E agora pergunto eu...

18 Feb. 2026 Geralda Embaló Opinião

Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana em que se assinalou o Dia Mundial da Rádio, esse meio que permite esta conversa semanal na Rádio Essencial e que procura contribuir para a consciencialização, para o desenvolvimento, para o sentido colectivo de cidadania, para dar voz às ansiedades, felicidades e desejos dos angolanos para a sua Angola.

E agora pergunto eu...
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Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana em que se assinalou o Dia Mundial da Rádio, esse meio que permite esta conversa semanal na Rádio Essencial e que procura contribuir para a consciencialização, para o desenvolvimento, para o sentido colectivo de cidadania, para dar voz às ansiedades, felicidades e desejos dos angolanos para a sua Angola.

Vale perguntar porque é que o governo continua a manter Angola como único lusófono sem rádios comunitárias...

Este é também um final de semana em que o chefe se juntou a outros chefes de Estado africanos, em Adis, na Etiópia, onde foi proceder à passagem de pastas ao próximo presidente desse corpo disfuncional, composto por nações maioritariamente desunidas, mas a que a esperança continua a chamar União Africana... Esperança, sempre querido leitor... esperança sempre.

São mais de 50 os conflitos armados no continente; cerca de 20 novos nos últimos anos, se contarmos instabilidade em países como a Nigéria, Burkina Faso, Somália, Mali e o Sudão, quase metade dos conflitos armados de todo o mundo está no continente dessa União Africana. São mais de 40 milhões os deslocados africanos. Uma catástrofe que tem vindo a piorar... A União Africana anda longe de se materializar unida de facto.

Mas se pensa que deixar o cargo de presidente da UA pelo menos significa que o homem vai voar menos e talvez passar mais tempo a tentar rectificar as múltiplas faltas da sua governação que está perto de chegar ao fim do segundo mandato -  desengane-se o querido leitor - porque o chefe de Estado - e do Estado de coisas - vai passar agora a presidente do Comité de Orientação dos Chefes de Estado e de Governo da Agência de Desenvolvimento da União Africana... e continua a ter desculpa para esvoaçar como quer... ‘Nos merece!’ Num país funcional os custos das viagens do presidente seriam matéria de inquérito público na Assembleia Nacional, mas o que nos calha é mais “presidente do Comité de Orientação dos Chefes de Estado e de Governo da Agência de Desenvolvimento da União Africana...

O presidente do Ruanda, que volta e meia diz umas coisas desbocadas e que já disse que o nosso chefe “não gosta de ouvir, que não se podia dizer nada que não fosse do seu agrado”, entre outras críticas de vaidade e ‘madoísmo’, quando disse por exemplo que “as pessoas que lideram os processos de paz tornaram-se mais importantes do que os resultados desses processos, o que contribui para que não haja soluções.” Paul Kagame provavelmente questiona-se quais as experiências de desenvolvimento que terá o presidente do Comité de Orientação dos Chefes de Estado que possa passar aos homólogos que tem para orientar. E agora pergunto eu, o que foi que o chefe de Estado - e do estado de coisas - desenvolveu que seja de utilidade para orientar os homólogos? Poderá ter desenvolvido a sua fazenda, as suas fontes de renda, e as dos seus, mas, em termos de desenvolvimento colectivo, com benefício para a comunidade, quais são os exemplos se, após oito anos de governo, (e muitos mais de outros cargos no governo e no partido que governa) o país que lidera está mais pobre, mais debilitado, mais convidativo à imigração do que o que encontrou? Até o seu carro-chefe, a luta contra a corrupção, perdeu completamente o brilho dos foguetes iniciais com Angola a manter posição negativa no índice de percepção da corrupção, (apesar da melhoria de um lugar em 2025 para o centésimo vigésimo de uma lista de 182 países). O país continua a ser percepcionado como corrupto, sendo que a percepção interna é a de que o combate à corrupção não passou de execução de lista de vingança e de passagem de bens da mão de uns para outros escolhidos a dedo.

Bem, a propósito dessa transferência, na página do VE no Facebook, na semana que passou, os comentários acerca da possibilidade de entrada do grupo Carrinho na Unitel refletiam precisamente a náusea que essa transferência ostensiva já vem causando, essa construção dos novos monopólios que o chefe de Estado e do Estado de coisas dizia vir combater… Novamente, que experiência terá o chefe para servir de orientação aos homólogos no próximo cargo na União Africana?

Mais gravosos do que técnicas de acumulação primitiva são os maus tratos aos direitos humanos, que aparecem na forma de leis repressivas e na forma da erosão do papel das instituições para benefício de quem está no poder... Exemplos dessas leis, aqui neste espaço são mencionados até à exaustão, porque são de facto comprometedoras das liberdades e direitos dos cidadãos, tentam constantemente cercear o espaço público, lei da Segurança Nacional, do Vandalismo, das ONG, das Fake News, do Cybercrime, um pacote envenenado oferecido aos cidadãos como mecanismos de segurança, mas que visam em primeira mão assegurar que o poder se mantem nas mesmas mãos enquanto os atropelos às liberdades sobem de tom.

No final da semana o maior partido na oposição apresentou um relatório que é atestado de como o chefe de Estado e o Estado de coisas tem no seu perfil governativo mais do que definitivamente não deve passar aos homólogos, mais do que se envergonhar, do que o contrário. Segundo o relatório da UNITA, 14 menores foram mortos em Angola pela actuação policial durante os protestos de julho do ano passado, de um total de 90 mortes, 51 das quais documentadas pormenorizadamente!

Os números oficiais estacionaram nos 29 corpos, que já eram muitos mortos às mãos de autoridades que deviam proteger o cidadão, mas andaram em vez disso a caçar pessoas nas ruas, a ponto de chegar ao cúmulo de matar uma mãe que fugia desarmada com um filho pela mão.

O número de mortos oficial ficou pelo caminho; negou às famílias o reconhecimento e mentiu desavergonhadamente aos angolanos, negou qualquer tipo de responsabilização que pudesse começar um processo de luto condigno. Segundo o maior partido na oposição, são mais de três centenas as execuções que os mandatos do presidente - que vai orientar o desenvolvimento dos outros chefes de Estado africanos - carregam… O que terá de positivo para transmitir, para além talvez de “como escolher os melhores aviões e viaturas” (um tema em que se parece ter especializado), o que terá de experiência que diga respeito ao desenvolvimento de nações, quando a nação que dirige andou para trás? Esperança, querido leitor, é preciso muita para manter alguma sanidade num mundo tão mais cheio de perguntas do que de respostas. E é com ela que marcamos encontro aqui, e até à próxima, na sua Rádio Essencial.

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico