ENTRE A UNITEL E A MOVICEL, ONDE ESTÁ A URGÊNCIA DO ESTADO?

Pelo que tudo indica, a privatização de 15% da Unitel encontra-se em uma fase decisiva. Os detalhes da Oferta Pública de Venda (OPV) devem ser conhecidos, oficialmente, dentro de dias. Mais do que um passo no Programa de Privatizações (PROPRIV), a operação pode representar um importante impulso para o mercado de capitais angolano, assim como alargar as oportunidades de investimento, embora com muitas suspeições ainda.

ENTRE A UNITEL E A MOVICEL, ONDE ESTÁ A URGÊNCIA DO ESTADO?
Mário Mujetes

Pelo que tudo indica, a privatização de 15% da Unitel encontra-se em uma fase decisiva. Os detalhes da Oferta Pública de Venda (OPV) devem ser conhecidos, oficialmente, dentro de dias. Mais do que um passo no Programa de Privatizações (PROPRIV), a operação pode representar um importante impulso para o mercado de capitais angolano, assim como alargar as oportunidades de investimento, embora com muitas suspeições ainda.

Porém, há uma questão que este processo levanta. Porque é que o Estado imprime tanta urgência à privatização de uma empresa sólida, lucrativa e financeiramente saudável, mas revela tanta lentidão na definição do futuro de outra empresa onde é accionista e que se encontra praticamente em colapso? É comparação e é inevitável.

Enquanto a Unitel fechou 2025 com lucros superiores a 158 mil milhões de kwanzas, mais de 20 milhões de clientes e uma posição dominante no mercado, a Movicel terminou o mesmo exercício com apenas 302 mil subscritores, depois de perder quase 80% da sua carteira em apenas quatro anos. A empresa encontra-se em falência técnica, enfrenta dificuldades para manter a rede operacional, acumula problemas financeiros e poderá voltar a depender de uma injecção de recursos públicos para continuar a funcionar.

A Unitel pode ser privatizada este ano ou daqui a alguns meses sem que isso altere significativamente o seu valor. Trata-se de uma empresa rentável, capaz de gerar dividendos, financiar os seus investimentos e continuar atractiva para os investidores.

A Movicel vive exactamente a situação inversa. Cada mês que passa sem uma solução definitiva significa mais clientes perdidos, activos mais desvalorizados, menor capacidade competitiva e maiores probabilidades de o Estado voltar a ser chamado para financiar prejuízos. O tempo joga contra a empresa.

É por isso que a discussão não deve centrar-se apenas na venda da Unitel. Deve centrar-se na ordem das prioridades do Estado enquanto accionista.

Se o objectivo das privatizações fosse apenas arrecadar receitas, seria compreensível começar pelos activos mais apetecíveis. Mas essa visão seria demasiado curta.

As receitas das privatizações representam uma parcela modesta das necessidades financeiras do Estado. O verdadeiro propósito de um programa desta natureza deve ser aumentar a eficiência das empresas, atrair investimento privado, preservar emprego, estimular a concorrência e reduzir o risco de futuras responsabilidades para os contribuintes.

Sob essa perspectiva, a urgência parece estar do lado da Movicel.

Encontrar um parceiro estratégico, decidir o modelo accionista ou definir o futuro da empresa tornou-se uma necessidade económica e não apenas uma opção política. Adiar essa decisão significa aceitar que um activo continue a perder valor, aumentando simultaneamente a probabilidade de novos encargos para o erário.

Também merece reflexão o momento escolhido para a privatização parcial da Unitel. Parte da actual estrutura accionista resulta de processos de nacionalização relativamente recentes, que continuam a suscitar reservas e cuja estabilidade jurídica poderá ainda vir a ser escrutinada. Não se trata de colocar em causa a operação, mas de perguntar se o calendário escolhido é, efectivamente, o mais prudente.

Nenhum destes argumentos constitui uma defesa do adiamento da privatização da Unitel. A empresa deverá entrar em bolsa quando estiverem reunidas todas as condições para o efeito.

O que se questiona são as prioridades. Um bom accionista não mede o sucesso pela rapidez com que vende os seus melhores activos. Mede-o pela capacidade de tomar, a tempo, as decisões mais difíceis. É precisamente esse teste que hoje se coloca ao Estado angolano.