Angola continua a construir aeroportos…e a destruir a mobilidade
O novo aeroporto de Cabinda nasce com um problema estrutural: a crença errada de que infra-estrutura resolve aquilo que, na realidade, é um problema de mercado, de regulação e de governação. O facto de custar 286 milhões de dólares (e a conta vai crescer mais) impressiona, mas, na prática, está a ser construído apenas um cenário mais sofisticado para os mesmos problemas de sempre.
O novo aeroporto de Cabinda nasce com um problema estrutural: a crença errada de que infra-estrutura resolve aquilo que, na realidade, é um problema de mercado, de regulação e de governação. O facto de custar 286 milhões de dólares (e a conta vai crescer mais) impressiona, mas, na prática, está a ser construído apenas um cenário mais sofisticado para os mesmos problemas de sempre.
Hoje, Cabinda vive refém de uma única companhia que opera voos regulares sem concorrência. O resultado é conhecido: cancelamentos recorrentes, pouca previsibilidade, preços inflacionados e um mercado paralelo de lugares que floresce à sombra de tarifas subsidiadas desviadas para redes informais. Nada disto será alterado com uma nova pista ou com um terminal mais moderno. Quando os voos continuarem a ser cancelados ou a sair atrasados, os protestos simplesmente passarão a ter como palco uma espécie de “palácio de cristal”. A experiência estética melhora, mas a realidade da (i)mobilidade mantém-se. A narrativa oficial refere que o estatuto internacional do novo aeroporto poderá atrair companhias estrangeiras e dinamizar a região, mas essa promessa também já foi testada e falhou. O aeroporto da Catumbela, a quem os decisores políticos deram prioridade para elevar a aeroporto internacional contrariando os sinais claros do sector, continua sem nenhum voo internacional regular. Depois de todo este tempo, do dinheiro público gasto e num país com a dimensão de Angola, este aeroporto que serve uma região tão promissora limita-se a uma única ligação diária – quando não é cancelada – com Luanda por uma única companhia aérea. A escolha política decidiu ignorar aquilo que era evidente para os operadores: o interesse internacional estava no Lubango e não na Catumbela, mas os decisores preferiram impor uma visão própria, desligada da realidade, ignorando que aeroportos não criam mercados. Em teoria, investimentos desta dimensão são justificados com base em previsões teóricas de crescimento, mas a realidade da aviação comercial funciona de forma diferente e expandir a capacidade aeroportuária não altera o comportamento das companhias aéreas que escolhem rotas que maximizam o retorno e não aquelas que preenchem infra-estruturas construídas pelos governos. É por isso que projectos como o novo aeroporto de Cabinda ou o Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto não geram novas ligações, nem mudam o mercado que, no fundo, permanece essencialmente igual: concentrado, ineficiente e disfuncional.
No dia da inauguração do aeroporto de Cabinda haverá discursos, aplausos e fotografias. Meses depois haverá silêncio, interrompido pelos protestos de passageiros presos no mesmo sistema de sempre. Porque se nada mudar na estrutura do mercado e na política pública do país, este aeroporto será apenas mais um monumento ao erro político: caro, vazio e irrelevante.




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