FRANCISCO LOPES, ENGENHEIRO HIDRÁULICO

“O que aconteceu com o rio Cavaco em Benguela vai acontecer em Malanje, Cuanza-Norte e no Bengo”

Lamenta a falta de empresas públicas de engenharia para garantir a criação e manutenção das infra-estruturas públicas e sugere a criação de um ministério de infraestruturas para assumir responsabilidade de regulador. Engenheiro Hidráulico com larga experiência e um dos proponentes acérrimos do Rio Luanda, Francisco Lopes alerta que falta de estruturação de sistema nacional de drenagem abre espaço para as inundações.

“O que aconteceu com o rio Cavaco em Benguela vai acontecer em Malanje, Cuanza-Norte e no Bengo”
Santos Samuesseca

Como explica o transbordo do Rio Cavaco em Benguela?

É algo que temos falado. O Estado desobrigou-se de determinados serviços e acções.  Algumas empresas públicas de engenharia como a ENCIB, Hidroporto, EMPROE e a Constroe foram a falência. O Estado praticamente não tem empresas de engenharia. E, quando um país não tem empresas de engenharia, o país vai ficar refém de acções de privados. Quando isto acontece, o Estado, primeiro, vai gastar muito mais porque vai fazer trabalhos de emergência. O que aconteceu com Rio Cavaco, em Benguela, vai acontecer em Malanje, Cuanza-Norte e no Bengo. O assoreamento dos leitos dos rios é que provoca inundação das cidades ribeirinhas, dos campos agrícolas e desabamento das pontes. Há, também, a situação da desestruturação do saneamento básico. Não temos percepção do que é saneamento básico e como se executam essas mesmas acções, principalmente no quesito drenagem. O Rio Cavaco está a desaparecer com o passar do tempo.

 

Por conta do assoreamento?

Sim. Está a ter cada vez menos água. Por um lado, não tem capacidade de vazão; por outro, as águas que chegam ao Cavaco vêm do interior e, quando os leitos dos rios não têm capacidade de evasão e já não servem de acumulador de água pluvial, essas águas transbordam. Chamamos, outra vez, a atenção para a ausência do Estado. Não temos um regulador urbano. Em terrenos virgens, cinco minutos de chuva, quase que não se nota a concentração de água mas, em terrenos construídos, cinco minutos de chuva é suficiente para acumular milhões de metros cúbicos de água. Se não há infra-estruturas para o escoamento, esses milhões de metros cúbicos, concentrados em cinco minutos, vão espalhar-se pelo território. Daí os alagamentos e inundações. O Estado tem que voltar a assumir as suas responsabilidades, que passam pela criação de condições de habitabilidade, de vivência do cidadão e, com base nisso, ir buscar e reconstruir as empresas que vão prestar este serviço.

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