E agora pergunto eu...

01 Sep. 2020 Geralda Embaló Opinião

 

A Google celebrou através da doodle, aqueles desenhos que aparecem na primeira página do motor de busca, o escritor francês Alexander Dumas na semana passada. E, Alexandre dumas é o autor de um dos meus romances favoritos, O Conde de Monte Cristo. A obra é fantástica na densidade dos personagens e na capacidade de nos fazer viver o drama de Edmundo, que é acusado de um crime que não cometeu e tem a vida destruída antes de regressar para se vingar dos inimigos. Alexandre dumas é também autor dos três mosqueteiros cujas diferentes animações fizeram parte da infância de milhões pelo mundo fora, e, era um escritor prolífero de pecas de teatro e artigos que contam mais de 100 mil páginas escritas.

Dumas era de origem africana, facto que desconhecia quando li a obra. Apesar de ser frequentemente vítima de racismo na sociedade francesa de nariz empinado em que estava inserido, era tão brilhante que o génio tinha de ser reconhecido apesar do preconceito. Aos insultos respondia “sim o meu bisavô era macaco, quer isso dizer que a minha família começa onde termina a sua”- genial. A propósito da singela homenagem do Google, fiquei a saber de mais traços muito africanos do escritor como o facto de apesar de ser casado ter tido mais de 40 amantes e pelo menos quatro filhos ilegítimos, actividades que provavelmente justificavam a falta constante de dinheiro apesar das obras renderem muito bem. Bem à africana não?

E claro, a propósito de celebração de históricos africanos, o aniversário do ex-presidente José Eduardo dos Santos, também marcou a semana. Parabéns para ele que habituado a horas de emissão de parabéns e de rios de tinta com o mesmo propósito, agora se vê apagado. E mais uma vez se vê o seu partido desconfortável e descompassado, como se viu pela altura da morte de Kundi Payama, até que o PR JLO dissesse “a perda de um nacionalista e etc”. Até o chefe ‘dar o apito de largada’ ninguém no partido parecia saber bem se podia dar os pêsames ou chorar muito alto o ‘malogrado’ que passara a ostentar o rótulo, assim como o aniversariante da semana, de marimbondo. Uma ‘saia justa’.

Na semana passada gerou-se uma confusão de críticas que o MPLA decidiu comentar, demarcando-se de cartazes da celebração da Independência Nacional e que ‘coavam’ o aniversariante. Como se fosse possível apagar as quase quatro décadas de história do país em que ele liderou.

Se o barro atirado à parede tivesse colado, aí ficaria certamente, mas e agora pergunto eu a confusão entre os camaradas que fizeram os cartazes, coitados, não se justifica?

Vêm dizer, com muita certeza, que o partido está unido e que condena veementemente tentativas de dividir os militantes, mas assume-se também uma luta intestina, o combate, a guerra, e todas as expressões bélicas do costume, contra os marimbondos que são precisamente camaradas do partido (e não parecem ser poucos). Vêm dizer, com muita certeza, que o legado do JES é para ser preservado, mas foram 30 milhões de dólares para novas notas que também, como os cartazes, coaram a cara do homem. Vêm dizer que o emérito ocupa um lugar privilegiado na História de Angola e do partido, mas o emérito escreve a dizer que é absurdo acusarem-no de mandar transferir 500 milhões USD para roubar, e é ignorado completamente, desvalorizado, mais do que o Kwanza que todos os dias perde valor.

O chefe quando quer referir ‘líder da nação e do partido’ só refere Agostinho Neto. Como é que os próprios camaradas não vão ficar confusos? Como é que vão saber se podem ou não promover a cara do emérito, se o chefe o ‘coa’? Imagino que deva estar muito complicado para quem faz o marketing dos camaradas. Se poe cara corre o risco de antagonizar o chefe, se tira cara o partido demarca-se, enfim... Como é que vão saber em que pé é que estão? A confusão, o 'bilinguismo', são cada vez mais a norma.

A nível de política económica, a confusão que já era imagem de marca deu sinais de estar para ficar, e apesar de se ouvir falar de abertura dos mercados, de ambiente de atracção de investimento estrangeiro, da integração na SADC e afins, foram aprovadas medidas que são claramente protecionistas na semana passada.

Podem até haver justificações para o proteccionismo, assim como até poderá não haver nada de errado com as políticas de gestão do partido. Mas qualquer caminho que se escolha, o que quer que se faça, deve-se assumir com clareza.

Os produtos agrícolas que já têm produção interna não foram proibidos de importação, mas foi decidido, e bem na minha opinião, que quem quiser importá-los deve fazê-lo sem recurso a divisas do Estado que são poucas. Como o interesse dos importadores está geralmente no acesso às divisas do Estado, esses produtos vão desaparecer das prateleiras rapidíssimo e pode ser que isso ajude a criar soluções para escoar melhor a produção interna. Mas o problema do nosso proteccionismo está na falta da sua assumpção por parte de quem governa, na contrastante insistência com hábitos do capitalismo, como a importação de marcas estrangeiras por exemplo.

Vi online uma sugestão que vem um pouco neste sentido, a de que o Estado seja o primeiro a dar o exemplo de proteccionismo às suas indústrias e passe a consumir o que é produzido localmente, como por exemplo os automóveis produzidos em Angola, telemóveis, roupas que a nossa classe dirigente devia usar mais, e consumíveis por exemplo como sal, porque temos salinas. O exemplo deve vir do aparelho governativo que numa altura como esta deve cortar ao máximo com importação de tudo o que pode ser ‘Made in Angola’. O exemplo deve vir do Estado, para ser o que diz ser e não transmitir confusões aos seus executores, e aos que os elegeram, porque até agora as confusões estão instaladas.

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