A pressa de João Lourenço e o capote do general 4x4
Enquanto o "Chefe", em gozo de férias ou visitas privadas, (ninguém sabe ao certo) pelas terras de Pelé, na companhia da primeira-dama, descansa os olhos da azáfama de Luanda, o "general 4x4" não perdeu tempo e aproveitou para fazer das suas.
Enquanto o "Chefe", em gozo de férias ou visitas privadas, (ninguém sabe ao certo) pelas terras de Pelé, na companhia da primeira-dama, descansa os olhos da azáfama de Luanda, o "general 4x4" não perdeu tempo e aproveitou para fazer das suas. O percurso até aqui, no entanto, não foi pacífico. Acusações de desvios de brinquedos, contestações sobre frotas de carros, e os fantasmas habituais do peculato e do branqueamento de capitais a pairar no ar. O próprio general já se tinha vindo queixar publicamente de um tabuleiro de jogo viciado. Falou em tratamento desigual, denunciou as barreiras quase intransponíveis na recolha de assinaturas e chegou a sugerir uma aparatosa tentativa de assalto para lhe desviarem os preciosos papéis. Mas quem pensava que o "4x4" ficaria atolado no terreno, enganou-se. Demonstrando ter estudado afincadamente “A Arte da Guerra”, o general aplicou a máxima de Sun Tzu: “é mais importante ser mais inteligente do que o inimigo mais poderoso”.
Enquanto a máquina oficial do "Chefe" se apressou a dar uma demonstração de força, apresentando os seus "caonze" mil documentos, apenas dois dias após manifestar o desejo de concorrer, o general, que já tinha cerca de 10 mil assinaturas e se viu obrigado a recomeçar do zero, conseguiu dar "capote" aos seus detratores. Contudo, nestas paragens, a prudência é a mãe de todas as virtudes. Como o general bem deve saber, cantar vitória antes do tempo na política angolana é um desporto de alto risco. Tratando-se da engrenagem do MPLA, não seria de admirar se as suas 19 mil manifestações de apoio sofressem uma "dieta forçada" e se transformassem em apenas mil assinaturas validadas pela comissão de verificação. O ambiente de tensão e desconfiança é de tal ordem que nem o coordenador da subcomissão de candidaturas quis figurar na fotografia desta suposta "festa da democracia". No momento decisivo, ninguém lhe viu o rasto. Como dita o velho e sábio adágio popular: afinal, quem tem... tem medo. E assim, Job Capapinha simplesmente tomou um valente "chá de sumiço", preferindo a segurança do anonimato momentâneo ao risco de ser apanhado no fogo cruzado entre os pesos-pesados que disputam o assento no ‘trono’. Para amainar os ânimos do “chefe”, os “militontos” vão se carregar e ‘kukulu’, ‘kukulu’ marchar em nome da sua honra. Mas afinal, como se atreve Higino Carneiro apresentar tal número de assinaturas e ainda se gabar que continuam a chegar outras?! Quanto atrevimento! É como digo, a cada semana esta série fica mais interessante e duvido haver vivalma que não esteja expectante pelos próximos capítulos.
Enquanto isso… lá na Assembleia nacional, o MPLA aprovou o novo Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares. Primeiro, fomos assombrados pelo fantasma da "caça à zungueira". O boato correu solto e dizia-se que o Estado, faminto por receitas, ia colocar um imposto no balaio da senhora que vende micate e ginguba. A AGT veio logo a público desmentir clarificando que o critério não é a actividade, mas o volume de rendimento, ou seja, um mínimo de subsistência de 150 mil kwanzas mensais. Depois descobrimos outro problema. A nova lei introduz a obrigatoriedade de o contribuinte declarar a globalidade dos seus rendimentos. Ficámos todos com a ideia de que a AGT passaria a ter um controlo total sobre a nossa vida financeira e ganharia "carta branca" para devassar o sigilo bancário. Desta vez, a própria Ministra das Finanças teve de vestir o colete de bombeira para apagar o incêndio dos rumores, garantindo que o sigilo bancário não virou fumaça. Mas como gato escaldado tem medo de água fria e depois de tantas promessas que já vimos virar cinza, há que olhar para a garantia da ministra com um olho fechado e o outro bem aberto. Num país onde todos os dias nos dão provas de que não se dever confiar nas instituições, como ousam pedir ao cidadão que acredite piamente nos limites da lei? O receio popular não é uma alucinação colectiva. Quando o cidadão comum ouve falar num maior escrutínio financeiro, a imagem que lhe vem à cabeça não é a de um algoritmo a cruzar dados. A imagem real é a do "gatuno da AGT", aquele funcionário que muitas vezes confunde a cobrança pública com o enriquecimento privado. Quem nos garante que o acesso aos dados não vai virar uma ferramenta de chantagem de bastidores? Quem nos assegura não se vai usar o pretexto da nova lei para espreitar o extracto do pequeno comerciante? Se nem os cofres públicos estão totalmente a salvo de quem os devia gerir, com que autoridade nos pedem para abrir as portas da nossa privacidade financeira?
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 26 de Junho de 2026




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