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E agora pergunto eu...

10 Nov. 2021 Geralda Embaló Opinião
E agora pergunto eu...

Na semana que passou, decorreu um despique curioso entre o director do PAM, o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas, e o homem mais rico do mundo, ElonMusk, o dono da Tesla. David Beasley desafiou Elon Musk e Jeff Bezos, o segundo homem mais rico do mundo e dono da Amazon (que andam entretidos ultimamente a fazer viagens ao espaço), a focarem-se um pouco no que se passa no planeta Terra e doarem seis biliões de dólares para assegurar que 42 milhões de pessoas não morrem de fome. Elon Musk, que é conhecido por não levar desaforo para casa, respondeu ao desafio com um contra-desafio ao director do PAM, dizendo-lhe que venderia imediatamente acções da Tesla para doar esses seis biliões (que são só 2% da sua riqueza) se Beasley conseguisse comprovar que esse valor ia resolver o problema da fome, mostrando a contabilidade do programa e onde e como vai gastar. Beasley não baixou os braços e disse que não publicava as contas no Twitter, mas que convidava Musk a ver in loco as contas e os planos para mitigar a tempestade perfeita da covid-19 misturado com os conflitos e as crises climáticas que estão a multiplicar a pobreza. 

Até 2019, a taxa mundial de pobreza extrema seguia em queda consistente e situava-se nos 9.3% e a pandemia trouxe um retrocesso nesta tendência com um aumento para 9.5% em 2020 – duas décimas que equivalem a mais ou menos 120 milhões de novos pobres. Apesar da maioria dos novos pobres estarem na Ásia, é em África, o Berço da Humanidade, que moram as taxas de pobreza mais elevadas. Em 2019, África registava 70% da pobreza extremamundial apesar de ser o continente com mais recursos naturais. 

Mas este despique entre o director do PAM e o homem mais rico do mundo, que, como qualquer investidor, quer ter a certeza de que o seu investimento é bem aplicado, leva à tal pergunta ‘cacimbada’ do porquê um continente com tanta riqueza natural continua na condição de pedinte que depende das almas caridosas de fora?

E é claro que grande parte da resposta está na incapacidade das suas lideranças.

Basta pensar nas que vão de mão estendida pedir aos países desenvolvidos, mas que gastam fortunas em viagens de luxo de jacto privado para passear os sapatos e as pastas de pele de crocodilo em cimeiras ambientais onde vão dizer absurdos como energias limpas como prioridade num país sem saneamento e que literalmente vive de gerador (que não só consome energia suja como produz imensa poluição). São as novas promessas – Califórnia ambiental em 2025... Por mais que se tente não ser negativo ou cáustico, todas as semanas temos um novo ridículo a marcar a actualidade. As lideranças africanas, e a nossa em particular, mostram-se frequentemente um poço de confusão mental incapaz de se focar em prioridades que tirem o continente e sobretudo a região da África subsariana da condição de mendicidade em que parece estar presa.

Mas há outros factores que, sendo, em certa medida, imputáveis à incompetência das lideranças (que não os elencam como prioridades), não estão apenas nas suas mãos. Um desses factores que mantém a África subsariana no topo da pobreza extrema é sem dúvida a elevada taxa de crescimento demográfico. 

Os dez países com maior taxa de natalidade são o Níger, em que a média é de 6.9 por mulher, seguido pelo Congo, Mali, Chade, Angola com 5.5, a Nigéria, Burundi, Burquina Faso, Gâmbia e Uganda. Todos africanos e todos com taxas de pobreza elevada e em que, em média, cada mulher tem, no mínimo, 5 filhos.

Na semana passada, o entrevistado do Valor Económico, director de uma companhia de alumínio angolana, dizia temer um futuro complicado para Angola se nada mudar e que vê muita gente comer nos contentores de lixo. E dificilmente mudará porque as prioridades da nossa liderança claramente não são as pessoas e as crianças que cada vez mais comem nos contentores de lixo. As prioridades da governação que temos andam por aí a oscilar entre combates a inimigos pessoais, viajar e receber prémios por coisas que os governados não vêem feitas, substituir volta e meia ministros para animar a dança das cadeiras, adoptar novos programas de governo a meses de eleições (agora é o ambiente que está na berra) e, claro, manter o poder a qualquer custo usando as instituições e os poderes que forem necessários ainda que o preço seja a sua fragilização. 

E agora pergunto eu, porque é que não se conhece um programa claro com métricas compreensíveis, objectivas e realizáveis (no fundo, o mesmo que Elon Musk pedia ao director do PAM que apresentasse), que vise o controlo da taxa de crescimento populacional com medidas adaptadas à nossa realidade (e longe das medidas administrativas draconianas que usaram países asiáticos agora envelhecidos). 

Mas a taxa de crescimento demográfico é um desses factores que não é devido só à incompetência das lideranças – apesar da falta de programas de sensibilização e de educação que ajudem a mudar a mentalidade de que filhos em quantidade equivalem à riqueza. 

Toda a gente tem aquela tia, aquele tio que cobra filhos a toda a gente sem saber como é os pais vão alimentar esses filhos. Mas evitar ter um filho e deixar que as ruas o criem, que passe fome, sem saúde nem educação garantidas, num país onde o Estado já deixou bem claro que não se compromete com essas obrigações, é algo que está ao nosso alcance fazer e incutir essa responsabilidade nos mais novos também. No entanto, o tema do controlo da natalidade é frequentemente recebido ‘com sete pedras’. Vi recentemente uma jovem que é parte de um programa de sensibilização para divulgar contracetivos nas comunidades testemunhar que lhe “deram corrida nos mais velhos por sugerir a pílula”. E não é preciso ir longe porque tenho um tio que teve de enfrentar uma reunião familiar em fúria pelo ‘insulto’ de propor à sua própria mulher que tomasse a pilula para evitar que os cinco filhos que já têm se transformem em mais. Mas “mulher tem que nascer” é o slogan entre nós.

Temos um problema cultural com reflexos óbvios nas condições sociais. As crianças que nascem em famílias desmembradas sem garantia de alimentação, escola, saúde, entram com uma frequência avassaladora para as estatísticas infelizes de criminalidade quando conseguem fugir às de estatísticas da mortalidade infantil. 

O professor e economista Alves da Rocha dizia recentemente que só para cobrir o custo de reprodução o PIB teria de crescer a pelo menos 3,2% (a taxa de crescimento demográfico) para evitar a degradação das condições de vida. Isto numa economia que, não só não cresce, como há mais de cinco anos vem encolhendo, acumulando recessões. 

No entanto, provavelmente por chocar com essa cultura enraizada, provavelmente por não ser promessa popular (como a Califórnia), essa sensibilização para a responsabilidade de criar filhos com condições é proposta consistentemente ausente das prioridades não só dos governos dos países no top dez da natalidade, como também ausente das propostas das oposições que querem ser governo.

Governar deve ser mais do que um concurso de popularidade. Deve ser um plano com foco no presente e futuro. E criar filhos com responsabilidade, ao lado da educação pública e da saúde pública devia ser prioridade de qualquer aspirante a governo, assim como devia ser prioridade de cada um. É o futuro de todos que está em causa.

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico