Democracia no MPLA?

Só quando Jesus voltar!...

28 Jan. 2026 Suely de Melo Opinião

Quando se pensou que o ‘status quo’ finalmente daria lugar a um rasgo de oxigénio, e que o odor a mofo do pensamento único seria dissipado por eleições democráticas num dos braços do "Partido", eis que nos despejam um balde de água gelada, ou, pelo menos, em aqueles que acreditaram.

Só quando Jesus voltar!...
Mário Mujetes

Quando se pensou que o ‘status quo’ finalmente daria lugar a um rasgo de oxigénio, e que o odor a mofo do pensamento único seria dissipado por eleições democráticas num dos braços do "Partido", eis que nos despejam um balde de água gelada, ou, pelo menos, em aqueles que acreditaram. Pela primeira vez na história, três senhoras ousaram predispor-se ao cadeirão máximo da OMA. O filtro do sistema, sempre atento, aprovou duas. Mas, como num passe de mágica, uma delas desistiu "misteriosamente" a meio do caminho. E quem restou no palco, sob os holofotes solitários? A candidata do consenso fabricado. A que dizem ser "yes man" por excelência, aquela que carrega no ADN político a submissão necessária e, claro, a indispensável bênção do "Papy". Nos dias que antecederam a retirada estratégica de Graciete Sungua, houve quem se permitisse o luxo de sonhar acordado. Chegou-se a especular que as candidaturas duplas (ainda que de fachada) na JMPLA e esta, agora falecida, dupla candidatura na OMA seriam o "balão de ensaio" para o carro-chefe. Uma espécie de democratização laboratorial. Pobre esperança, desperdiçada em quem já nos ensinou, por repetição, como o guião termina. A verdade nua e crua é que esperar por democracia interna no MPLA exige o mesmo nível de paciência espiritual que aguardar pela segunda vinda de Cristo. A diferença é que, na Bíblia, a promessa é de salvação; aqui, o milagre é apenas a sobrevivência das mesmas figuras de sempre. O que se avizinha é o óbvio: uma OMA cada vez mais desgastada e irrelevante. Se a gestão de Joana Tomás já se tinha encarregado de ofuscar o brilho e a utilidade social da organização, o tiro de misericórdia será, com alta probabilidade, disparado por Carlota Dias. Para completar a saga do protagonista da semana, diz-se à boca miúda que o MPLA terá antecipado o seu Congresso: de Dezembro para Julho. Ninguém confirmou, mas também ninguém se apressou a desmentir, como é habitual. Quais os motivos para esta pressa? Não me atrevo a especular. Num país onde a verdade é elástica, corro o risco de ser enquadrada na nova "Lei das Fake News" e bisar a doce experiência dos calabouços. Falando em leis… enquanto o partido se reorganiza às pressas, a Assembleia Nacional viveu uma semana de produtividade frenética, ao aprovar um pacote de leis que a sociedade civil contesta como quem vê o cerco apertar. Para os nossos iluminados representantes, o perigo para a nação não é a inflação galopante, os buracos que devoram pneus e vidas, ou os governantes que confundem o erário com a conta pessoal.  O verdadeiro "terrorista", pelos vistos, esconde-se atrás de carrinhas que distribuem cestas básicas e projectos de furos de água no interior, ou naquela associação de bairro que insiste em ensinar o povo a ler e a reclamar direitos. Num país onde o dinheiro desaparece em labirintos ministeriais sem deixar rasto, a prioridade máxima é auditar as contas das ONG. Para completar o ramalhete, temos a criminalização das fake news. Uma ferramenta preciosa que, dependendo de quem conta a “mentira” ou de quem interpreta a "verdade", pode transformar qualquer crítica legítima num atentado à segurança nacional. Aqui mais um diagnóstico se exige: caminhamos para um país onde o silêncio passa a ser a única opinião segura. Afinal, para quem quer governar sem ruído, nada é mais intolerável do que uma ONG incómoda ou um povo que sabe ler nas entrelinhas. Diante deste festival de desistências misteriosas, congressos à pressa e aprovação de leis que só servem aos interesses de alguns, resta-nos saber: no próximo espetáculo, o MPLA vai convidar o povo para assistir ou basta-nos continuar a pagar o bilhete?

 

*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 23 de Janeiro de 2026