A TENTAÇÃO DO PETRÓLEO CARO

O cenário que coloca sobre a mesa a possibilidade de Angola beneficiar de receitas petrolíferas extraordinárias, como resultado do agravamento do conflito no Médio Oriente, pode revelar-se um problema maior do que a tendência crescente da dívida pública observada nos últimos anos — podendo, inclusive, agravá-la ao virar da esquina.

A TENTAÇÃO DO  PETRÓLEO CARO
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O cenário que coloca sobre a mesa a possibilidade de Angola beneficiar de receitas petrolíferas extraordinárias, como resultado do agravamento do conflito no Médio Oriente, pode revelar-se um problema maior do que a tendência crescente da dívida pública observada nos últimos anos — podendo, inclusive, agravá-la ao virar da esquina.

A entrada inesperada de recursos tende a criar nos governantes um sentimento ilusório de que os problemas estruturais foram resolvidos e que, por isso, chegou a hora de celebrar.

A história recente mostra, aliás, que o Executivo raramente aproveita estes momentos para consolidar as contas públicas. Pelo contrário, activa o seu conhecido modo despesista — sobretudo quando estas “boas notícias” surgem em anos pré-eleitorais ou eleitorais, como acontece actualmente. Multiplicam-se então as festas, avançam projectos megalómanos que mais tarde exigem financiamentos adicionais e intensificam-se as já dispendiosas deslocações oficiais.

Por tudo isso, a possibilidade de as receitas nacionais beneficiarem do aumento do preço do petróleo carrega inevitavelmente um sentimento agridoce. Para um país dependente desta commodity, a abundância pode revelar-se tão perigosa quanto a escassez, caso não venha acompanhada de disciplina orçamental e visão estratégica.

Ainda assim, mesmo entre os mais cépticos, persiste a esperança de que desta vez o poder político escolha agir com verdadeiro compromisso de Estado, transformando uma oportunidade conjuntural numa base sólida para o futuro. O dilema é que, em Angola, a fronteira entre os cofres do Estado e os interesses do partido que governa — o MPLA — tem sido, demasiadas vezes, pouco nítida, sobretudo quando o calendário eleitoral começa a aproximar-se.