Esperança, Resignação ou Continuidade?...

11 Mar. 2026 Suely de Melo Opinião

Nestes dias que andaram, muitos foram os assuntos que animaram a praça pública... Como já é hábito, o angolano vê-se encurralado entre um tema e outro, sem saber se o guião foi escrito num Gabinete de Acção Psicológica para manter o velho “pão e circo”. Mais circo do que pão, diga-se de passagem, a caminhada ficou marcada pelo aniversário da Polícia Nacional…

Esperança, Resignação ou Continuidade?...

Nestes dias que andaram, muitos foram os assuntos que animaram a praça pública... Como já é hábito, o angolano vê-se encurralado entre um tema e outro, sem saber se o guião foi escrito num Gabinete de Acção Psicológica para manter o velho “pão e circo”. Mais circo do que pão, diga-se de passagem, a caminhada ficou marcada pelo aniversário da Polícia Nacional… Cinquenta anos dedicados a manter a ordem, ou a desordem, dependendo do ponto de vista. Meio século de um órgão tão "republicano" que a principal função é manter a harmonia do regime. Que o digam os activistas e os “do contra” que já provaram a doçura dos rebuçados e chocolates. Em todo o caso, parabéns aos envolvidos. Manter um país em silêncio durante 50 anos exige um fôlego que nem Usain Bolt se pode gabar de ter. Mas o prémio de "Melhor Performance Dramática" vai para o Juiz Presidente do Tribunal Supremo.  Na abertura do ano judicial, o magistrado decidiu "abrir as cubas" e, num momento de lucidez (ou de lapso), confirmou o segredo mais mal guardado do país: a alta corte confunde-se agora com o mercado do 30. A corrupção entre magistrados atingiu tal nível de sofisticação que já se pergunta se as sentenças aceitam pagamento por Express. Na abertura do ano judicial, o juiz Presidente não perdeu a oportunidade de choramingar.  Queixou-se da falta de meios, da ausência de orçamentos autónomos e da precariedade das infra-estruturas. Enquanto o seu antecessor parecia viver num mundo onde as coisas aconteciam por decreto divino, Norberto Sodré João trouxe uma lista de compras, como quem diz: "Querem justiça célere? Então deem-me salas condignas, carros e dinheiro". E como "néné que não chora, não mama" a caneta dos ajustes directos correu mais depressa que os gatunos do kikolo e lá foi autorizada a compra de mais de 30 viaturas. Pelos vistos, a independência dos tribunais em Angola mede-se em cavalos de potência e estofos de pele. Enquanto isso, num universo paralelo, temos o mais alto magistrado da Nação para quem, no que diz respeito à justiça, Angola nunca esteve tão bem. Para o chefe de Estado, Angola é um país cada vez mais plural e estão absolutamente garantidas as liberdades individuais e colectivas. Na Angola de João Lourenço há um comprometimento com o reforço das instituições, consolidação do Estado de direito e com a afirmação de uma justiça independente, credível e eficaz.  Sua excelência, é exactamente nessa Angola onde todos nós queremos viver. Se não for pedir muito, leve-nos pra lá, ‘as soon as possible’, porque o país onde acordamos hoje parece ligeiramente diferente. Lá fora, o cenário é de "Operação Especial". Donald Trump, decidiu que o Direito Internacional é apenas uma sugestão opcional e invadiu o Irão. O pretexto? "Salvar o povo", aquela velha desculpa que costuma vir acompanhada de cheiro a petróleo. E o nosso governo, mestre na diplomacia do "nem sim, nem não, antes pelo contrário", emitiu uma nota absolutamente carregada de nada. Não condenou, não apoiou. Ficou ali, pendurado no muro da conveniência. Afinal, entre a soberania dos povos e a estabilidade da moeda verde, o nosso coração e o nosso bolso batem sempre mais forte pelo ‘Tio Sam’. O Direito Internacional que espere; ele não paga facturas de carros de luxo. Num país onde a diplomacia se faz com calculadoras e a justiça se compra no stand de automóveis, no final deste ano judicial deveremos resumi-lo em Esperança, Resignação ou Continuidade?...

 

*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 06 de Março de 2026