E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo, querido leitor, a este espaço onde perguntar não ofende, com sinceros desejos de que tenha um
excelente 2026 na companhia dos seus e da sua Rádio Essencial, votos neste início de 2026 já tão cheio de
acontecimentos com impacto global.
Seja bem-vindo, querido leitor, a este espaço onde perguntar não ofende, com sinceros desejos de que tenha um
excelente 2026 na companhia dos seus e da sua Rádio Essencial, votos neste início de 2026 já tão cheio de
acontecimentos com impacto global.
Os Estados Unidos, liderados por um presidente que fez campanha com o slogan America First e criticando a
intervenção americana nos outros países, criticando os seus antecessores pelo lastro de destruição, de guerras
devastadoras no Iraque na Líbia no Afeganistão só para mencionar alguns... guerras devastadoras não só para os países
invadidos, mas muitas vezes para as próprias tropas americanas que arriscam a vida no terreno a mando da política, ele
mesmo, o one and only, foi (através de um pequeno grupo militar de elite com quem se ‘fotou’ depois) a meio da noite
buscar Nicolas Maduro a casa para ser julgado por uma série de acusações relacionadas com tráfico de droga nos EUA. A
intervenção na Venezuela, que matou mais de 100 pessoas no processo de captura do seu presidente, talvez demonstre
que o slogan América First está, em vez de ‘reviengado’, a ser honrado com a invasão da nação com a maior reserva de
petróleo do mundo, que de esquebra é comunista, ideologia que Trump usa como insulto, e que alimenta outras como
Cuba que há décadas sobrevive ao embargo dos EUA. Uma demonstração de veio imperialista que lembrou a todos de
que ‘este mundo tem dono’, e de que nós só existimos nele, assim como inquilinos tolerados, mas sujeitos a qualquer
mudança de humor do ‘dono do cubico’.
Que este passo terá implicações é certo, só se desconhecendo quais. Tanto a nível geopolítico (para outros vizinhos
indesejáveis com hábitos de ocupação, como Israel, China, Rússia e Ruanda) como a nível económico - do preço do ouro
negro que sustenta as viagens do nosso presidente, as farras e tudo o resto que pinga para os funcionários públicos e para
a economia angolana (que pinga menos para o sector social) - as implicações estão anunciadas... Mas, sendo que sempre
foi desejo manifesto de Trump baixar o preço do petróleo -o Wall Street Journal noticiava no dia que escrevia, que o novo
target, o preço objectivo por barril, vai rondar os 50 dólares por agora - quem como nós está a travar com o preço nos
cerca de 70, vai fazer como com o barril nos 50?
2025 fechou com o preço já nos 60, é o terceiro ano a fechar com quedas de preço na ordem dos cerca de 20%. Com
o acesso americano livre ao petróleo venezuelano, a expectativa é a de que o mercado inunde e o preço caia ainda mais.
E agora pergunto eu: qual é o plano que o governo de Angola está a preparar para fazer face às agruras económicas que
se avizinham? Em ano pré-eleitoral e num contexto de queda do preço do barril que nos sustenta, quais serão as escolhas
do governo? Vai dar continuidade ao despesismo acéfalo ou vai tentar controlar as despesas, arriscando-se a tornar-se
ainda mais impopular (tarefa que não é fácil)?
Não sendo expert em matéria de relações internacionais, sejamos ou não defensores do regime de Maduro, que - diga-
se de passagem tem nas taxas de pobreza extrema a rondar dos 70% o seu pior crítico - independentemente da nossa
opinião sobre a intervenção – os EUA com o exuberante atropelo à soberania alheia e com a celebração fanfarrona desse
atropelo, sem os disfarces costumeiros e fingimentos de que viemos implementar democracia - Trump aliás fala no
petróleo venezuelano como se fosse herança paterna - um ataque com a narrativa porventura mais improvisada das mais
de 400 intervenções militares americanas em países alheios, mostrou ao mundo mais uma vez depois de Kadhafi, de
Sadam Hussein e muitos outros em que só é presidente quem a América entender que pode ser presidente, uma equação
sopesada de acordo com os seus interesses.
No Natal, os EUA bombardearam a Nigéria e fica evidente que o interesse naquela região é provavelmente mais o
urânio do que o genocídio de cristãos que o governo nigeriano nega ter ocorrido.
Entre nós o presidente do maior partido da oposição angolana aproveitou a captura de Maduro para lembrar quem de
direito e que foi apoiante incondicional de Maduro no passado - (apoio que se tivesse algum valor não teríamos visto quase
cortarem a luz ao presidente que lhe entregou o poder) - mas ACJ lembrou “que o poder sustentado pela força, pela fraude
ou pelo medo não é eterno.” Palavras bonitas, mas que fazem parecer que a intervenção americana tem alguma relação
com a implementação de valores democráticos (caso tivessem os líderes de países como a Arábia Saudita ou como Israel
em vez de melhores amigos já lá não estariam).
No entanto, ACJ devia também lembrar-se de que, se fosse do interesse dos americanos, provavelmente teria sido ele
o presidente saído das últimas eleições. Muitos se lembram de ver o embaixador americano praticamente fazer campanha
por João Lourenço, não se sabe em troca de quê. Facto que pode indicar que a mudança de regime em Angola não é
interesse dos americanos, pelo menos até ver… e no que depender do chefe, que não parece perder uma oportunidade
de os bajular, talvez nunca venha a ser. Essa falta de interesse, por sua vez, pode condicionar o próprio celebrante da
actuação sobre maduro a não chegar lá outra vez. Isto faz lembrar os venezuelanos que foram para a rua celebrar a prisão
de Maduro nos EUA e foram presos pelo ICE polícia de imigração de Trump, e imediatamente deportados.
Não passou despercebido é claro, que enquanto o líder da oposição se apressou a comentar a situação venezuelana,
do chefe nem um pio se ouviu... uma tremenda saia justa em que o enfiaram, ele que é presidente da República de Angola
com as relações de proximidade que o país tem àquela região, particularmente a Cuba que vai ser muito afectada por uma
mudança de regime na Venezuela, que também é presidente da União Africana (defensora da manutenção dos regimes
supostamente eleitos por pior que sejam para os seus constituintes onde nos incluímos todos ou por mais evidente que
sejam as fraudes eleitorais que os mantém), ele que cada vez mais parece que se os americanos dizem salta ele pergunta
quão alto... enfim, ele vai dizer o quê?
Melhor do que saber a opinião do chefe sobre a captura de Maduro, seria saber quais são os planos para a governação
neste 2026 pré-eleitoral a nível económico e a nível social. Saber quando é que vai deixar o resto do país saber quem vai
ser o candidato do partido a disputar as eleições... era bom saber quem será, que planos tem, saber como vai tirar a
educação da desgraça em que se encontra, com os professores fartos a ameaçarem greve volta e meia, como vai fazer
para que os hospitais que o chefe inaugurou a torto e a direito e os investimentos robóticos da ministra, como é que tudo
isso se vai refletir concretamente em termos da melhoria da saúde pública dos angolanos... Era bom saber como corrigir a
miséria que grassa no sector da justiça em que temos presos políticos e a política de continuar a fazer presos políticos.
A Friends of Angola enviou uma missiva ao presidente para mais uma vez apelar à libertação dos presos políticos,
entre eles presos por activismo, mas também por sindicalismo; parte dos líderes dos sindicatos dos taxistas continua presa
por exercerem um direito claro, a que o Estado respondeu com aquela brutalidade homicida que matou cerca de 30
pessoas. Um colega jornalista a quem são imputados crimes fantasiosos sem provas de culpa ou capacidade de
execução, como escreve o Maka Angola sobre o caso dos russos - mais uma daquelas tricas cineásticas tecidas com
aparente despreocupação com a capacidade de produção de prova - é outra vítima da justiça politizada que temos.
Seria bom ter uma reforma, um reset completo do sistema de justiça como objectivo nacional para 2026. Mas é com
esperança teimosa sempre querido leitor, que marcamos aqui encontro, até à próxima, na sua Rádio Essencial.




“Ainda não se acredita profunda e sinceramente nos nacionais, como se devia”