E agora pergunto eu...

19 Jan. 2021 Geralda Embaló Opinião

Esta semana voltámos a impor regras de circulação devido à pandemia e pelo mundo fora o covid desdobrou-se em mais umas quantas novas variantes. Depois da variante mais contagiosa que havia surgido na Inglaterra, surgiu a ainda mais contagiosa na África-do-sul, depois foi detectada outra variante desconhecida vinda do brasil, e nos EUA esta semana anunciaram que outra nova variante está a preocupar as autoridades e também as farmacêuticas que ainda não têm a certeza de que as vacinas, em que já investiram tanto vão combater eficazmente estas novas estirpes do vírus.

O que é comum a todas a estirpes que vêm sendo detectadas é que todas estas variantes são aparentemente mais perigosas, mais infeciosas, mais resistentes e contagiosas do que a primeira versão do covid 19. É o vírus a adaptar-se para fazer melhor o seu trabalho de se espalhar e reinar incontestado. Devíamos nós ter essa flexibilidade e capacidade de nos adaptarmos para a eficácia que certamente não teríamos os atrasos civilizacionais que temos. As empresas que se adaptaram mais rápido à nova realidade pandémica foram as que melhor se safaram da desdita. As fábricas que conseguiram passar a produzir materiais de bio-segurança, como batas descartáveis para os médicos ou que passaram a produzir sabão, os restaurantes que adaptaram o negócio para as entregas, os escritórios que conseguiram manter o pessoal a trabalhar à distância, enfim aqueles que dentro da sua actividade lhes foi possível adaptar rapidamente às circunstâncias adversas e continuar. Nalguns casos a prosperar... A Amazon, que foi, com as farmacêuticas e com a Tesla por exemplo, das que mais valor agregou em 2020, anunciou a compra de uma frota de aviões que vai fazer com que deixe de depender de transporte de outras empresas para fazer as suas entregas. É claro que indústrias que não têm como se reinventar e adaptar-se como o vírus, como é o caso do sector do turismo e das viagens por exemplo, continuam a sofrer uma morte dolorosa. O Financial Times escrevia na semana passada que o sector perdeu mais de 700 mil milhões de dólares. O nosso OGE que compreende todas as despesas e receitas do país para este ano, não chega a vinte mil milhões. É muito dinheiro perdido, muita empresa de rastos e muito desemprego num dos sectores mais empregadores do mundo. E, não há capacidade de adaptar que acompanhe a rapidez vertiginosa com a nossa realidade está a mudar por causa do vírus.

Apesar de detestável por razões obvias, a capacidade do vírus de se adaptar para melhor cumprir a sua missão, a capacidade de se desdobrar em variantes cada vez mais avançadas e mais fortes devia servir de lição para nós, humanos, não apenas no que toca ao tecido empresarial, que é tão importante para garantir sustento para as famílias, mas também a nível social e até a nível pessoal. Esta lógica da adaptabilidade para evolução é instrumental para esse crescimento e esse desenvolvimento social e pessoal que nos faz tanta falta e que se quer acelerado. Um exemplo é o sector da educação que a nível mundial se está a tentar adaptar rapidamente a um paradigma de ensino à distância que poderia permitir a massificação da educação e fazer com que chegue a zonas cada vez mais remotas com cada vez mais facilidade. Mas há vários outros exemplos onde essa flexibilidade e capacidade de adaptar a novas realidades, e desenvolvimento seria importante.

Entre nós o domínio da política é certamente um desses exemplos.

Os comentários dos leitores à primeira edição do Valor Económico de 2021, que trazia uma extensa entrevista com o líder do maior partido da oposição, Adalberto da costa Júnior, são paradigmáticos, e a nossa realidade no que toca a política é um caso de estudo do contrário da adaptabilidade que permite crescer eficazmente. É um caso de estudo de marasmo, de estagnação e de paragem no tempo.

As discussões giram em torno de temas como a guerra, que dizem os do partido maioritário que a UNITA prolongou. Giram em torno das origens e ‘genuinidade’ dos candidatos, de quem é mais e menos angolano, e quanto a este tema, que aliás é comum aos dois partidos para infelicidade geral, vale aqui citar um comentário mais adulto de um dos leitores, que esclarece o seguinte em resposta “quando não tem assunto não diga disparates. Angolano genuíno só os kamussekeles, vulgo koisans os restantes são todos invasores. Os habitantes originais de Angola foram os caçadores colectores Koissan. A expansão dos povos bantu, chegados do norte, acontece a partir do segundo milénio”. É claro que como mucubal de sangue e de origem só posso adorar este comentário.

Mas há mais argumentos frequentes que giram em torno de mesquinharias atiradas uma arrogância e soberba alicerçadas numa superioridade (que até a nivel numérico é questionável). Argumentos atirados com um fervor clubístico, um hooliganismo político, à laia de adeptos de futebol em ebulição que se julgam inimigos de morte e nem sabem já bem explicar porquê, porque o tempo e o uso constante das mesmas acusações as foi desgastando de modo a retirar-lhes muito do sentido. Um desses argumentos mais cacimbados pelo uso é o de que ‘a oposição não está preparada para assumir o poder’, (o que até pode ser verdade porque não temos provas de que esteja), mas e agora pergunto eu, o que dirá de nós enquanto Nação, quando há décadas não há alternativa ao mesmo partido que se impregnou e se quase se substituiu as instituições do Estado? O que se passa connosco que conseguimos identificar tanta coisa mal (tanto que o slogan do maioritário é precisamente corrigir o que está mal) mas longe de corrigir continuamos a não construir alternativas viáveis? O que se passa connosco? O que pensam de nós lá fora os estrangeiros, que queremos que venham investir quando quase meio século depois de governados pelas mesmas caras (que vão mudando ligeiramente entre si de acordo com as suas próprias guerras intestinas), continuamos a não ter alternativas capazes? Não se riem quando falamos na nossa democracia tão atípica em que reinam os mesmos? E o que diz de nós quando os centros de discussão e da argumentação política são os mesmos há tanto tempo: uma guerra que terminou há duas décadas; os genuínos e não genuínos, as origens, os tons de pele; a perene e teórica ‘falta de preparação’, tudo menos propostas de governo concretas, com base em dados fiáveis em vez de em demagogia, propostas que nos dêem alguma esperança no futuro, que nos mostrem um caminho claro e consensual?

Nada disso se discute, e como diziam alguns internautas “é triste”. 

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