E agora pergunto eu...

18 Nov. 2020 Geralda Embaló Opinião

Uma passadeira para lugar nenhum, interrompida a meio da estrada por um canteiro de plantas ali colocadas para ficar bonito, e que acaba fazendo o peão correr o risco de ser atropelado... A imagem, entretanto já corrigida, era da frente do hotel inaugurado pelo Presidente da República no dia da Dipanda e parece a alegoria perfeita daquela expressão que o nosso também comandante em chefe, um chefe que adora parábolas, usou num discurso há algum tempo em que disse que “o apressado come cru” ou outro em que disse que “só Jesus Cristo fazia milagres”.

Mas provavelmente mais alegórico, mais simbólico da contramão com a realidade em que vai o governo é o inaugurar de uma unidade hoteleira de luxo numa altura que já bateu todos os records históricos de queda de ocupação a nível mundial.

O turismo é dos sectores mais que mais sofre com a pandemia, com estimativas da Forbes por exemplo a apontar para perdas acima de um trilião de dólares americanos, nada menos que 12 zeros. Mas aqui, que o turismo já era decadente, em que as principais unidades hoteleiras já lutavam pela sobrevivência com uma média de ocupação em torno dos 40 por cento antes do covid (a maioria menos do que isso), é aqui que é boa altura para inaugurar uma unidade hoteleira de luxo.

Aqui ao lado, na África do Sul uma estimativa de junho deste ano apontava para o fecho permanente de perto de 30% das unidades hoteleiras do país onde o sector contribuía no ano passado perto de 30 mil milhões de USD para o PIB (cerca de 8,6%).

Portugal é um mercado com um turismo robusto em que o sector antes do covid contribuía cerca com quase 20% do PIB (mais de 45 mil milhões de USD) e tem agora centenas de unidades hoteleiras a fechar, sem ter data para reabertura. Mas é aqui, num país em que o turismo andava em torno dos 3% do PIB antes da covid, (com cerca de 40 milhões de USD) que o PR em estado de calamidade acha que é boa altura para inaugurar unidades hoteleiras de luxo. E não satisfeito com isso o chefe das parábolas, numa altura em que o sector a nível internacional estima a perda de empregos em torno dos 100 milhões de postos de trabalho, decide que é oportuno num país com mais de 60% de desemprego entre os jovens, prometer com a inauguração, 900 empregos para jovens. Numa Angola em que os jovens estão tão desesperados por emprego que arriscam a vida a protestar na rua por melhores condições de vida. E nada menos do que 900 empregos, quando as maiores unidades hoteleiras de luxo em Portugal, e que atingem 100% da ocupação (com cerca de 300 quartos), empregam em torno de 300 pessoas. É verdade que a nova unidade em Luanda tem 377 quartos mas as contas que levam a 900 empregos continuam a parecer longínquas se não mesmo utópicas.

Naturalmente, no dia seguinte ao anúncio gerou-se um ajuntamento de jovens esperançados, de currículo na mão a pedir um dos 900 empregos anunciados pelo presidente. E agora pergunto eu, prometeu 500 mil empregos e autárquicas, mas continua a falar em números de sonho? Que parábola é indicada para que o chefe perceba o impacto prático das suas próprias palavras? O peixe morre pela boca? Havia necessidade de dar esperanças falsas a jovens desesperados? Quem e que actividade é que vai pagar os salários que o presidente prometeu desta vez? Quase não há viagens, o turismo anda a zeros, e a ter despesas com pagamento de salários e manutenção de estrutura sem receita, quem vai absorver esse prejuízo para que o chefe tenha uma fita para cortar? A administração do hotel já se viu obrigada a vir esclarecer que os 900 empregos são uma meta gradual, quando a demanda assim o justificar e o projecto já estiver em pleno funcionamento. O que a avaliar pela realidade do nosso turismo, e pela ocupação dos outros hotéis de luxo da capital vai demorar. Vai demorar bastaste.

São estas contas confusas que fazem com que circulem na net piadas a dizer aos portugueses “voltem só foi um equívoco”, 45 anos depois. É que até os poucos postos de trabalho que a inauguração em dia da Dipanda criou, foram preenchidos em agosto, para desilusão adicional dos jovens à porta de currículo na mão em busca dos 900 empregos do presidente (das parábolas e metáforas)...

A clareza de linguagem dos líderes é instrumental particularmente em períodos de crise. E falar em metáforas e parábolas que deixam sempre demasiado espaço a interpretações é receita para o desastre frequentemente.

O presidente conseguiu ser claro quanto a lamentar a detenção de jornalistas credenciados, mas não foi claro na condenação da violência policial e o resultado, desta vez foi não haver jornalistas detidos, mas registar-se o costumeiro excesso de violência policial contra os manifestantes, resultando numa morte. E o que custa a compreender é a ausência dessa instrução clara. Não se matam cidadãos como se fossem cabritos só porque se pode. Não se mata um jovem que reivindica emprego, que reivindica o que lhe foi prometido pelos líderes do país. A actuação musculada da polícia é espelho do posicionamento musculado do presidente e do seu governo. E como a constituição torna o presidente todo poderoso, também o torna todo responsável por esta morte perfeitamente aberrante. Impõem-se as devidas desculpas sentidas à família que perdeu o jovem. E mais reformas sérias do que fitas para cortar só para a fotografia. 

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