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E agora pergunto eu...

14 Jul. 2020 Geralda Embaló Opinião

Esta semana a cadeia televisiva Euronews fez uma peça intitulada ‘Angola é modelo face à crise de covid-19’ em que aplaude a actuação do governo.

Tirando o facto de que ainda é cedo para se cantar vitória quanto ao covid-19, porque sabemos ainda muito pouco sobre o vírus e porque

mesmo países que se declararam livres do vírus voltaram a tê-lo, já para não falar que os nosso números aumentaram exponencialmente com o aumento dos testes, o mais duvidoso da peça era, por um lado a afirmação de que alguns observadores apontam Angola como o país da Àfrica Sub-saariana mais seguro em termos de saúde, e por outro a afirmação de que Angola ‘se posiciona para salvaguardar a economia e garantir a atratividade’. Afirmação particularmente bizarra porque até agora os empresários mal sabem que ajudas de facto o Estado vai poder de facto dar às empresas, enquanto noutros países o Estado subsidiou não só empresas mas o pagamento de salários para manter as estruturas vivas até ao reinicio da actividade. Mas diz a Euronews que angola se está a posicionar...

O ceptismo foi imediato. As perguntas dos internautas giram em torno do “quanto terá custado essa promoção?” Com alguns a perguntar “em que Angola é que vivem esses observadores que acham o nosso sistema de saúde assim tão bom?” Mas percebe-se o esforço de desatrelar o nome do país de todas as muitas conotações negativas, dando um destaque ao que se tem feito de positivo no combate ao Covid-19 desde inicio da pandemia e, com exemplos positivos como o da Fazenda Girassol que viu aumentar a sua clientela devido à capacidade de fazer entregas numa fase de estado de emergência e calamidade. Estas acções de promoção são necessárias para abrir o apetite de investidores pelo que a Agência de Promoção de Investimentos está a fazer, e bem, o seu trabalho. Ainda que descreva uma Angola que poucos conhecem. Até porque temos um país a várias velocidades.

Na mesma semana que uma Euronews bate palmas ao combate à pandemia vemos amontoados perigosos de filas causadas pela diminuição da capacidade dos transportes instituída sem aprovisionamento de meios, e pessoas que não sabem como regressar a casa porque o sistema público de transportes é quase inexistente. Vemos ajuntamentos de camionistas desesperados para fazer um teste à saída da capital, e vemos anúncios de multas para todos os que não andarem com máscara que, com a polícia que temos, inevitavelmente se vão traduzir em ‘mixa’ extra, extraída aos pobres. Pergunto-me se o governo não conhece a polícia que tem? E melhor pergunta do que essa é outra que vi online: “porque é o valor das multas é superior aos 8 mil kwanzas atribuídos como bolsa a algumas famílias carentes?

Temos um País a várias velocidades e o reconhecimento desta realidade é instrumental para a classe governativa fazer um trabalho minimamente decente.

O ignorar dessas velocidades distintas é que leva a que tenhamos governantes a dizer coisas como “não há fome em Angola”. Coisas tão mais desesperantes porque quem não reconhece um problema não tem como sequer tentar resolvê-lo. E andamos assim, em negação (denial is not just a river in Egipt), a perpetuar a distância entre as diferentes velocidades a que anda o país, e assim, a garantir que elas nunca se cruzam. Quem anda rápido anda cada vez mais rápido, quem ficou para trás fica cada vez mais para trás.

Esta semana correu um vídeo online em que crianças pequenas entravam em canoas frágeis, feitas à mão com as suas mochilas, e venturavam-se sozinhas no rio kwanza, que para além de cobras e peixes enormes capazes de virar canoas facilmente, tem crocodilos. Tudo para irem para a escola. Nenhuma tinha aspecto de ter mais de 10 anos iam sozinhas e a pessoa que filmava perguntava-lhes os nomes, se tinham medo e dizia “isto é Angola”. Tão diferente da descrita pela Euronews...

O governante vindo de uma casa topo de gama para um escritório topo de gama, num carro que também viaja à velocidade de topo de gama, é o mesmo que tem de responder pela Angola da velocidade da canoa daqueles meninos. Daí a dificuldade de, em face da velocidade do seu topo de gama, assumir a representação da velocidade da canoa. Mas é preciso que a assuma para a poder tentar resolver.

A mesma Angola do excelente trabalho no combate ao covid tem, por outro lado, quase 5 milhões de crianças e adolescentes fora do sistema de ensino, perto de 2 milhões com menos de 12 anos. Tem 60% das escolas sem água, 60% sem electricidade, muitas vezes sem paredes sequer. Instalações sanitárias são o básico quando há, bibliotecas e laboratórios são miragem. A mesma Angola que quer construir sedes para as suas instituições, metro de superfície, bairro dos ministérios, a mesma que gastou milhões no CAN e que deixou estragar ou falir a maioria das estruturas, a mesma que gasta milhões na manutenção do edifício da Assembleia Nacional. A mesma Angola que gasta menos de 7% do OGE com a educação, há décadas, e que gasta mais de o dobro com defesa e segurança.

E agora pergunto eu... que futuro é que é possível se continuamos com as prioridades invertidas? Se continuamos com um país a velocidades que contrastam de forma gritante, e em que a maioria (o futuro da Nação) fica bem lá atrás, a ir para a escola de canoa?

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