Apenas a industrialização pode salvar Angola
Angola é, sem dúvida, um dos países mais ricos em recursos naturais do continente africano. Petróleo, gás natural, diamantes, minerais metálicos, vastas extensões de terras aráveis e um enorme potencial hidroeléctrico colocam o país numa posição privilegiada do ponto de vista dos factores naturais de produção.
Angola é, sem dúvida, um dos países mais ricos em recursos naturais do continente africano. Petróleo, gás natural, diamantes, minerais metálicos, vastas extensões de terras aráveis e um enorme potencial hidroeléctrico colocam o país numa posição privilegiada do ponto de vista dos factores naturais de produção. Poucos países africanos dispõem de uma combinação tão abrangente de recursos estratégicos.
No entanto, a experiência das últimas décadas demonstra que a abundância de recursos, por si só, não garante desenvolvimento sustentável, prosperidade duradoura nem estabilidade social. Apesar de períodos de forte crescimento económico, Angola continua a enfrentar desafios estruturais profundos: dependência excessiva do petróleo, fraca diversificação produtiva, elevado desemprego juvenil, forte dependência das importações e vulnerabilidade às oscilações externas.
Esses desafios não são circunstanciais nem transitórios. Eles revelam um problema de fundo: o modelo de crescimento baseado predominantemente na exportação de matérias-primas atingiu os seus limites. Neste contexto, torna-se cada vez mais evidente que apenas a industrialização pode alterar, de forma estrutural e duradoura, o destino económico e social de Angola.
A economia dos recursos: vantagens iniciais e limites estruturais
Durante muitos anos, o sector petrolífero desempenhou um papel decisivo na reconstrução nacional e no financiamento do Estado angolano. As receitas do petróleo permitiram investir em infra-estruturas, estabilizar as finanças públicas em determinados períodos e inserir Angola nos fluxos da economia global.
Contudo, essa mesma dependência criou fragilidades profundas. A exportação de matérias-primas caracteriza-se por um baixo nível de transformação local, reduzido valor acrescentado e fraca capacidade de geração de emprego. Além disso, os preços dos recursos naturais são definidos nos mercados internacionais, fora do controlo nacional.
Sempre que o preço do petróleo sobe, a economia beneficia temporariamente. Quando cai, surgem pressões cambiais, défices fiscais, inflação e dificuldades sociais. Esta dinâmica cíclica demonstra que a riqueza baseada exclusivamente em recursos é instável e imprevisível.
Mais ainda, uma economia excessivamente dependente de recursos tende a negligenciar o desenvolvimento de outros sectores produtivos, enfraquecendo a base industrial e tecnológica do país. O resultado é uma economia vulnerável, pouco diversificada e dependente do exterior.
Industrialização: de extracção para
criação de valor
A industrialização representa uma mudança qualitativa no modelo económico. Em vez de exportar recursos em estado bruto, a indústria permite transformá-los, agregar valor e criar cadeias produtivas completas dentro do território nacional.
Um barril de petróleo exportado gera uma receita única. Mas, quando esse petróleo é transformado localmente em combustíveis, produtos petroquímicos, plásticos, fertilizantes ou materiais industriais, ele passa a gerar valor de forma contínua, criando empregos, competências técnicas e receitas fiscais recorrentes.
O mesmo princípio aplica-se aos minerais, à agricultura e a outros recursos naturais. A diferença entre um país rico em recursos e um país desenvolvido reside precisamente na sua capacidade de industrializar esses recursos.
O emprego como eixo central do desenvolvimento
Angola possui uma população jovem e em rápido crescimento. Este factor demográfico pode ser uma vantagem estratégica, mas apenas se o país for capaz de criar empregos suficientes e de qualidade.
O sector petrolífero, apesar da sua importância económica, emprega relativamente poucas pessoas. A agricultura, embora essencial, ainda enfrenta desafios estruturais relacionados com produtividade, infra-estruturas e acesso a mercados. O sector dos serviços, quando não apoiado por uma base industrial sólida, tende a concentrar-se em actividades informais e de baixo valor.
Neste contexto, a industrialização surge como a única via capaz de criar emprego em larga escala, especialmente empregos intermédios, que são fundamentais para a formação de uma classe média sólida. Técnicos industriais, operadores, mecânicos, engenheiros, gestores de produção e profissionais de logística são pilares de uma economia moderna.
Sem indústria, o país corre o risco de desperdiçar o seu capital humano, agravando tensões sociais e limitando as oportunidades para as novas gerações.
A indústria como base da estabilidade social
A experiência internacional demonstra que sociedades mais estáveis e equilibradas são aquelas que conseguem formar uma classe média numerosa. Essa classe média não surge da distribuição de rendas de recursos, mas sim do trabalho produtivo, da indústria e da economia real.
A industrialização cria rendimentos estáveis, previsíveis e baseados no mérito e na qualificação. Ao fazê-lo, fortalece a coesão social, reduz desigualdades extremas e cria expectativas de progresso individual e colectivo.
Sem uma base industrial, a economia tende a polarizar-se entre uma pequena elite ligada aos recursos e uma grande maioria com rendimentos instáveis, o que fragiliza o tecido social e político.
Capacidade do Estado e
soberania económica
Um Estado moderno necessita de receitas fiscais estáveis para cumprir as suas funções fundamentais: educação, saúde, infra-estruturas, segurança e governação eficiente. As receitas provenientes dos recursos naturais são elevadas, mas altamente voláteis. Já a indústria gera uma base fiscal mais diversificada e previsível.
Além disso, a indústria fortalece a soberania económica. Países sem base industrial dependem fortemente de importações de bens essenciais, equipamentos e tecnologia. Em períodos de crise global, essa dependência pode tornar-se crítica.
A pandemia, as tensões geopolíticas e as ruturas nas cadeias globais de abastecimento mostraram claramente os riscos da dependência excessiva do exterior. A industrialização é, portanto, também uma questão de segurança nacional.
Agricultura e serviços: pilares complementares, não substitutos
Não se trata de opor indústria à agricultura ou aos serviços. Pelo contrário, um modelo de desenvolvimento equilibrado exige a integração dos três sectores. A agricultura fornece matérias-primas e segurança alimentar. A indústria transforma, agrega valor e cria emprego. Os serviços avançados surgem como consequência natural de uma economia produtiva forte.
A história económica mostra que nenhum país alcançou o desenvolvimento sustentável ignorando a industrialização. Saltar directamente de uma economia primária para uma economia de serviços sofisticados é uma ilusão que raramente se concretiza.
Uma industrialização adaptada à realidade angolana
Industrializar não significa repetir modelos ultrapassados ou ambientalmente insustentáveis. Angola tem a oportunidade de seguir uma via de industrialização moderna, gradual e estratégica, baseada nas suas vantagens comparativas e nas exigências do século XXI.
Entre as prioridades destacam-se:
•Transformação local de recursos naturais;
•Desenvolvimento da
agroindústria;
•Indústrias de substituição
de importações;
•Materiais de construção e bens essenciais;
•Criação de zonas económicas especiais e parques industriais;
•Atracção de investimento estrangeiro com transferência de tecnologia;
•Formação técnica e
profissional alinhada com as necessidades industriais;
•Integração regional
através da SADC e da Zona
de Comércio Livre
Continental Africana.
O sucesso da industrialização exige políticas públicas coerentes, estabilidade institucional, investimento em capital humano e uma parceria estratégica entre o Estado e o sector privado.
Conclusão: o futuro constrói-se com indústria
Os recursos naturais podem definir o ponto de partida de uma nação, mas não determinam o seu futuro. O verdadeiro desenvolvimento nasce da capacidade de transformar, produzir, empregar e inovar.
Sem indústria, a riqueza esgota-se e a economia permanece vulnerável. Com indústria, os recursos tornam-se a base de um crescimento inclusivo, soberano e sustentável.
Para Angola, a industrialização não é uma opção ideológica nem uma escolha entre várias alternativas equivalentes. É uma necessidade histórica e estratégica.
O país dispõe dos recursos, da juventude e do potencial necessários. O desafio agora é transformar essas vantagens em capacidade produtiva real. O destino de Angola não será decidido pelo que extrai do subsolo, mas pelo que consegue produzir com inteligência, trabalho e visão de longo prazo.
A indústria é o caminho. E o tempo para o percorrer é agora.




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