DAS MINAS DE MUANGAI ÀS ESTRADAS DA MORTE

A polémica entre a Unita e o governo provincial do Moxico sobre a alegada existência de minas terrestres na localidade de Muangai levanta inevitavelmente diversas questões, das quais pode destacar-se a seguinte: como é possível que, mais de 24 anos após o fim da guerra, Angola ainda tenha zonas conhecidas minadas?

DAS MINAS DE MUANGAI ÀS ESTRADAS DA MORTE
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A polémica entre a Unita e o governo provincial do Moxico sobre a alegada existência de minas terrestres na localidade de Muangai levanta inevitavelmente diversas questões, das quais pode destacar-se a seguinte: como é possível que, mais de 24 anos após o fim da guerra, Angola ainda tenha zonas conhecidas minadas?

Não se trata apenas de um diferendo político. Trata-se de um retrato preocupante daquilo que pode ser um falhanço prolongado do Estado.

Durante décadas, Angola recebeu milhões de dólares, mobilizou recursos internos e contou com apoio internacional para a desminagem. Foram criadas instituições, lançadas campanhas, anunciados progressos. Mas, perante o simples anúncio de uma actividade política, surge novamente o fantasma das minas — como se o país ainda estivesse preso ao pós-guerra imediato.

Se há, de facto, zonas críticas por desminar, então é legítimo perguntar: onde foram aplicados os recursos? Que prioridades foram definidas? E por que razão, ao fim de tanto tempo, ainda existem dúvidas sobre a segurança de áreas conhecidas e historicamente relevantes?

Se, por outro lado, o risco está a ser amplificado por razões políticas ou administrativas, então a questão é ainda mais grave: está a instrumentalizar-se um tema sensível, colocando em causa a confiança pública e a própria credibilidade das instituições.

Em qualquer dos cenários, o resultado é o mesmo — um Estado que não consegue dar garantias claras aos seus cidadãos.

Mas há um ponto que torna este debate ainda mais paradoxal: enquanto se invoca o perigo das minas, um risco herdado da guerra, ignora-se uma ameaça actual, diária e muito mais letal — os acidentes rodoviários.

Nas estradas angolanas, a morte deixou de ser excepção para se tornar rotina. E, ao contrário das minas, que são um problema localizado, os acidentes estão por todo o lado. Mais grave ainda: começam a surgir padrões difíceis de ignorar, com múltiplos acidentes a ocorrerem nos mesmos troços, em curtos espaços de tempo, sem que haja uma resposta estrutural visível.

Isto não é coincidência. É falha.

É falha na fiscalização, na engenharia rodoviária, na sinalização, no controlo técnico das viaturas e na responsabilização dos infractores. É, sobretudo, falha de prioridade política.

Quando o Presidente João Lourenço desvaloriza o tema, associando os acidentes à melhoria das estradas – como fez há cerca de três meses-, a mensagem que passa é que o problema é consequência do desenvolvimento e, portanto, evitá-lo passa por interromper o desenvolvimento. Não é.

Outros países melhoraram infra-estruturas sem transformar as estradas em corredores de morte. A diferença está na seriedade com que o tema é tratado.

Angola não pode continuar a discutir minas como se estivesse em 2003, enquanto fecha os olhos a uma crise de segurança rodoviária em 2026.

Se ainda há zonas conhecidas por desminar, então houve incompetência. Se não há, mas o risco é invocado, então há irresponsabilidade. E, enquanto isso, nas estradas do país, continuam a morrer angolanos. Não por herança da guerra, mas por falhas do presente.

Talvez esteja na altura de o Governo decidir, de uma vez por todas, se quer resolver problemas… ou continuar a conviver com eles.