Guerra no Médio Oriente coloca segurança alimentar em África sob ameaça
Conjuntura. Investigador entende que situação coincide com a diminuição do financiamento da ajuda externa, tanto dos Estados, como dos investimentos diretos, ou das grandes agências multilaterais e o encerramento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID).
A guerra contra o Irão que alastrou ao Médio Oriente está a afectar preços, transportes e a segurança alimentar em África, devido, entre outros factores, à escassez de fertilizantes, uma situação que considera estar muito além da questão energética.
O investigador e especialista em temas africanos Miguel Silva alertou, em declarações à Lusa, que o impacto mais imediato no continente africano “é de facto o energético”, mas considerou redutor analisá-lo isoladamente, uma vez que este afecta directamente os sectores agrícola, dos transportes e da distribuição de bens.
A insegurança alimentar tende a agravar-se rapidamente caso se verifique uma subida simultânea dos preços do combustível, dos fertilizantes e dos alimentos importados, afirmou o também docente no Forward College, da London School of Economics and Political Science, em Lisboa.
“Em países africanos, caracterizados por economias muito dependentes da importação de combustíveis e bens essenciais como alimentos, medicamentos ou fertilizantes, o choque transforma-se rapidamente em inflação importada, com aumento do custo de vida e maior vulnerabilidade social, muitas vezes sem mecanismos de resposta comparáveis aos existentes na Europa”, salienta o pesquisador.
Em concreto, em países como Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Senegal — vizinho da Guiné-Bissau — ou Quénia, a subida do petróleo repercute-se não apenas no combustível, mas também nos transportes, nos alimentos, nos medicamentos e, de forma geral, no custo de vida.
De forma geral, esta situação resulta da dependência económica da maioria das nações africanas, uma característica que, segundo o investigador, é consequência de um processo de colonialismo “que nunca acabou verdadeiramente”.
O docente recordou ainda que esta conjuntura coincide com uma diminuição do financiamento da ajuda externa. “A menor capacidade de investimento — tanto dos Estados, como dos investimentos diretos, ou das grandes agências multilaterais e o encerramento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) — já tinha iniciado grande parte destes problemas”, referiu.
Na observação de Miguel Silva, os países africanos mais vulneráveis a esta crise são aqueles que enfrentam simultaneamente forte dependência de importações, moedas frágeis e pouca margem orçamental, sendo que os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) nesta condição estão Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Moçambique, sendo este último um caso particular devido a “razões mais complexas ligadas ao défice externo e ao peso das importações”, incluindo também países como Quénia, o Uganda, o Maláui e vários países do Sahel, onde poderá haver estagnação do crescimento económico e aumento da inflação.
Os Estados Unidos e Israel lançaram a 28 de Fevereiro um ataque militar contra o Irão, o que viria a ser retaliado com o encerramento do estreito de Ormuz e ataques contra alvos em Israel, bases norte-americanas e outras infraestruturas em países da região como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Líbano, Jordânia, Omã e Iraque.









COMBUSTÍVEL EM FALTA E DÍVIDA FORA DE CONTROLO