Brasil – Eleições municipais traduzem reorientações

24 Nov. 2020 Opinião

No próximo domingo, 29, vão decorrer 57 segundas-voltas das eleições municipais do Brasil. São cidades de grande porte onde ninguém conseguiu maioria absoluta na primeira-volta, embora tenha ficado patente um recuo na popularidade do presidente Bolsonaro enquanto o PT do ex-presidente Lula não recuperou a sua antiga força.

Destas 57, há 18 capitais de Estado, incluindo os dois maiores colégios eleitorais do país e os seus dois maiores centros industriais: São Paulo e Rio de Janeiro. Na capital paulista, defrontam-se o atual prefeito, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB, do ex-presidente FH Cardoso) e Guilherme Boulos do Partido Socialismo e Liberdade (Psol, esquerda). No Rio, os adversários são o atual prefeito, Marcelo Crivela, bispo evangélico apoiado por Jair Bolsonaro e o ex-prefeito Eduardo Paes, do Democratas (DEM, direita liberal), partido que venceu na primeira-volta em municípios importantes, como Salvador (Bahia) e Florianópolis (Santa Catarina).

Outro município de alto volume populacional e económico, Belo Horizonte (Minas Gerais) reelegeu o atual prefeito, também de linha liberal, embora o seu partido tenha a designação de social-democrata (PSD). Trata-se de personalidade de muita visibilidade por ter sido presidente de um dos maiores clubes do Brasil, o Atlético Mineiro.

Entre as outras grandes cidades com segunda-volta, em Recife (Pernambuco) a esquerda vai conquistar a Prefeitura, pois ambos os candidatos são de partidos dessa tendência e, curiosamente, primos. As sondagens de opinião atribuem favoritismo a Marilia Arraes, do PT, com 55% das intenções contra 45% a seu primo, João Campos, do Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Em Porto Alegre (Rio Grande do Sul) e São Luís do Maranhão os panoramas seriam diferentes. Na capital gaúcha, as sondagens apontam para Sebastião Melo, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB, aglomerado de várias tendências de centro e direita), com 61% das intenções de voto e 38% para Manuela D’Ávila, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Em São Luís, onde o governador Flávio Dino também é PC do B, a sua base de apoio dividiu-se, enfraquecendo-o como pré-candidato de esquerda às eleições presidenciais de 2022.

Aliás, no Rio de Janeiro, se a esquerda tivesse apresentado candidato único, estaria na segunda-volta, pois a soma das suas três candidaturas era superior à do prefeito Crivela. Este está em grande dificuldade segundo as sondagens que lhe atribuem apenas 29% contra 71% do seu adversário.

Em São Paulo, ao Prefeito Bruno Covas as mesmas sondagens – tanto do IBOPE como da Datafolha – atribuem fortes chances de reeleição com 58%, enquanto Boulos faria 42%. Ambos são grandes adversários políticos do presidente Bolsonaro.

Avaliações independentes assinalam que Bolsonaro é penalizado pelo seu negacionismo em relação à pandemia e pelos discursos em tom de autoritarismo, enquanto o PT continua a sofrer larga rejeição pelo envolvimento em casos de corrupção e ter apresentado baixos níveis de gestão a partir de 2012 (o que deu lugar ás manifestações de protesto em 2013).

Assim, reemergem partidos tradicionais onde se produziram reavaliações da situação. Pode não se tratar de mera reaparição da política tradicional, mas da sua reorientação  em bases mais rigorosas de liberalismo (político e económico) e prováveis reaproximações voltadas para as presidenciais de 2022.

A esquerda continua a ter no PT o seu partido principal, mas a soma das demais formações (PDT, PSB, PSOL) ultrapassa-o em número de eleitores, aconselhando a mais moderação petista na reclamação de liderança.

O desempenho do PT nesta segunda-volta pode diminuir o impacto dos recuos, caso vença em grandes cidades onde está na disputa, como Recife e Fortaleza (Ceará)

Quanto a Bolsonaro envolve-se menos na segunda-volta e joga em medidas económicas e sociais a serem tornadas públicas após as eleições e que, elaboradas há alguns meses, foram suspensas em virtude do calendário eleitoral.

No Brasil, há 5.568 municípios e 145 milhões de eleitores.

Nos totais da primeira-volta, o MDB conquistou 755 prefeituras; o PP (próximo do poder), 671; o PSD, 633; o PSDB, 491; o DEM, 423 e, em 11.º lugar, o PT obteve 174. Mas, como o tamanho dos municípios em número de eleitores é muito variável, o total de votos para cada partido cria outra classificação.

Assim, o MDB mantém o primeiro lugar com cerca de 10,9 milhões de eleitores, o PSDB e o PSD sobem a segundo, na faixa dos 10,6 cada um. O DEM fez 8,2 milhões e o PT apareceu em sexto, com 6,9 milhões de eleitores. Outras duas formações de esquerda ou centro esquerda – o PDT e o PSB – representam, respetivamente, 5,3 e 5,2 milhões de eleitores.

Até aqui, há apenas 11% de mulheres eleitas para dirigir municípios e 32% de negros, mestiços (classificados como “pardos”), índios e pessoas de ascendência asiática. Na segunda-volta, considerando os cargos de prefeito e vice-prefeito, há 20 candidatas e 94 candidatos. Em termos raciais, são 81 brancos, 32 negros e mestiços e um que desconhecemos nestes termos.

Como em todo o mundo, as eleições locais ultrapassam sempre esse âmbito, sobretudo em épocas de grandes crises. Desta forma, as municipais brasileiras são um teste de força e de eventual evolução partidária, já com os olhos nas eleições nacionais de 2022.

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