E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende depois de uma semana de headlines marcadas por nova guerra, uma que já andava anunciada, mas que se tornou real depois do ataque dos EUA ao Irão, um Irão que sempre foi tido como um país cuja capacidade militar desaconselha provocações...
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende depois de uma semana de headlines marcadas por nova guerra, uma que já andava anunciada, mas que se tornou real depois do ataque dos EUA ao Irão, um Irão que sempre foi tido como um país cuja capacidade militar desaconselha provocações...
Não falta quem aponte o dedo a Trump, que tem a sua base eleitoral revoltada com o rumo da política americana, que pensava que se ia afastar de conflitos internacionais e forcar-se na vida interna dos EUA, de acordo com o prometido pelo candidato vencedor das eleições, mas o dedo de Benjamin Netanyahu, que continua a apostar na continuidade da guerra para se manter no poder, está certamente por detrás da decisão americana.
Se há coisa que os presidentes americanos têm em comum, é a incapacidade de cumprir promessas eleitorais que contradigam objectivos israelitas. Barack Obama, por exemplo, prometia o reconhecimento da Palestina pelas Nações Unidas com o apoio dos EUA, ou o encerramento de Guantánamo Bay, e nem um nem outro conseguiu cumprir, porque, mais poderoso que o homem que preside à nação mais poderosa do mundo, parece ser a vontade israelita por detrás dele, seja ele quem for. E nesta guerra, a comunicação do que justifica o ataque, já passou por assumir que Israel forçou os EUA a entrar na aventura, já passou por negar essa iniciativa israelita, já passou por alegar que o regime iraniano continua a financiar terroristas fora de fronteiras, passando depois por dizer que o ataque se deveu à insistência do Irão no seu programa nuclear, uma negociação na qual de resto, é do conhecimento público, que foram os EUA a dar para trás. A realpolitik americana é extremamente influenciada pela vontade do lobby israelita, que, por seu turno, tem uma relação umbilical com o lobby das armas americano. E armas, querido leitor, armas amam guerras. O líder espanhol que teve a coragem de dizer não à guerra e de contrariar os EUA dizendo que não poderiam usar a base em território espanhol para atacar o Irão, é dos poucos exemplos de política com cabeça, tronco e membros, num mundo cada vez mais populado por lideranças decepcionantes.
A propósito de lideranças decepcionantes, entre nós, para além da celebração do melhor PIB em 10 anos, mas que continua abaixo do crescimento populacional e por isso maioritariamente inócuo num contexto de más escolhas de governação, já há quem esfregue as mãos de satisfação porque esta guerra traduz-se em preços do barril que nos sustenta bem mais altos - contrariando a vontade de Trump de ter o barril abaixo dos 50 dólares. E já há previsões de que o barril que hoje já anda acima dos 100 dólares, vá andar acima dos nunca vistos 200 dólares, cerca de 140 dólares a mais do que o preço de referência conservador estipulado no Orçamento Geral do Estado angolano.
Mas e agora pergunto eu… sendo assim tão linear, por que é que o barril a mais de 100 no passado não foi suficiente para melhorar a qualidade de vida dos angolanos substancial e sustentadamente? Retiraram-se daí as necessárias lições? Será que estamos a fazer as contas, retirando do surplus no income todo o aumento de despesas e toda a inflação que vai ser gerada por essa subida vertiginosa do preço do barril, graças à nova guerra? Angola importa quase tudo, incluindo combustível, porque, desgraçadamente, por mais inaugurações que se faça, o aniversariante da semana, continuamos sem capacidade de refinar o petróleo, daí que vamos comprar combustível à mesma fortuna que os outros, sendo que vamos pagar mais caro pelo transporte, pela logística, por tudo. Não produzimos o que comemos. Com o barril mais caro devido à guerra, toda a cadeia de logística mundial que nos fornece tudo, inclusive fertilizantes para o pouco que se produz, vai encarecer. Vamos pagar tudo várias vezes mais caro devido à inflação gerada pela guerra.
Depois lembrou-me outro economista que os contratos petrolíferos de hoje estão a negociar os futuros - o petróleo de hoje já foi negociado à muito - daí que o reflexo desse aumento de preço do barril só se vá sentir ou nos contratos futuros que vão variar de acordo com a duração da guerra – uma guerra que Trump esperava que fosse uma intervenção de três semanas – e vai se fazer sentir sobretudo na capacidade de financiamento do país, porque os credores vão acreditar que Angola terá mais capacidade de pagar de volta com juros aquilo que quer gastar hoje...
O que se vai traduzir em mais dívida e provavelmente em mais má despesa pública, tendo em conta a forma comprovadamente irracional como o governo frequentemente emprega os financiamentos que recebe. Basta lembrar a pergunta lógica do jornalista Carlos Rosado de Carvalho à ministra das Finanças sobre o investimento na educação, que é próximo ao valor do investimento em dois centros de conferências na capital. E basta lembrar os mais de mil milhões em viagens do aniversariante da semana para uma suposta diplomacia económica que teima em não desenvolver a economia de todo e que, por isso, leva a questionar: serve para quê, além de gastar rios de dinheiro?
Essas obras, esses dois centros de conferências, obras do GOE do Ministério da Construção e das Obras Públicas segundo a ministra, provavelmente algumas da Omapatalo que está em todas as festas, cheiram àquele projecto do Bairro dos Ministérios que foi tão criticado pelo seu caracter supérfluo, fútil e inadequado que desapareceu de cena... mas que parece ter mudado de nome, ter assumido um perfil mais discreto, diria escondido até - porque algumas das obras naquela zona nem se sabe quanto custam e que empresas receberam os contratos ou por que via – mas cheira tudo ao projecto do Bairro dos Ministérios que o ministro da Construção e Obras Públicas indicou em entrevista na ‘TV de todos nós’ que era para avançar independentemente de quaisquer criticas. O Bairro dos Ministérios estendia-se da Marginal, precisamente, até à Chicala, onde estão os tais dois centros de conferências…
A qualidade da despesa pública, definida pelo governo, definitivamente não augura nada de bom para o investimento de qualquer receita proveniente de financiamento contratado às costas da alta de preços do petróleo, mas é com esperança teimosa, querido leitor, que marcamos aqui encontro e até à próxima na sua Rádio Essencial.




Não a perdoo, senhora Ministra!