emissão de documentos que, embora eu não duvide que pudesse ter boas intenções, se revelou uma autêntica desorganização e o que seguiu todos vimos. Se aquilo não é um atentado à nossa parca dignidade, não sei o que será. Mesmo perante este festival de horrores, que, diga-se de passagem, não é exclusividade do Ministério do Interior, é transversal a todo o Governo, o líder do partido que o sustenta está plenamente convicto de que apenas o MPLA está capacitado para governar Angola. Aí reside o mistério dos 50 anos: não é apenas a convicção de que o país é sua herança. É também o medo genuíno de que outro partido "bote o país abaixo". Uma proeza que o actual elenco governativo está quase a conseguir por conta própria. E para garantir que nenhum "incapacitado" tome o poder em 2027, entra em cena a eterna solução tecnológica: a Indra. Pouco importa se a empresa é contestada em várias partes do mundo, o facto é que pela quinta vez consecutiva, a Indra é a escolha perfeita para manter tudo como está. No final do dia, a pergunta que não se quer calar é: se João Lourenço, Manuel Homem e todo o seu elenco são os únicos capazes de governar, como seria de Angola se, por um descuido do destino, fôssemos governados por gente incompetente?
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 13 de Março de 2026




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