E agora pergunto eu...

09 Jun. 2021 Geralda Embaló Opinião

Na semana que passou, nossa actualidade foi dominada pelo banquete da TPA, do ponto de vista das audiências provavelmente um sucesso de vendas, mas que, em termos de marketing político (que é sempre o interesse de quem faz o guião destas novelas) e num contexto em que a confiança nas instituições anda tão em baixo, certamente não faltam perguntas que ficam sobre o que, de facto, se quer alimentar à opinião pública. Porque os outros ‘banquetes’ que atacam os Dos Santos são tão óbvios que se tornam infantis...

As perguntas, sobre o cardápio do ‘banquete’ prendem-se muito com a falta de confiança generalizada, que me lembrou um professor na Inglaterra e que a certa altura pareceu obcecado com a questão da confiança a um nível filosófico e socioeconómico numa cadeira que era de economia política. Dizia que sem confiança a sociedade não pode funcionar porque no mais elementar temos de ter confiança por exemplo que o condutor que está na estrada ou que leva passageiros sabe o código de estrada, ou que quando vamos ao médico podemos confiar no médico. Falava da teoria de uma senhora que vi mais tarde numa TedTalk, a baronesa e filósofa Onora O’neill que lembra em 10 minutos que a confiança se conquista com a sistematização de positivos, criando sistemas que funcionem em vez de com a menção de positivos dissonante da realidade. Que é o que mais temos. “O facto de o meu governo local fornecer informação sobre como recolhe o lixo não irá aumentar a confiança nele, mas se aparecerem todas as semanas para recolher o lixo é uma boa prova de que se pode confiar no funcionamento do sistema de recolha,” diz ela. Simples assim.

O que nós temos é o contrário por exemplo quando ouvimos alguém do partido falar em resgate dos valores morais... A questão da confiança nas instituições andar em baixa é absolutamente gritante de forma genérica em Angola. Enquanto por exemplo na Inglaterra se faz um ranking todos os anos em que se mede a confiança nos diferentes sectores que compõem o tecido social; que demonstra que nos quatro primeiros lugares estão as enfermeiras, os médicos, os engenheiros e os professores e nos últimos quatro os jornalistas, os ministros, os políticos e os especialistas em marketing, entre nós a desconfiança é generalizada. 

Não confiamos nos bancos - a saga da paragem do BPC é prova de que temos motivos para desconfiar; não confiamos nos hospitais, mesmo os de campanha ficam sem oxigénio vital para salvar vidas, não confiamos na educação, por isso quem pode manda os filhos estudar fora. Não confiamos no Estado, nas suas instituições, na Assembleia porque anda dominada por uma maioria que a manieta, não confiamos no poder judicial porque é subserviente ao poder executivo e não confiamos na comunicação social porque têm o denominador comum de serem todas instituições em que o partidarismo se enraizou de modo a toldar-lhes a sua função social.

A primeira coisa a fazer dizia o meu professor quando se quer saber se devemos confiar ou não numa autoridade é questionar, perguntar porque perguntar não ofende, qual é o histórico desta autoridade, quanto do que promete ou se propôs a fazer cumpriu até agora? E essa resposta explica a falta de confiança que temos nas nossas instituições.

A 'Operação Caranguejo' e o banquete que se seguiu deixaram também mais perguntas do que respostas que aumentam a desconfiança. Desde logo porque é demasiado questionável a autonomia jornalística dos meios públicos. Mas por que motivo teve a televisão pública tem acesso a documentos de uma investigação que como as outras devia estar em segredo de justiça? Porque é que o segredo de justiça é evocado para por exemplo sufocar o assunto dos barcos de luxo e carros de luxo de dois ministros actuais e neste caso o segredo de justiça é escancarado em horário nobre? Como teve acesso a perguntas feitas e filmadas ao acusado, cuja culpa ainda não transitou em julgado? Estava detido? Estava livre? Em que circunstâncias é que disse coisas que o auto-incriminam quando a lei dita que tem direito à reserva? Falou de livre vontade? Senão que impacto aquele teatro terá na verdadeira investigação? Vemos ali uma pessoa a assumir ser o dono daquelas malas em que circunstâncias é que aquela assunção acontece e que validade jurídica pode ter? Com que intenção é que é apresentado naqueles contornos que enojaram o país inteiro que é obrigado a conviver com a falta de básicos nos hospitais, com a fome de crianças para que rios de dinheiro sejam empacotados em malas, em apartamentos vagos? Tem de haver alguma intenção nessa fogueira, qual é?

Será aumentar a confiança no Estado, no projecto da luta contra a corrupção?

É que essa confiança só pode sair mais minada desse banquete, quanto mais não seja porque se diz que a investigação vem de longe e automaticamente se assume que se deixou que aquelas malas de dinheiro acumulassem daquela forma pornográfica para agora se fazer esta fogueira em praça pública, porquê?

Só que o que aquele espectáculo deixa a nu é que se há forma de desviar do BNA todos os tipos de cunho, seja o nacional ou divisas ainda empacotadas com selos do banco central em quantidades aberrantes, porventura há forma de desviar tudo o resto. Certamente diamantes porque dificilmente se pode dizer que a exploração e a venda de diamantes se tornaram mais transparentes, sector opaco como sempre, mudaram apenas as moscas. Mas se temos major (nem se trata de uma patente mais alta) que desvia pacotes vindos do cofre-forte (ou no nosso caso cofre fraco), temos certamente gente capaz de desviar tuuuudo. Já tínhamos ouvido uma das acusadas favoritas do ‘banquete’, Isabel dos Santos dizer que na Sonangol tinham desaparecido frotas de aviões pagos pela empresa pública, e não podemos duvidar olhando para aquelas malas e para as somas de que falava o investigador acima de um bilião de dólares, que temos poderosos capazes de desviar até petroleiros inteiros. Da mesma forma que não se confia num cofre fraco, certamente não se confia no controlo que é feito da principal fonte de receita do país.

Temos ‘artistas’ capazes de desviar tudo e mais alguma coisa porque não temos sistemas de controlo minimamente confiáveis. Esta é a conclusão mais elementar a tirar da novela do caranguejo e das outras. Sistemas de controlo sérios e transparentes, checks and balances, fim dos sacos azuis sem controlo, querido leitor, isso é que era importante nós vermos em horário nobre... Com esperança em que ainda venha a acontecer marcamos aqui encontro e na sua rádio Essencial.

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico