E agora pergunto eu...

30 Jun. 2021 Geralda Embaló Opinião

Bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende e onde desde a semana passada fazem eco as palavras da senhora da reportagem da VOA (Benguela:Gafanhotos e sobra de trigo à mesa de famílias angonalas em tempo de fome), quando dizia que "o Governo vai ficar sem pessoas, porque a fome e a doença vão matar muito.” Palavras que marcam, porque a situação do país, o desemprego, aquele que as pessoas sentem, mas o INE renega, as doenças, a fome, a insegurança, tudo aquilo que a senhora dizia, enquanto varria restos de trigo da estrada onde passam camiões em trânsito que deixam cair essas migalhas que servem para alimentar aquelas famílias - que vou repetir, tratam a fome por tu -, tudo aquilo que ela dizia, no fundo diz quase tudo o que é importante sobre o estado da nação. Pelo menos do estado da nação fora das paredes douradas da Assembleia e da Cidade Alta, o estado da nação da grande maioria dos governados.

E, apesar de a reportagem já ser da semana antepassada, os acontecimentos da última, acabam reforçando essa mesma ideia, de que o país está tão mau que daqui a pouco os governantes vão ficar sem pessoas para governar.

As danças do mais velho reciclado Bento Bento e aquelas militontices dos vivas, quando o país tem pouco para celebrar e muito para fazer, seriam quase o suficiente para fugir, mas a lenga-lenga da equipa económica do Governo que, há décadas, não se envergonha de cacimbar as mesmas palavras “temos de reduzir a dependência no petróleo” - ah misericórdia! Aberrações que se juntam às compras e vendas de manifestações que não mudam em nada o estado real do país, e que só fazem mais eco das palavras da senhora que apelava ao Governo no fundo para que se foque no que é importante, salvar as vidas das pessoas agora. 

A ideia do governo ficar sem pessoas para governar, que me lembra também o ‘Ensaio sobre a Lucidez’ do brilhante José saramago, é naturalmente apocalíptica e improvável particularmente tendo em conta a capacidade assombrosa dos angolanos de procriar.

Mas, e agora pergunto eu, e se todos os angolanos tivessem a possibilidade de viver noutro país, tivessem outro passaporte, capacidade financeira de viajar, levando os seus, com quantas pessoas ficaria de facto o Governo para governar caso os angolanos tivessem escolha? Uma escolha que não dependesse de urnas ‘duvidosas’ de cinco em cinco anos? Provavelmente até grande parte desse Governo obeso iria imigrar também... Porque o subdesenvolvimento que o Governo vem reproduzindo, quais galinhas no choco, ano após ano, no nosso caso década após década, naturalmente tem de os afectar também. Porque se o sistema de saúde é mau, isso significa que eles próprios governantes não podem confiar nele nem para si nem para os seus, e o dinheiro que têm a mais do que a maioria não previne todas as situações em que ter um sistema de saúde funcional é instrumental. Há acidentes, doenças repentinas, todo um arraial de situações que podem expor também os endinheirados a esse sistema de saúde deficiente que temos há décadas. O mesmo se diz do sistema de educação. Tão precário para os mais vulneráveis que obriga por exemplo a escandalosas distâncias a percorrer pelas crianças. Algumas atravessam rios sozinhas para irem à escola, outras nas fronteiras mudam todos os dias de país para irem estudar “no estrangeiro”. Mas mau também para os governantes já que os obriga a separarem-se muitas vezes dos seus e pagarem fortunas para os manter lá fora alimentado os sistemas de educação dos países desenvolvidos.

O sistema de segurança social que é quase inexistente significa também que, se os governantes forem exonerados, podem não ter rede nenhuma (provavelmente a razão pela qual muitos desenvolvem problemas de saúde quando são exonerados) e a falta de saneamento, essa literalmente junta todos no mesmo balde de lixo mal-cheiroso e produtor de mosquitos e doenças, particularmente no centro da gestão nacional que é Luanda.

A propósito de escolha de sair do país, no Sul, até ao mês passado, mais de 10 mil angolanos tinham sido registados a fugir de Angola, da fome da seca, da falta de perspectivas... Pergunto-me, quantos dos cerca de 30 milhões de angolanos que Angola conta viveriam no país como está, se tivessem oportunidade real de sair, levando os seus? Com quantos angolanos ficariam os nossos governantes para governar, para fazerem passeatas de massas e apoio ao presidente?

Assim se devia medir o grau de satisfação dos governados para com os governantes – perguntando - “com outra alternativa viável, ficaria no país que governamos à décadas e que prometemos continuar a governar?” E, vale lembrar, não está em causa o amor à pátria - até porque ela nos acompanha onde formos porque faz parte de nós - está em causa o inferno em que os nossos governantes a conseguem transformar.

A esse propósito foi publicado esta semana o Human Rights Tracker, um estudo internacional de mais de 202 países e que mede o nível dos direitos humanos em relação ao que seria possível tendo em conta o nível de receita do país.

E no indicador ‘Qualidade de vida’, que inclui essenciais como o direito à educação, o direito à saúde, à habitação ao emprego, o direito à alimentação, nesse indicador, Angola estava a 42,4% do que poderia estar tendo em conta a receita em 2018. É o pior país a nível de qualidade de vida de 86 comparados. Sendo que na saúde, melhor sub-indicador, estava a 55,4%, e no emprego, o pior, a apenas 28% do que poderia estar com a receita que o país tinha.

Estes 28% são reveladores porque traduzem o desvio da receita do país para alimentar a máquina do estado (isso e malas e contentores), mas nada que fomente o emprego em Angola. E com o talento que o Governo, no âmbito da sua agenda política, tem de destruir empresas, o próximo posicionamento de Angola a nível de emprego com dados mais recentes será um descalabro maior certamente porque desde 2018 estes indicadores definharam bastante.

Os outros indicadores do estudo são a segurança quanto ao respeito do Estado a direitos básicos e à justiça, onde Angola se sai com um 3,4 de 10 pontos possíveis, porque um dos indicadores é a pena de morte que felizmente Angola aboliu há muitos anos e que nos vale 10 pontos. Os piores sub-indicadores são a prisões arbitrárias (4,1) e as execuções extrajudiciais (3) e nesta lista o pior país é o México, sendo que pior do que Angola está Moçambique, Brasil, Venezuela e Arábia Saudita.   

No que diz respeito a como Angola trata dos direitos civis e políticos, a liberdade de associação de expressão e de participação governativa, Angola sai classificada com um 2.8 numa prova de 10 valores com informação de 2020.

O que confere integralmente tendo em conta as tácticas draconianas de gestão e prevenção de manifestações e contra-manifestações e tendo em conta a partidarização do Estado que elas deixam a nu e que testemunhámos mais uma vez semana que passou. Pior do que Angola neste quesito está apenas o Cazaquistão, a Venezuela, Hong Kong, Vietname e Arábia Saudita onde manifestações são impensáveis. Moçambique está nesta lista de 34 países 5 lugares melhor posicionado do que Angola.

Voltando ao que dizia a senhora que varria os restos de trigo da estrada, com que governados ficariam os nossos governantes caso os governados tivessem escolha de sair?

A esperança (não o novo partido, mas aquela que é a última a morrer) há de continuar, teimosa, em dias melhores.

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico
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