O turista nacional é o cliente mais fiel e o maior embaixador da marca País

11 Mar. 2026 Opinião

Sempre acreditei que a promoção de um país é, acima de tudo, um exercício de verdade e de pragmatismo económico. Podemos desenhar logótipos memoráveis e campanhas globais de grande impacto, mas a alma de uma nação — e a sua viabilidade enquanto destino — mede-se na qualidade do serviço que prestamos e na forma como o cidadão comum consegue usufruir do seu próprio território. É nesta simbiose necessária que a marca Visit Angola – The Rhythm of Life, com a qual tenho o privilégio de trabalhar, ganha o seu verdadeiro significado, deixando de ser apenas um conceito visual ou um slogan institucional para se tornar um compromisso inequívoco com a excelência operativa e a sustentabilidade do sector.

O turista nacional é o cliente mais fiel e o maior embaixador da marca País
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Sempre acreditei que a promoção de um país é, acima de tudo, um exercício de verdade e de pragmatismo económico. Podemos desenhar logótipos memoráveis e campanhas globais de grande impacto, mas a alma de uma nação — e a sua viabilidade enquanto destino — mede-se na qualidade do serviço que prestamos e na forma como o cidadão comum consegue usufruir do seu próprio território. É nesta simbiose necessária que a marca Visit Angola – The Rhythm of Life, com a qual tenho o privilégio de trabalhar, ganha o seu verdadeiro significado, deixando de ser apenas um conceito visual ou um slogan institucional para se tornar um compromisso inequívoco com a excelência operativa e a sustentabilidade do sector.

Recentemente, ao acompanhar os dados apresentados no 1.º Conselho Consultivo do Ministério do Turismo, realizado a 29 e 30 de Janeiro de 2026, confesso que senti um misto de entusiasmo justificado, com a necessidade de uma reflexão profunda. Angola alcançou o primeiro lugar no crescimento turístico de África em 2025 e o quarto a nível mundial, com uma expansão de 30% nas chegadas internacionais, segundo os dados oficiais do Barómetro da ONU Turismo.

Registar 223 mil turistas e superar finalmente os níveis pré-pandémicos de 2019 é uma vitória estatística inegável, que inverte um ciclo de contracção que se arrastava há uma década. Contudo, a experiência acumulada no terreno, particularmente enquanto assessora do Conselho Directivo do Grupo Apolónia Complexus em Cabinda, obriga-me a confrontar estes números macroeconómicos com a realidade das nossas unidades hoteleiras.

Em Cabinda, tal como em outras províncias detentoras de um potencial imenso, a taxa de ocupação das unidades hoteleiras está ainda muito aquém do que era legitimamente esperado. Esta discrepância revela um diagnóstico que não podemos ignorar: o equilíbrio entre a oferta e a procura só surge de forma orgânica quando os serviços não são apenas visíveis nas feiras internacionais, mas financeiramente acessíveis e rigorosamente padronizados.

Olhar para os nossos vizinhos continentais oferece lições valiosas. A África do Sul, através da estratégia Sho't Left, conseguiu que o turismo doméstico representasse mais de 70% do volume total do sector, gerando receitas directas anuais superiores a 5,3 mil milhões de dólares. Já o Quénia, com a campanha Magical Kenya, implementou tarifas diferenciadas e incentivos que levaram a que, em 2023, os residentes contribuíssem com mais de 50% das dormidas totais, injectando cerca de 1,1 mil milhões de dólares na economia local e reduzindo a dependência externa.

Ao longo destes anos de percurso executivo, o exercício de "Descobrir Angola" fez-me perceber uma ironia amarga... Aquilo que muitos de nós procuramos desesperadamente em destinos estrangeiros — o refúgio, a natureza intocada, a hospitalidade genuína e o descanso — está, muitas vezes, debaixo dos nossos olhos, dentro das nossas fronteiras. No entanto, este património permanece inacessível ao cidadão nacional por via de preços proibitivos, falta de promoção direccionada e uma logística de transporte que ainda penaliza severamente quem decide viajar internamente.

Vivemos, durante demasiado tempo, focados numa hotelaria de passagem desenhada para o executivo, para o sector extractivo ou para o expatriado, negligenciando a construção de uma cultura de lazer doméstico. O turismo interno não deve ser visto como um paliativo para momentos de crise; ele é a espinha dorsal de qualquer economia turística resiliente.

Programas como o "Simplifica" ou o "Reclassifica", destacados pelo Ministro Márcio Daniel, são passos fundamentais na desburocratização, mas a "alma" do destino pertence inteiramente ao sector privado. É nossa responsabilidade, enquanto gestores e investidores, democratizar o acesso ao produto turístico angolano sem sacrificar o padrão de serviço.

A diversificação económica não se faz apenas com grandes enunciados teóricos; faz-se quando geramos os 10,6 postos de trabalho que cada mil novos turistas trazem consigo para as comunidades locais. Mas para que este emprego seja sustentável e digno, as camas não podem permanecer vazias e os restaurantes não podem ser meros cenários de passagem. Precisamos de uma "Arquitectura de Negócios" que entenda que o turista nacional é, por definição, o cliente mais fiel e o maior embaixador da marca país. Se ele não consegue pagar ou se não encontra um padrão de serviço confiável, a estratégia falha na base.

A marca The Rhythm of Life é o convite oficial que fazemos ao mundo, mas a melodia é composta por cada um de nós que decide apostar na formação contínua, na gestão de custos eficiente e na honestidade do preço praticado ao consumidor. O mercado internacional já nos deu o voto de confiança através da ONU Turismo. Cabe-nos agora, com audácia e visão estratégica, abrir as portas de Angola aos angolanos, garantindo que o luxo da nossa terra não seja um privilégio de poucos, mas um activo de muitos. O potencial é imenso, os indicadores são favoráveis e o país espera que saibamos transformar o brilho das estatísticas em ocupação real, serviço padronizado e prosperidade partilhada por todos.

 

* Gestão de Projectos. Integra o Gabinete de Gestão da Marca Visit Angola e é Directora-Geral da WeDo, Lda.