E agora pergunto eu...

13 Oct. 2021 Geralda Embaló Opinião

Na semana que passou, foi finalmente anunciada, pela Organização Mundial de Saúde, uma vacina contra a causa número um de mortes em Angola, uma boa notícia a que a ‘TV de todos nós’ dedicou imenso tempo para nos distrair da anterior – a abjecta decisão do Tribunal Constitucional de anular o Congresso da Unita dois anos depois. É sempre um exercício curioso para quem se interessa por comunicação analisar as pequenas e grandes manipulações da máquina que tenta controlar a opinião pública... no entanto, actualidade mundial foi ainda marcada pelo anúncio do Prémio Nobel da Paz, que foi para dois jornalistas que, segundo o presidente do Comité Nobel, “são representantes da classe, num mundo em que a liberdade de imprensa – pré-condição para a democracia e para a paz duradoura, enfrenta condições cada vez mais adversas”.

E agora pergunto eu...

“Condições adversas” é uma expressão que, cada vez mais, se adequa à actualidade do nosso país, quanto mais não seja porque os poucos meios de comunicação que conseguem sobreviver vão trazendo imagens da miséria cada vez mais chocantes em que vivem os angolanos. O ‘Novo Jornal’ trazia na capa da semana que passou uma chamada dizendo que, no Namibe, há pessoas a alimentarem-se do sangue recolhido nas valas de matadouros para sobreviver... E o Governo continua a resistir a declarar estado de emergência e a não fazer nada com sustentabilidade suficiente para atender à fome que está a massacrar o Sul do país (uns cabazes quando o PR visita, certamente não resolvem os problemas). Mas é por estes e outros retratos que a imprensa divulga, estas realidades que contrastam com as narrativas vigentes, que é tão importante esse pilar da democracia que é a imprensa livre.

Em Angola, temos visto esse pilar da democracia cada vez mais usado e abusado descaradamente pelo poder. Temos visto o açambarcamento descarado de órgãos de comunicação, temos visto a guerra velada à independência dos meios de comunicação, a intimidação de jornalistas, o empobrecimento e morte dos media privados. Temos visto como esse pilar, que é pré-condição para a democracia e para a paz, é usado cada vez mais como mero papel higiénico do poder, cumprindo uma agenda que decide o que é e não é actualidade e informação de utilidade pública. E imagens de fome extrema por exemplo, assim como tudo o resto que contrarie a vontade do poder, simplesmente são riscados dessa agenda. E, infelizmente, na semana que passou, ficou mais uma vez comprovado que não é o único papel higiénico que o poder, caprichoso que é, faz questão de usar – a justiça esta cada vez mais metida nesse rolo e obrigada a assistir à sua independência, à sua seriedade e respeitabilidade, borradas sem dó pelo poder... 

A decisão preanunciada pelo comunicado do MPLA, que dizia que Adalberto Costa Júnior ‘estava por um fio’ (o linguajar truculento que o poder adoptou na vigência de João Lourenço), depois aquela antecipação atabalhoada de que o congresso da Unita seria invalidado que foi anunciada pelos media públicos no dia da formalização da Frente Patriótica (para a ofuscar em mais uma manipulação), e a posterior confirmação pelo TC, deixam ‘o rei completamente nu, enquanto se passeia arrogante convencido de que as suas vergonhas estão cobertas pelo mais lindo tecido’...

É, no mínimo, irónico que caiba a uma pessoa com dupla nacionalidade, um processo de nulificação de outra alegadamente por não ter abdicado da sua dupla nacionalidade atempadamente. É irónico que se nulifique uma eleição, claramente para beneficiar uma pessoa que tão-pouco foi eleita no seu próprio partido, tendo sido apontada por um dedo (que poucos duvidam que já estaria um pouco podre). E é irónico também que subsistam mais dúvidas de que JLo ganhasse, caso tivesse sido submetido a eleições internas, do que existam dúvidas de que ACJ seria eleito novamente em novo congresso dos maninhos. E pior, com o combate de esgoto que tem sido levado a cabo contra ele nestes dois anos, provavelmente a vitória seria (ou será) mais retumbante porque cada vez se torna mais evidente que a pretensa divisão entre as fileiras da Unita parece só existir no imaginário militonto do partido no poder e certamente com a sua influência desestabilizadora. Diz-se, muitas vezes para justificar golpes baixos e política suja, que, ‘em política, vale tudo’, mas a verdade é que não deveria valer se quisermos governação com ética e caracter.

Mas pode ser que o nosso Presidente venha ‘salvar’ a situação e diga “NÃO! Podem deixar a Oposição em paz que eu não tenho medo de ninguém” – como já disse que a Oposição ‘podia ir buscar os amigos e vizinhos que o MPLA encarava’...  Isso poderia pelo menos aliviar o nojo colectivo que a decisão politizada do TC gerou – uma decisão claramente baseada na teima do MPLA – que a anunciou em primeira mão – em escolher quem vai ser o adversário que terá pela frente. ‘Chivukuvuku não, Adalberto também não’. O MPLA parece só aceitar concorrer com Samakuva. É de um absurdo cinematográfico a preocupação visível com o que se passa na Unita, os anúncios de que traições internas na Unita mas feito pelo partido no poder, os debates, as discussões, a criação de desinformação e boatos, tudo à volta da vida interna da Unita, por um MPLA mesquinho e amedrontado, em tudo irreconhecível quando comparado ao passado em que não tinha opositor à altura...

Mas não seria de todo a primeira vez que o PR vinha desfazer alguma borrada feita pelo seu próprio governo e partido (que só obedecem na integra às suas próprias ordens). O bairro dos ministérios, que seria impensável que não tivesse passado pela sua aprovação, foi depois travado porque se tornou impopular. A biblioteca milionária e dentista da Cidade Alta, que supostamente terão sido retiradas do OGE, também é impensável que não tenha passado pela sua aprovação. Mais recentemente, as propostas de alteração à Constituição que o seu partido defendeu com unhas e dentes e que, depois, o PR veio rejeitar, teriam sempre passagem obrigatória pela sua mão antes de chegarem a público. Mais recentemente, vimos o apelo a que os órgãos públicos de comunicação “conversassem com a Oposição” – como se não fossem manietados pelas vontades do partido que lidera – e como se o próprio PR desse o exemplo e mantivesse essa abertura. Enfim não faltam exemplos do PR a resolver problemas criados por si mesmo ou pela sua liderança. Pergunto-me se a tendência não será patológica. Há uma síndrome chamada do Síndrome do Bombeiro Incendiário que, por vezes, também é chamada síndrome do herói e que leva bombeiros a criarem incêndios para depois irem combater. Nos EUA, há estudos que apontam para que, pelo menos, 100 bombeiros sejam condenados todos os anos por fogo posto devido a essa síndrome, é comum. Em Portugal, foi preso em Agosto um antigo bombeiro que se identificou ser o causador de pelo menos 28 fogos – o nosso combatente de incêndios criados por si mesmo não estaria sozinho nesse combate... E agora pergunto eu, sendo que esses incêndios cada vez mais vão transformando em cinza a credibilidade do maioritário, o que será necessário para que não resvalem para queimar mais do que já queimaram, sobretudo em tempo que seria útil para resolver os problemas do país?

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico
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