E agora pergunto eu...

27 Jan. 2021 Geralda Embaló Opinião

A actualidade internacional foi marcada pela saída de Donald Trump da Casa Branca pela porta de trás e prometendo voltar de alguma maneira e também pelos discursos do novo presidente americano, Joe Biden que promete unir e restituir os EUA à sua condição de superpotência mais respeitada e poderosa do mundo, coisa que me pergunto se será mesmo o melhor para todo o mundo... De resto a saída inglória de Trump é sobretudo uma derrota clara do populismo, da política divisionista, das estratégias demagogas que usam discursos do ‘nós contra eles’ que se refletem depois no tipo de retrocesso e descida às trevas civilizacionais que se viu no dia da invasão ao Capitólio por mascarados com cornos e sem camisa a entoarem cânticos de guerra. 

São as mesmas estratégias políticas divisionistas do “nós somos os bons a combater os maus” que são marca do candidato mais polémico que apareceu na cena política portuguesa, André Ventura, evidente um oportunista politico que mereceu por isso mesmo o voto de quase meio milhão de portugueses que confiaram no discurso que manda pretos para as suas terras e promete correr com os ciganos... Faltas de caracter xenófobas e abjectas que aliás parecem ser cada vez mais características dos políticos em geral. Trump simbolizava os americanos de bem contra os mexicanos e os estrangeiros que invadem a América para roubar os postos de trabalho dos americanos e o Ventura diz que representa os portugueses de bem contra o sistema, ciganos que não querem trabalhar e estrangeiros que roubam Portugal... Foi apedrejado quando ia a caminho de um comício, teve sempre manifestações de protesto contra os seus discursos racistas, mas saiu-se bem nas urnas.

Não nos faltam exemplos de populismo e da estratégia dos vilões que temos que combater. Por aqui vemo-las há décadas e os políticos não se envergonham de lhes fazer recurso descarado.

O problema é que essas estratégias de marketing político que apostam no divisionismo e no populismo têm ganhos geralmente de curto prazo, porque as cobranças chegam tanto mais rápido, quanto são inflamados os discursos de incentivo ao ódio. É essa cobrança que explica que agora quando o MPLA fala em combate à corrupção, a primeira coisa que se lhe pergunta é “então e os vossos intocáveis, esses são corruptons bons”? Os que como escrevia a Forbes esta semana a propósito da queda de Isabel dos Santos da lista dos bilionários, “alguns dos piores mafiosos parecem ter feito um acordo de cavalheiros com o PR Lourenço e que são deixados em paz”? A expectativa que o dito combate criou com tanto discurso de aponta o criminoso de incentivo ao julgamento popular, ao ódio, à divisão foi tal, que a cobrança, a factura (a entrega dos amigos) é demasiado alta para pagar... Imagine o leitor que soltou um leão para perseguir o seu vizinho malandro, sem se lembrar, que uma vez solto, depois de engolir o vizinho o leão vai voltar a ter fome e depois vem atrás de quem o soltou, porque é um animal selvagem. Assim é o populismo e o divisionismo político como estratégias de marketing.

O economista e deputado da CASA CE, Justino Pinto de Andrade, lembrou isso mesmo quando referiu que, entretanto, “o país fica adiado”, e adiado continua enquanto os leões soltos decidem quem engolir a seguir, e enquanto quem os soltou vai pensando que os controla e dedicando tempo e energia a esse exercício infeliz e semeando cada vez mais discórdia e mais atraso. Ao ouvir o discurso de vitória de Marcelo Rebelo de Sousa só ocorre a sorte que é ter lideranças desassombradas, inteligentes, agregadoras, capazes de inspirar, principalmente em meio de crise...

Aqui, e a propósito de semear atraso, e agora pergunto eu, que maior prova de que o país anda adiado nessas operações de caça política do que a reportagem sobre a paralisação da única instituição do país que produz estatísticas que servem de base à política económica? O Valor Económico da semana passada contava como o Instituto Nacional de Estatística, uma instituição que como poucas em Angola ainda merecia a confiança das instituições internacionais e que produzia informação com base em números muitas vezes financiada por essas instituições, está a usar esses fundos para pagar despesas de operação porque não produz quase nada. Os técnicos vêm se envoltos em politiquices com os políticos a ditarem números com base nas suas preocupações populistas e com isso a deitarem por terra a confiança na informação produzida. Como é que os decisores tomam decisões sobre política económica se não têm números de confiança para se basearem? Será por isso que o governo anda por aí a aplaudir-se pela redução das importações como se fossem sinónimo de suprimento das necessidades pela produção interna? Não admira que os governantes andem por aí inchados a pensar que estão a fazer boa figura, porque por aqui os números podem ser ‘batulados’ como a idade dos jogadores de futebol, “a inflação é 30% epah isso fica mal, põe aí 15% ou 20”... Que confiança é possível que cidadãos, o próprio governo os investidores tenham num país que nem estatísticas consegue produzir em condições? Se não sabemos em que pé estamos, como saber onde vamos?

Outras histórias de intervenção do governo em domínios que não domina, como são as estatísticas, ou como é por exemplo a gestão de supermercados que tem sido desastrosa como também noticiado na semana passada pelo Expansão, que falava das prateleiras vazias no Kero, são mais atestados de fracasso dessas políticas populistas que são tão pouco racionais.

O Estado tem de se preocupar com o bem-estar dos cidadãos em vez de se preocupar com produzir heróis que combatem vilões, homens fortes tipo pai grande que já vimos com que rapidez podem passar de bestial a besta quando assim convém a alguém que mande. O Estado deve investir no que fica e no que dura. Nas instituições. Na saúde, na segurança, inclusive na alimentar, na educação... Populismos e divisionismos semeiam hoje as tempestades que vão colher amanhã. E o pior é que o país, como lembrou o deputado continua adiado.

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