LIVRO DESTACA DESENVOLVIMENTO DA MÚSICA NO MUNDO

Luanda entre 10 cidades que marcam a dança

19 Jan. 2021 Marcas & Estilos

LITERATURA. Livro 'Ten Cities', editado pelo Goethe Institut, compila histórias de dez cidades mundiais cuja cultura musical contribuiu para o desenvolvimento da música de dança. Luanda é uma das capitais africanas em destaque, a par de Nairobi, Cairo, Joanesburgo e Lagos.

Luanda entre  10 cidades que marcam a dança
D.R

São dez as cidades que, para o Goethe Institut, têm definido as novas tendências da música de dança mundial. Através do livro 'Ten Cities', a instituição alemã destaca a preponderância que Luanda, Nairobi (Quénia), Cairo (Egipto), Kiev (Ucrânia) Joanesburgo (África do Sul), Berlim (Alemanha), Nápoles (Itália), Lagos (Nigéria), Bristol (Inglaterra) e Lisboa (Portugal) têm assumido no delinear de novas expressões musicais desde a década de 1960 até 2020. Por cidade, foram convidados dois autores com trabalho relevante a mapear o tecido cultural local que escrevam um ensaio cada sobre a história recente da música, com o objectivo de melhor dar a entender os movimento sociais por detrás de cada movimento. Sobre Luanda e Angola, a honra coube a Ângela Mingas e a Marissa Moorman.

Em entrevista ao VALOR, Marissa Moorman, historiadora norte-americana residente em Chicago e autora do livro 'Intonations: A Social History of Music and Nation in Luanda, Angola' (edição em língua portuguesa prevista para 2021), não deixa de sublinhar que esta atenção era apenas uma questão de tempo: “Estranho que não tenha acontecido mais cedo, dada a importância da diáspora angolana e o impacto que a kizomba e o kuduro têm além-fronteiras.”

No ensaio que assina no livro 'Ten Cities', Marissa Moorman traça o percurso da música angolana, de música de dança colectiva com o semba e, mais tarde, com o kizomba, até à expressão mais individual, mas não menos electrizante, dos kuduristas. No texto, não deixa de notar a importância pivotal dos Kiezos, conhecidos por levantar pó por via da dança nos seus primeiros concertos, ao Paulo Flores e ao seu papel preponderante no desenvolvimento do kizomba e até de Titica, como exemplo máximo da libertação e progresso por via da música que a sociedade angolana regista desde os anos 1940 e o surgimento dos N’Gola Ritmos.

Também Florian Sievers, um dos editores do projeto, que começou em 2014 com uma série de concertos e uma compilação de música, conta como a influência da música angolana se estende além das fronteiras do país, e não escondendo, mesmo, a influência que tem na música de Lisboa abordada no livro pelos ensaios dos jornalistas Rui Miguel Abreu e Vitor Belanciano. “Mesmo antes de visitar Luanda, em 2013, o kuduro já era preponderante na Europa e nos Estados Unidos, muito graças aos Buraka Som Sistema, que entre 2006 e 2008 foram nomes pivotais da música de dança.”

A ideia-motor deste projecto passava por ilustrar a música de dança actual como “uma rede sem centros”, onde as sinergias entre expressões levam a que “não haja periferias” sociais ou culturais, com vários terminais que influenciam tendências. “Foi por isso,” conta Sievers, “que para a compilação ('Ten Cities', editada pela discográfica britânica Soundways) desafiámos artistas de cada uma das cidades a trabalhar com outra das cidades visadas. Luanda ficou emparelhada com Nápoles.” Nesse contexto, colaboraram MC Sacerdote e MC Yolanda Noivada com os italianos Lunaba e Djeff.

“Com este projecto, quisemos destacar que a música de dança não era apenas o que acontecia nos grandes centros urbanos, nem perpetuar a típica narrativa de Chicago e Detroit nos Estados Unidos e Manchester e Berlim na Europa [como capitais da música de dança]. É uma perspectiva demasiado focada no Norte, aborrecida e que não é correcta, então quisemos corrigi-la,” revela o editor ao VE.

Não menos relevante é a necessidade de mostrar que estas expressões são “motores de mudança política e social”, recaindo, por isso, a escolha da historiadora norte-americana para assinar um texto. Marissa Moorman, que no seu livro trabalhou precisamente esse aspecto do semba e a afirmação da identidade nacional angolana por via da música, e denota como essa expressão é indissociável da luta política angolana, não se coíbe de contar essas histórias no seu ensaio: “'Ten Cities' endereça, igualmente, uma falta grave na historiografia destas cidades ditas periféricas, onde o colonialismo e a agitação civil que se seguiu reduziram a documentação ao testemunho oral. Para Moorman, “começar a pesquisa sobre música angolana foi muito difícil,” por via da falta de documentação portuguesa sobre a cultura local durante a ocupação colonial. Um problema que não melhorou com a independência, quando, a propósito do Maio de 77, músicos foram executados e muitos dos seus registos destruídos.

O livro 'Ten Cities' está disponível em língua inglesa por via do Goethe Institut e assume-se como mais um documento a denotar a importância do continente africano e de comunidades tidas como minoritárias para a cultura mundial do século XXI.

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