E quando a corda rebentar?...

21 Jan. 2026 Suely de Melo Opinião

Se existe um país com o dom divino de transformar o mais pacato cidadão num "revú" de primeira linha, esse país é, sem dúvida, Angola. Não é apenas má gestão: é arte. Parece haver um gozo quase erótico em pisotear, humilhar e desdenhar de um povo que, de tão sofrido, já deveria ter um lugar cativo no céu, até porque o inferno já vivemos aqui. Há quem diga que sim, mas eu duvido que nos mereça.

E quando a corda rebentar?...
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Se existe um país com o dom divino de transformar o mais pacato cidadão num "revú" de primeira linha, esse país é, sem dúvida, Angola. Não é apenas má gestão: é arte. Parece haver um gozo quase erótico em pisotear, humilhar e desdenhar de um povo que, de tão sofrido, já deveria ter um lugar cativo no céu, até porque o inferno já vivemos aqui. Há quem diga que sim, mas eu duvido que nos mereça. Não nos pode merecer um governo como este, sem o mínimo de complacência, de decoro e que trata a palavra dada como se fosse uma mensagem apagada no WhatsApp. Ora, em 2024, os trabalhadores, por via das centrais sindicais, imbuídos de um optimismo, diria, infantil, pediram 100% de aumento salarial. O Governo, com aquele ar de sempre de quem está a fazer um favor à humanidade, não deu mais do que 25%, que também para chegar foi ‘xixilo’ de verdade… Prometeram eles que o tal aumento verificar-se-ia pelo menos até 2027. Menos de um ano depois, os 25% sofreram uma lipoaspiração severa e viraram 10%. Como bons trabalhadores angolanos, que já aprenderam que quando se trata do nosso governo, mais vale um pássaro na mão do que dois a voar, aceitaram só já o ‘ca-aumento’. Mas quando se trata de piada de mau gosto eles conseguem sempre superar-se. Chegamos a Janeiro, o mês da promessa, e o que temos? A desculpa mais terna do mundo: "Estamos a fazer contas para que o trabalhador não saia a perder". Quanta humanidade! Quanta empatia! Pelos vistos, o espírito de Arquimedes só vai voltar a baixar nos nossos governantes quando for para orçamentar a vinda do Cristiano Ronaldo, do Trump ou… do Papa.  Aí, a matemática é exacta, os fundos aparecem por milagre e os estudos de impacto fazem-se à velocidade da luz. Mas para o salário do professor ou do enfermeiro? Ah, aí a calculadora trava e o Excel dá erro. Enquanto o trabalhador espera que o Governo aprenda a somar, o Instituto Nacional de Estatística mostra que, para gastar, são autênticos génios. Na formação técnico-profissional em estatística de 2026, o INE fez-nos saber que os seus 200 formandos não têm estômagos, têm buracos negros e, portanto, vão ser necessários 9 milhões de kwanzas DIARIAMENTE para a alimentação das 8 turmas. E os formadores? Esses devem ser entidades metafísicas trazidas do além. Para os hospedar, o erário público sangra 50 milhões de kwanzas por dia. Para justificar esses valores as almofadas têm de ser feitas de nuvens importadas e o serviço de quarto feito por anjos. Enquanto eles "fazem contas" para nos dar as migalhas, nós vamos contando as moedas para ver se a fome estatística do INE não nos morde os calcanhares. Ora… Se a estratégia não é provocar uma revolta, então o Governo é apenas um mestre da comédia. A pergunta que não se quer calar é: quanto peso consegue uma corda aguentar antes de rebentar?

 

*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 16 de Janeiro de 2026