Entre o amén e o Canhão…

29 Apr. 2026 Suely de Melo Opinião

Hoje abrimos a resenha semanal com a devida vénia ao Altíssimo, para quem ainda tem fé, claro, porque Luanda foi abençoada pela visita do Papa Leão XIV.

Entre o amén e o Canhão…
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Hoje abrimos a resenha semanal com a devida vénia ao Altíssimo, para quem ainda tem fé, claro, porque Luanda foi abençoada pela visita do Papa Leão XIV.  O Santo Padre, como quem já vinha avisado do terreno pantanoso que ia pisar, nem bem aterrou e começou logo a destapar as nossas "cubas" de má consciência. Em vez de distribuir as hóstias do costume, atirou-nos com apelos à justa distribuição, não de “rebuçados”, mas de riqueza. Lembrou que abunda no solo pátrio recursos que deveriam chegar a todos.  O Papa enfatizou que "somente no encontro a vida floresce". Para ele, o diálogo é o ponto de partida necessário para a convivência. Ao que, o Chefe de Estado, prontamente retorquiu e garantiu que o diálogo entre angolanos está mais aberto que as portas das igrejas. Imaginem lá se não estivesse…

Mas nem a missa campal, à qual o Chefe preferiu dispensar, serviu para lavar os pecados daqueles que confundem o erário com o bolso das calças, desviando o que devia ir para escolas, hospitais e estradas. Para estes, o país não precisava de uma missa, mas de um confessionário de alta segurança com o Tribunal de Contas a anotar os pecados. Mas a áurea de santidade durou pouco e mal o Santo Padre levantou voo, os nossos "camaradas" provaram que a audição é um sentido que não lhes assiste. O fantasma da guerra, esse consultor político que nunca se reforma, foi novamente arrastado para a Assembleia. Porque, convenhamos, sem o barulho dos canhões de ontem, não há argumentos para defender o indefensável de hoje. Chegamos ao ponto de ouvir um deputado, num acesso de "extrema bondade", lembrar ao país que o MPLA foi benevolente o suficiente para não ter exterminado tudo quanto respirava a UNITA em 2002. É o conceito de "amor ao próximo" levado ao extremo do absurdo…. Voltando ao tema do perdão e justiça, o Tribunal da Relação de Luanda teve um súbito ataque de lucidez. Não encontrou provas para manter presos os jovens que viam o "sol nascer aos quadradinhos" há oito meses e mandou-os para casa. O que a primeira instância viu como vandalismo, a segunda viu como... nada. Estes rapazes voltam para casa com uma palmada nas costas, mas sem o emprego, sem o ano lectivo e muitos com as famílias destroçadas. Mas isso ninguém liga. A culpa? Ah, essa vai morrer solteira, tal como acontece com os sinistrados das chuvas da Califórnia... ups, desculpem, de Benguela, quis eu dizer! Em Benguela, mais de 13 mil alunos ficaram sem o "B-A, BA" porque a chuva levou tudo. Enquanto a água arrasta os cadernos, o Governo continua a "molhar" o sonho das crianças com a ausência de planos e a total falta de vergonha na cara para assumir responsabilidades. Para fechar com chave de ouro, e porque em Angola quem não sonha não governa, temos o General 4x4. O homem aplicou a tracção total, saiu do bunker e veio avisar que "quem treme é folha". Higino Carneiro quer provar que o seu motor não está gripado e vai mesmo à luta pela liderança dos camaradas. Diz que quer somar para voltar a unir o preto, o vermelho e o amarelo. A questão que fica no ar é tão simples quanto esta: será que este Turbo V8 tem força suficiente para contornar os obstáculos do “sistema”, ou vai ficar atolado na primeira curva?

 

*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 24 de Abril de 2026