“Transformou-se a Sonangol em instrumento político do Governo e houve modificações profundas”
Admite a possibilidade de uma empresa privada produzir mais petróleo do que a Sonangol, mas considera que seria uma aberração. Economista de formação, acusa os “serviços públicos e dirigentes” acharem “que não têm de pagar, só têm de receber” os serviços. Mas quando é o contribuinte a atrasar “uma obrigação ao Estado, paga logo juros e multas”. E defende a necessidade de implementação de bons salários.
A Sonangol está, este ano, a comemorar 50 anos e o senhor faz parte dos primeiros trabalhadores da empresa. A capacidade da empresa hoje justifica-se com esse percurso já de 50 anos?
O tempo, mesmo o das pessoas, não é contado apenas por aquilo que fazem ou deixam de fazer… É o tempo. E, portanto, 50 anos são 50 anos. Não quero dizer com isto que a Sonangol não pudesse ser melhor. Podia ser muito melhor. Mas não vive sozinha. Vive num ambiente de negócios, num ambiente político e vive num contexto mais amplo. Quando começámos, ninguém tinha uma ideia clara do que iria fazer com o petróleo, nem mesmo o Governo. Só mais tarde, percebeu-se que o petróleo e a Sonangol eram também um instrumento político. A partir do momento em que se decidiu que a Sonangol era um instrumento político do Governo, houve modificações profundas. Agora, se a Sonangol merece os 50 anos, merece.
Os números mais recentes da produção por blocos operados mostram que a produção da Sonangol recuou e a da Etu Energias, antiga Somoil, aumentou. Acredita na possibilidade de, num futuro breve, a Etu Energias, uma empresa privada, produzir mais do que a Sonangol?
Possível é. Mas seria uma aberração que a Empresa Nacional de Petróleos tivesse menos peso na economia do que uma empresa privada. A Etu Energias é uma criação da Sonangol. Foram antigos directores e quadros da Sonangol que a criaram. E foi, digamos, sustentada pela Sonangol. Não sei se algum dia se farão contas e se pagarão as dívidas do passado.
De qualquer forma, seria muito bom que houvesse efectivamente actividade privada no sector dos petróleos. O problema é que é um sector muito complicado. É preciso muito dinheiro para entrar na exploração. O dinheiro da exploração é quase como ir ao casino jogar. Por muita tecnologia que exista antes de investir, antes de avaliar, os riscos continuam a ser enormes. Eu próprio, com um outro grupo de pessoas, tentei entrar nessa área. Quando os interesses das pequenas empresas nacionais não coincidem com os do operador internacional, e este decide seguir outro caminho — investir em coisas que acha mais vantajosas — e não segue as propostas da parte angolana, porque eles é que têm o dinheiro, quem perde são as empresas nacionais. Arruinaram. Perdemos. Perderam eles e perdemos nós. Em mercados mais desenvolvidos, é sempre possível recorrer a fundos de capital de risco ou ao mercado bolsista para financiar a exploração. Aqui não. Além disso, é um investimento de muito longo prazo. É preciso gente com reservas suficientes ou com outras actividades que permitam colocar algum dinheiro no petróleo.
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