Até quando vão atirar o nosso dinheiro ao ar?!
Não havia melhor altura para o Will Smith aterrar em Luanda, senão agora quando a encenação que corre pelos nossos tribunais tem potencial para ser o próximo grande estrondo de Hollywood, com a vantagem de que o guião já vem escrito pela criatividade das redes sociais
Não havia melhor altura para o Will Smith aterrar em Luanda, senão agora quando a encenação que corre pelos nossos tribunais tem potencial para ser o próximo grande estrondo de Hollywood, com a vantagem de que o guião já vem escrito pela criatividade das redes sociais. Para quem anda distraído, o mediático "caso russos" parece saído de um daqueles sites de conspiração obscuros, fabricados em democracias tão "exemplares" quanto a nossa. A base de tudo são histórias da carochinha digital e relatos sem rosto. Apesar de não ser espanto para ninguém, a defesa soltou a bomba: o Ministério Público, num esforço hercúleo de copy-paste, limitou-se a transcrever o que pescou na internet. Mantiveram o tipo de letra, o tamanho e até os erros. Para os nossos procuradores, que terão queimado anos nas cadeiras das universidades, a lógica é simples: "se dizem que eles fizeram isto noutro país, é porque também iam fazer aqui". Sem indícios, sem provas e sem factos, temos quatro pessoas detidas há quase oito meses porque alguém decidiu que o "ouvi dizer" da internet é a nova forma de produção de provas. No tribunal do clique, o Direito e o Código Penal foram atirados às calendas gregas, enquanto a justiça se entretém com contos de fadas digitais como se fossem verdades absolutas. Se o Will Smith não pegar nesta tragicomédia, perde a oportunidade de ganhar o segundo Óscar da vida. Mas, para o nosso azar, não é este argumento surreal que traz o astro norte-americano, já em fase de reforma, diga-se, ao nosso grande e belo país. Will Smith está cá para "vender" o nosso turismo. Não nos disseram quantos milhões foram gastos neste capricho, mas somos obrigados, mais uma vez, a ensinar o B-A-BA ao Executivo. Não adianta gastar fortunas com Messis ou Smiths quando o trabalho de casa está por fazer. Por muito que doa admitir, o país não está preparado para turistas em grande escala.
Como é que convidamos o mundo quando as nossas estradas são autênticos matadouros, muitas vezes por falta de iluminação e conservação? As nossas cidades estão reféns de uma criminalidade juvenil galopante, fruto de um sistema que empurra os jovens para o abismo. Que confiança terá o turista num sistema de saúde que mal nos serve a nós, quando for picado pelos nossos mosquitos de estimação, que proliferam num saneamento básico inexistente? Para ajudar à festa, os nossos preços são proibitivos e a nossa cultura de hospitalidade foi viciada: quando vemos alguém com uma cor diferente ou cheiro a "bufunfa", a regra é especular até ao tutano. Mas isso, "a Globo não mostra", bem, no caso as TPA’s. Meus senhores, por muito boa que seja a intenção, em nenhum lugar do mundo se começa a casa pelo tecto, e isso, teoricamente, já deveria ser do vosso conhecimento. A pergunta que não se cala é: depois de ver as nossas estradas, o nosso saneamento e o nosso Ministério Público a fazer investigação via Google, será que o Will Smith ainda vai ter lata de vender Luanda como o novo Dubai, ou vamos ter de admitir que, mais uma vez, o nosso dinheiro foi atirado ao ar?
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 27 de Março de 2026




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