APP VE

Sacrificai-vos para a manutenção do partido como força dominante

09 Apr. 2019 César Silveira Opinião

‘Vos não sereis a primeira vítima, outros, dentro e fora do partido, foram sacrificados para que o MPLA tivesse a força que tem. Caros camaradas, alguns de vocês terão de cair para evitar que caiamos no descrédito com sérias consequências para a nossa manutenção como força dominante’.

Se não é este o discurso nos grupos mais restritos do MPLA, era preferível que fosse. Seria mais compreensível, menos chocante e repugnante do que ouvir o também Presidente da República a deixar a entender que o objectivo do partido, ao combater a corrupção, é garantir a manutenção do partido como força dominante do país.

O combate à corrupção não pode ter como principal objectivo a manutenção do MPLA, partido cujos militantes já deram provas de não terem coragem de criticar, apoiando as decisões e práticas do líder mesmo quando estas significam danos para o Estado.

O combate à corrupção deve ser movido principalmente pelo interesse do Estado, ainda que o sucesso possa representar a queda do MPLA. Um discurso nesta perspectiva estaria mais à altura de um estadista. A mensagem deve ser no sentido de mostrar disposição de tudo fazer para pôr em prática o discurso da ‘tolerância zero’ para com a corrupção. Mas o que ficou implícito é que o MPLA sente a necessidade de fazer alguma coisa apenas para não continuar a nada fazer e a ficar cada vez mais fragilizado.

Pode parecer que, ao trabalhar para merecer a confiança do povo, o MPLA estaria necessariamente a servir o Estado. Não é bem assim. A ter como interesse imediato inverter a tendência de perda de votos das duas últimas eleições, o partido facilmente colocaria em segundo plano os caminhos que exigissem, por exemplo, três ou mais anos para o alcance de resultados positivos e sustentados, caso estes caminhos estivessem em conflito com o que garantisse a vitória imediata nas eleições.

Parece uma decisão tomada. Alguns camaradas, e preferencialmente pessoas e nomes sonantes, terão de ser sacrificados em nome da manutenção do MPLA como força dominante.

Se necessário for, o próprio Estado poderá ser sacrificado em nome do MPLA, como pode já ter acontecido no caso Jean Claude Bastos de Morais. É legítimo pensar que sim. Porque é que se aposta na publicidade do valor supostamente recuperado e não no que deixámos de receber, ao se interromper as aplicações que estavam em curso?

Portanto, parece uma decisão tomada. Salvar o MPLA depois da perda de votos nas últimas eleições. A dúvida é se a estratégia resulta apenas da agenda de João Lourenço ou se de um plano devidamente elaborado ainda antes da saída de José Eduardo dos Santos.

César Silveira, Editor Executivo Valor Económico

César Silveira

César Silveira

Editor Executivo do Valor Económico