E agora pergunto eu...

06 Oct. 2021 Geralda Embaló Opinião
E agora pergunto eu...

A semana que passou foi um pouco marcada por fugas à justiça... Uma senhora de 96 anos foi apanhada depois de fugir ao tribunal que a acusa de cumplicidade no assassinato de 11 mil das 65 mil pessoas que morreram num campo de concentração nazi onde era secretária em 1945. Em Portugal o fugão que está a marcar a actualidade é mais novo e banqueiro, o ex-líder do Banco Privado Português, João Rendeiro que foi condenado pela terceira vez por burla agravada, mas diz que não vai aceitar ser bode expiatório do desejo de se castigar quando não há outros castigados - fugiu tendo agora um mandato internacional de prisão. Entre nós a notícia da semana passada não foi tanto uma fuga à justiça como foi um regresso, depois de uma ausência prolongada...  O antigo presidente da Tcul e da Unicargas, Abel Cosme, foi entregue pela justiça portuguesa à justiça angolana. E, pelo que se escreve (e ainda ninguém desmentiu) foi trazido de jacto privado de Lisboa para Luanda com custos para o Estado superiores ao valor da caução que terá pagado para ficar em liberdade, (provavelmente por não ter cometido o que quer que tenha sido que Augusto Tomás de facto cometeu, não necessariamente contra a lei, mas contra quem nela manda - o jornal O Crime chama-lhe ‘o preso do presidente’).

Mas a nossa actualidade fundamentalmente e mais uma vez, voltou a ser marcada pela pandemia do Covid19, que segundo o ministério da saúde ultrapassou a malária em número de mortos pela primeira vez, no que começa a ser visto oficialmente como a terceira vaga da pandemia, com um pico de mortes e de novas infecções.

E a resposta do nosso governo foi fechar novamente as praias e piscinas que abriu há pouco tempo e que registaram imediatas enchentes, mas bem mais curioso, a decisão foi impor o certificado de vacinação à entrada de espaços públicos, de instituições públicas e restaurantes entre outros a partir de 15 de outubro com o objectivo de reforçar e transmitir a mensagem da importância da vacinação.

Estas decisões que põem o carro à frente dos bois cada vez mais se tornam marca registada do governo. E é incrível que parece que não aprendemos nada mesmo depois de vermos que essas decisões mal ponderadas, sem consideração ao nosso contexto, correm muitas vezes mal. Basta lembrar o médico que morreu às mãos da polícia porque o governo decidiu que as máscaras eram obrigatórias, mesmo quando o cidadão estivesse sozinho fechado no carro - coisa que não se fazia em lado nenhum e que, conhecendo a nossa polícia e o hábito reconhecido da gasosa - seria previsível que pudesse correr mal.

Mas e agora pergunto eu, o governo antes de decidir a obrigatoriedade do certificado para passar mensagem da importância da vacinação considerou o facto de poder não ter capacidade de vacinar? Considerou o facto de a vacinação no país ter uma das taxas mais baixas do mundo?

Portugal tem neste momento a taxa mais alta de vacinação do mundo perto de 85% da população, Angola andará pelos 5% de taxa de vacinação, mas está a impor medidas que só fariam sentido em países com taxa de vacinação elevada... não há ninguém que lembre aos nossos governantes que ‘galinha não segue pato’? Mas porque é que tomam decisões emocionados, sem considerar os efeitos dessas decisões para o colectivo, como se estivessem simplesmente a gerir o quintal de casa? A confusão que se vai gerar - como aliás já se gerou com a decisão de obrigatoriedade de vacina para viagens (quando ainda por cima em muitos países as vacinas tomadas em África nem tão pouco são reconhecidas) que causou filas de gente desesperada que já tinha viagem marcada e foi apanhada de surpresa quando nem havia capacidade para gerir aquele tipo de afluência urgente – é tudo confusão perfeitamente antecipável e desnecessária. E ainda por cima a quantidade de vacinas que Angola tem, e a capacidade de as administrar à população são variáveis que o governo não controla porque por mais boa vontade que tenha não depende de si.

Se durante muito tempo as farmacêuticas nem conseguiam dar resposta em termos de produção para países ricos, é num país africano que tem dependido de doações com cerca de 5% da população vacinada que o certificado - que nem tão pouco é obrigatório desta forma nos países com vacinação acima dos 75% - é o melhor caminho?

Tomam-se decisões que vão novamente limitar as pessoas, limitar a circulação e com isso limitar a economia novamente, como se tivessem já vacinado muita gente e tivessem assegurada a capacidade de vacinar o resto... Este atabalhoamento, esta vontade de tomar decisões, a pressa que põe a ‘carroça à frente dos bois’ vai-se tornando marca registada da displicência com que se ignora o contexto do país.

E não faltam exemplos de decisões deste tipo. O fecho de instituições de ensino superior sem acautelar o direcionamento de estudantes que já investiram tempo e dinheiro; a decisão do BNA de impôr o abastecimento dos caixas automáticos, sem um plano que materialize essa decisão, a imposição de barreiras aduaneiras sem acautelar as regras da Organização Mundial de Comércio que o país subscreve, o aumento das propinas num contexto em que é evidente que as famílias estão descapitalizadas e em que a inflação se estima continuar em alta - enfim gestão de quintal, de “virem-se como quiserem, decidimos – cumpra-se. Como? É problema vosso.” Uma gestão que acusa falta de empatia para além de falta de capacidade.

P.S. Depois de esta opinião ir para o ar na Rádio Essencial sexta-feira, o governo anunciou com a pompa (pimpa?) do costume que até ao fim do ano espera receber mais de sete milhões de vacinas... no entanto, as medidas que exigem certificado para entrada em instituições públicas e até restaurantes (coitada da restauração) entram em vigor dia 15 deste mês... perguntas para quê? É o “virem-se como quiserem”

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico
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