E agora pergunto eu...

01 Sep. 2021 Geralda Embaló Opinião

Por esta altura do ano, até há uns cinco anos, costumava andar a fanfarra na rua com as instituições, os políticos, os milhentos gestores públicos que temos e afins, a acotovelarem-se para com o máximo estrondo, a máxima ‘brilhancia brilhosa’ dar os parabéns ao ‘timoneiro, arquitecto da paz, o clarividente cujas dimensões magnânimas e estratégicas eram de um indescritível oxigénio que abençoava a mando inequivocamente divino, Angola com uma liderança visionária’... Enfim o português era desdobrado horas a fio em elogios que concorriam entre si em busca de uma originalidade sumptuosa que se ia tornando cada vez mais difícil, já que o homem, não só era mais velho, como estava no poder há mais de três décadas pelo que já quase todos os elogios lhe haviam sido aplicados e se iam tornando gastos. Era assim todos os anos, até que o homem escolheu entre os elogiadores como seu sucessor, liderar o movimento que agora lhe atribui, e aos seus, o rótulo de marimbondo, tirar a sua face da moeda nacional e virtualmente torná-lo proscrito no seu próprio partido que agora fala nele quando se sente obrigado a isso, e com pinças, escolhendo com muito cuidado o que vai dizer e como vai dizer para não aborrecer o novo chefe que já deixou claro que abomina a sombra do anterior. Pergunto-me como é que é possível levar pessoas duas caras a sério? Se nem entre eles têm qualquer pudor em virar a casaca de forma tão evidente, como é que diabo se pode acreditar no que quer que digam? Se os políticos traem e viram as costas a um antigo ‘deus sol’ que veneravam tão efusivamente, que dificuldade terão em trair o que prometem a cidadãos anónimos cidadãos que nem conhecem? Que dificuldade vão ter em prometer o que não tem qualquer intenção de cumprir?

A resposta a esta pergunta pode ser evidente, mas a lição subjacente não tão evidente, é a de que as expectativas nos políticos, sejam eles de que formação política forem, devem ser sempre comedidas para evitar desilusões. Esta tendência para a deificação de líderes políticos é sempre negativa. Os políticos são pessoas e as pessoas são falíveis, faz parte da condição humana. A esperança que podemos ter é a de que se esforcem para fazer o melhor que podem pelo colectivo, pelo país, em vez de fazerem o melhor que podem pelos seus interesses pessoais.

A propósito do quão negativo é o culto da personalidade, em Portugal, o vice-almirante Gouveia, o homem encarregado da missão de vacinação, e a quem foi atribuída uma medalha de excelência na semana que passou, questionado por jornalistas que tentavam antecipar-lhe uma inclinação para um futuro político, disse o seguinte em tom de desabafo: “qualquer ser que apareça como salvador da pátria é mau para a democracia porque a democracia se salva em conjunto. Não é uma personagem que salva a democracia, isso cheira a outra coisa, não quero ser essa pessoa.”

Infelizmente, em Angola e em África conhecemos bem esse ‘cheiro’ nauseabundo a salvadores da pátria. Esses que constantemente se auto-aplaudem e esperam aplausos pela sua ‘genialidade estratégia e coragem’... e são sempre personagens más para a democracia, como dizia o almirante.

Quando vejo entre nós os exaltamentos cegos a uma ou a outra figura preocupa-me, pior nos jovens, esta incapacidade de reconhecer que a democracia se salva em conjunto, que ‘super-homens’ pertencem ao reino da ficção, e sobretudo que, em vez de estarmos à espera de salvadores da pátria, devemos tentar salvar-nos uns aos outros, apostando, sobretudo, no fortalecimento das instituições que nos servem a todos.

Porque um dos redutos da salvação do país, não só a nível económico, mas também social, é indiscutivelmente a agricultura, vale lembrar as palavras do entrevistado do Valor Económico da semana que passou, que vão um pouco ao encontro desta necessidade de fazermos por nós e de apostarmos em instituições em vez de esperar salvação da parte dos ‘homens fortes’ do Governo. O líder da Unaca dizia que “não é elegante que o Governo distribua adubos’ por exemplo, ou tractores que são oferecidos sem que exista formação para o uso ou sequer manutenção resultando em que pouco depois os tractores oferecidos estejam parados sem serventia e avariados. Dizia também: “é interessante ver na TV que o Governo visitou e deixou materiais a custo zero” e lembra que “é preciso formar o camponês, inseri-lo numa cadeia de produção, dar-lhe acesso a crédito” – instituições e sistemas em vez de ‘salvadores’. Particularmente instituições em vez de salvadores que fazem ofertas quando interessa aparecer na foto a fazer doações, (que, aliás, agora que nos aproximamos de eleições, vão aumentar substancialmente apesar de sairem dos cofres públicos) e que são tão contra-lógica económica de uma economia de mercado. Estas doações, em termos de lógica anti-mercado e de lógica de Estado que cria dependências e que se posiciona como totalitário, tem também eco na narrativa do controlo de preços pelo Governo. Pergunto-me se baixar os preços da cesta básica de forma administrativa fosse boa estratégia económica, e não só um paliativo eleitoral, então porque é que não baixaram os preços da cesta básica há mais tempo? E agora pergunto eu, a proximidade de eleições já nos fez esquecer que somos uma economia de mercado? Mais uma vez, qual é o investidor internacional sério que vai querer investir numa economia em que a qualquer momento o governo dita o preço a que ele pode vender os seus produtos? Produtos que, porque pouco se produz no país sem recurso a alguma matéria-prima comprada lá fora, mais provavelmente comprou lá fora ainda a um valor de mercado? É por estas e por outras que os investidores se fiam em números, e não nos que os políticos dizem. Porque, aqui, as mesmas bocas que se enchem para defender políticas de controlo administrativo de preços são as mesmas que dizem "venham investir porque somos uma economia de mercado"... Confusos.

O líder da Unaca sugeria que, em vez das ofertas de tratores e de insumos, que se criassem incentivos de facto, se investissem as cooperativas agrícolas, que se apoiassem as fábricas que podem produzir esses insumos e simultaneamente criar emprego para os jovens. As soluções e as sugestões estão aí. O problema parece estar mesmo na insistência nos ‘salvadores da pátria’ e nas suas 'doações' pagas por todos nós. Figuras que, porque vivem de palmas, à espera de palmas, vão dando continuidade à dependência dos governados, figuras, sem qualquer dúvida, e subscrevendo as palavras do almirante, “más para a democracia”.

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico
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