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CAMILA SILVEIRA, DIRECTORA DA CÂMARA DE COMÉRCIO BRASIL-ANGOLA

“Muitos empresários cometem este erro, olhar Angola como Luanda”

Revela que o movimento de exportação, por via marítima no Brasil, está a voltar ao normal, depois de um abrandamento de 30%. E que a decisão de trabalharem para além de Luanda foi determinante para a empresa que dirige, a Terra Brasil. A possibilidade de uma linha de financiamento brasileira para apoiar o empreendedorismo angolano também não está fora de hipótese.

 

“Muitos empresários cometem este erro, olhar Angola como Luanda”

Em que está a trabalhar a Câmara do Comércio Brasil-Angola e que projectos existem para o pós-pandemia?

A Câmara é um órgão com muitas actividades no Brasil. Continua em funcionamento, mas de forma mais lenta por estarmos impedidos de viajar e de fazer outros tipos de prospecções. Tem mantido os contactos e todo o sistema de apoio, mas sempre dentro do que dá para ser feito neste momento. Desde que tivemos a informação da impossibilidade de viajar, tive a iniciativa de dar continuidade, via online, àquelas capacitações que vinha fazendo presencialmente em Angola.

E, no global, como estão os empresários brasileiros em Angola?

O Brasil tem passado por uma fase mais delicada. Os números de mortes e abalos têm sido muito maiores e, pelo tamanho do Brasil, cada Estado está tento à sua própria política. Há estados a trabalhar no sistema mortal, que é completamente fechado. Outros parcialmente e outros um pouco mais abertos. Então, dependendo da localização e actividades, as empresas, dentro da medida do possível, têm continuado. Há duas semanas para cá, temos tido uma estabilidade maior, temos tido um número maior de empresas a funcionar. Não digo que tem voltado à rotina de antes, porque acredito que isso já não vai acontecer, mas tem ocorrido a abertura do mercado de uma forma geral.

Em relação a Angola, tem ideia do impacto da pandemia nas empresas com particular ligação ao mercado angolano?

O panorama real é que as empresas que estavam estruturadas digitalmente, com estruturas de internet bem montadas, muitas conseguiram crescer nesta fase de quarentena. Há produtos e empresas que conseguiram crescer até 400%. Agora, para as que não tinham uma estrutura automatizada e informatizada, o impacto é total. Há empresas com quedas de cerca de 78% nas actividades. O ramo alimentício, por exemplo, cresceu muito, mas desde que a empresa estivesse estruturada no digital.

Como estão as exportações para Angola?

Durante 60 dias, tivemos 30% de queda da frequência de navios, mas isso não é culpa de Angola. É muito mais uma logística brasileira e isso causou atrasos, mas as empresas continuam. No caso da Terra Brasil, que é uma empresa que continua a fazer embarco que por métodos marítimos, mesmo com 30% de lentidão, continua a embarcar. Tivemos um atraso, mas, deste mês em diante, vamos embarcar normalmente. Agora, as empresas que utilizavam apenas o método aéreo ou vão para o marítimo ou ficam totalmente zeradas.

Já é possível partilhar os números das trocas comerciais de 2019 e comprar com os primeiros meses de 2020?

Até Março, estávamos a fazer este levantamento para fechar as estatísticas de 2019, mas, como começou tudo isso e muitos órgãos estão fechados, ainda não recebemos as estatísticas. Sabemos, no entanto, que o produto brasileiro em Angola chega a 68% dos produtos consumidos. Esse é um quadro que tínhamos fechado, mas, em termos de valores, ainda não temos. Acredito que, dentro de mais um ou dois meses, teremos as estatísticas.

“Muitos empresários cometem este erro, olhar Angola como Luanda”

Quais são as principais preocupações para o empresário brasileiro no mercado angolano?

Durante algum tempo, houve um abalo muito grande, um abalo político, em que muitos brasileiros, devido à dificuldade de divisas, começaram a olhar para Angola como uma impossibilidade para o comércio. Mas começamos 2020 com tudo isso a ser quebrado de maneira exemplar. Em Maio, teríamos um grande evento no Brasil onde reuniríamos mais de 300 grandes empresários que tinham todo o interesse de entrar em Angola, mas infelizmente este evento não aconteceu devido à suspensão de todos os eventos. Acreditamos, no entanto, que será realizado em Outubro. Em Novembro passado, tivemos um evento na embaixada, no São Paulo, reunimos empresários para levar para Angola e o próximo aconteceria em Maio, que seria o final do plano de acção de todos eles.

Que sectores em Angola aconselharia a investidores brasileiros?

Não há uma fórmula de se aventurar em Angola. Angola hoje precisa contar com profissionais competentes e direccionados. Por muito tempo isso ocorreu, muitos empresários iam para Angola simplesmente para se aventurar, mas hoje Angola não permite mais este espaço. Porém, destaco o ramo da agricultura e o alimentício. Angola é uma terra fértil, de oportunidades e este é um momento muito bom para entrar. Se pararmos para pensar, na História do mundo, nas maiores crises é onde foram geradas as maiores empresas. Assim foi a Honda, a Chanel, a Nike e assim foi com muitas outras empresas. Angola é um mercado de extrema credibilidade neste momento para profissionais sérios que querem implementar indústrias.

E sente disponibilidade do empresário para investir na agricultura e na indústria em Angola?

Sinto, mas também sinto que existe um desconhecimento neste momento da Angola real. Sinto que os empresários acabaram por ficar um pouco afastados e desinteressados devido a histórias passadas e não estão atentos às oportunidades. É aqui onde estamos a efectivar as nossas acções. Na próxima semana, como não podemos ter o evento presencial da mesma forma que estamos a fazer o zoom com todos os angolanos, vamos reactivar esta parte com os empresários brasileiros também.

Quais são as outras dificuldades do mercado angolano?

Até há pouco tempo, poderíamos dizer que, para um empresário brasileiro não estar em Angola, contava muito a migração de divisas, era o factor principal. Nesse momento, há muitos brasileiros a procurar por novos territórios para investir não apenas com essa óptica de ganhar o seu sucesso económico e voltar para o Brasil, mas sim estabelecer-se em novos locais. E Angola, devido às semelhanças com o Brasil, é uma terra onde o brasileiro tem uma adaptação fácil. Angola passa a ser uma óptima alternativa.

A burocracia tem sido apontada como um dos principais défices do mercado angolano. Trabalha há algum tempo cá, tem essa percepção?

Não existe mais empresas bem-sucedidas, tendo espaço com o jeitinho brasileiro, com o jeitinho angolano, com a gasosa, com todos aqueles artifícios que conhecemos. Hoje, temos espaço para empresas que querem estabilizar-se com qualidade e seriedade e dentro dos padrões exigidos. Não vejo Angola tão burocrática, vejo-a com normas e isso há em todos os países. Talvez esta dificuldade venha de empresas que estavam habituadas a trabalhar de outra forma.

A Odebrecht foi, durante anos, o símbolo do sector empresarial brasileiro em Angola e talvez continue a ser. Vê a possibilidade de uma outra empresa brasileira com o mesmo espaço?

O momento actual talvez não seja de empresas tão grandes, com parcerias políticas, mas de empresas menores, com mais estabilidade. Que trabalhem com seriedade dentro dos novos padrões do mercado e cresçam com o mercado tanto angolano como brasileiro. Tínhamos a força do governo, que era a engrenagem principal; que fazia com que todas as pessoas tivessem empregos e a população se movesse mediante esta engrenagem. Hoje o que move a engrenagem do governo são as empresas menores. As coisas inverteram e é necessário o nosso entendimento neste processo. Estas grandes empresas que tinham parcerias políticas e alguns vínculos e que hoje já não estão mais no mercado acabaram por abrir espaço para empresas pequenas, mas que se adequam ao nosso padrão económico.

Qual tem sido o exercício das empresas como a Terra Brasil, cujo negócio tem bases na exportação de produtos brasileiros para Angola, considerando a dificuldade do acesso a divisas e, sobretudo, a desvalorização do kwanza?

A Terra Brasil é uma empresa completamente comprometida com o empreendedor e, como tal, não pára de trabalhar em momento de crise. Pelo contrário, são as fases em que tem mais trabalho. Teve de se readaptar à moeda, às oscilações cambiais, mas sempre teve a possibilidade de fornecimento porque, independentemente do factor venda, manteve a missão e a visão, porque é da importância dela que os angolanos continuassem a empreender. Todos os artifícios necessários foram utilizados. Em termos de divisas, também nos adaptámos. Temos cumprido burocraticamente todas as normas prudenciais. São novas normas, mas não são impossíveis para as empresas que querem trabalhar com seriedade.

Mas há casos em que a desvalorização e a inflação engolem, inclusive, a visão e a missão. Em Angola, por exemplo, os consumidores têm estado a perder o poder de compra diariamente. Esta situação não tem tido impacto nas vossas vendas?

Pelo contrário. A Terra Brasil, de mês a mês, comprova maiores números de venda. Atribuo isso às estratégias. Por exemplo, se me perguntar se a Terra Brasil, há dois ou três anos, tinha a preocupação de vender a máquina e capacitar o empreendedor por encarar isso como uma oportunidade de negócio, eu diria que não, ela não fazia isso. Neste momento, faz porque ganha mais e o cliente também. Portanto, não sentimos isso graças à nossa reestruturação. Conseguimos ampliar as linhas de fornecimento dos serviços, porque, se tivéssemos continuado na mesma linha, seria a decadência.

Há a ideia de que o angolano tem preferência pelo equipamento europeu e a Terra Brasil vende essencialmente marcas brasileiras. É uma questão real?

A Terra Brasil tem 15 anos de trabalho em Angola e, durante estes anos, a prova social do sucesso tem sido o grande argumento de venda. Fora isso, independe da doutrina e do país, europeia ou brasileira, a Terra Brasil tem o comprometimento do padrão de qualidade que exige nas suas fábricas. Não é uma questão de fábrica, mas sim o padrão de qualidade. Posso afirmar que, de uns anos para cá, ela virou uma tradição no fornecimento de equipamento para empreendedorismo em Angola.

Quais são os números mais recentes das vendas da Terra Brasil?

Nesta quarentena, os nossos números subiram bastante, podemos variar para este período um aumento de pelo menos 40%, foi um dos meses de maior venda da empresa. Em 2019, tivemos entre cinco e seis mil empreendedores com os seus equipamentos em funcionamento e industrialização em Angola.

Pode olhar para o histórico e fazer uma comparação com indicadores do início do negócio em Angola?

Nos últimos três anos, tivemos internamente uma reestruturação completa até pela realidade do mercado. Abandonámos totalmente o vestuário de venda de máquinas e tornámo-nos uma empresa de formação de empreendedores. A partir deste momento, o crescimento da empresa foi bastante grande, deixámos de ser uma empresa fornecedora de máquinas para nos tornarmos uma referência no mercado. Também deixámos de enxergar (ver) Angola como Luanda. Muitos empresários cometem este erro, olhar Angola como Luanda. Passamos a visitar todas as províncias com todas as acções que também são feitas em Luanda. Isso proporcionou-nos uma grande ascensão.

Que tipo de equipamentos os angolanos mais solicitam?

A parte da alimentação, todos os equipamentos envolvidos, é o maior nicho do trabalho da Terra Brasil em Angola. Para dar alguns exemplos, o primeiro deles é a parte das padarias. O carro-chefe da Terra Brasil é o fornecimento de padarias até pelo nível de lucro que pode proporcionar. Mesmo com o aumento do preço da farinha de trigo e toda a instabilidade neste sector, conseguimos garantir que o cliente tenha no mínimo 80% de lucro mensal.

Mas a realidade mostra que são muitas as padarias a falirem... 

Por isso é que entramos com a parte de gestão de padarias, que é um dos nossos cursos e onde tenho o maior número de pessoas a participar. Se me permite, farei umas contas.

Permito...

O saco de farinha de trigo está a custar 16 mil kwanzas. Se dividir por 50 kilos, teremos 320 kwanzas por kilo e, com um kilo, podemos fazer entre 30 a 40 pães. Mas vamos ser pessimistas e assumir 30 pães. Então 320 kwanzas divididos por 30 pães vão dar-nos uma média de 10,66 kwanzas por pão. Mas, para fazer o pão, entram outros ingredientes. O que é que se orienta? Que, do custo do principal ingrediente, se deve acrescentar 15% que vai ser o responsável pelos outros ingredientes. Colocaria o preço do pão em 12, 26 kwanzas. Porém, a minha empresa também tem os custos empresariais, com funcionários, água, energia e outros. O que é que a economia defende? Acrescentar pelo menos 15% para que seja o custo da empresa. Mas, como sei que as coisas em Angola são caras, vamos colocar não 15% mas 20%. Esta soma vai colocar o pão em 14,71 kwanzas. Vamos arredondar para 15 kwanzas. Quanto custa o pão em Angola? Vamos assumir a média de 30 kwanzas. Portanto, temos 15 kwanzas de lucro. A menor padaria a quem a Terra Brasil fornece faz cinco mil pães por dia. Se multiplicar por 15 kwanzas, ela vai ganhar 75 mil kwanzas por dia. Se tiramos todos os finais de semana, a padaria trabalha 26 dias no mês, ganha de lucro um milhão e 950 mil mensalmente. Quando isso não acontecer é falta de gestão, este dinheiro está a ir em algum lugar.

Está a defender que a padaria que não esteja a dar lucro em Angola é apenas por problema de gestão?

Sim, defendo.

 

Mas os mercados têm particularidades. Em Angola, por exemplo, existem grupos dominados essencialmente por empresários estrangeiros que conseguem a farinha de trigo a preços mais baixos, se comparados aos da concorrência e vendem o pão a preços que os outros não conseguem. Este tem sido apresentado como um dos problemas por vários operadores...

Ninguém faz milagres. Os produtos têm custos mesmo para o estrangeiro. Não acredito que tenham uma farinha sem custo, também têm custo. Há uma outra informação que julgo ser muito necessária. Segundo a AIPPA (Associação das Indústrias de Panificação e Pastelaria de Angola), temos apenas 6% do mercado de consumo e fornecimento de pão tomado dentro de Angola. Ou seja, tenho 94% do mercado sem pão, que é o segundo alimento mais consumido do mundo. Então não acredito que, num mercado destes, um empresário angolano não possa ter lucros por mais que tenha estrangeiros com artifícios.

Insisto nas particularidades...

 Não lhe parece que este indicador pode não ser fictício, se considerarmos a existência de zonas em que a base do pequeno-almoço é a banana, a batata-doce ou a mandioca por exemplo…

Será que 94%?

Se tivesse de alterar alguma coisa na forma de operar no mercado angolano o que seria?

Gosto muito do poder empreendedor angolano, mas sinto que as pessoas acabam não tendo tanto acesso a isso. Uma das coisas era criar condições para que o maior número de pessoas tivesse acesso às formações de empreendedorismo. Um segundo aspecto seria conseguir que os angolanos tivessem uma força maior de investimentos através de bancos. Que as pessoas conseguissem ter flexibilidade para adquirir os seus produtos tanto pelo Governo ou por bancos. Era preciso que tivessem uma força a mais de financiamento.

E já que fala em financiamento, há possibilidade de uma linha de crédito de bancos brasileiros para apoiar, por exemplo, a compra de equipamentos para Angola?

Neste momento não existe qualquer problema entre Angola e Brasil em relação à dívida. Pelo contrário, Angola liquidou todos os seus débitos até antes do prazo, mas o Brasil tem restringido toda esta parte de crédito a outros países. Acredito, no entanto, que, dentro de pouco tempo (até é uma das iniciativas do Presidente Bolsonaro) possa haver algo nesse sentido. Tem sido uma das buscas minhas, como directora da Câmara de Comércio e como Terra Brasil.

O Banco do Brasil teve escritórios em Angola, mas voltou a fechar. Acha que este seria um instrumento importante neste sentido?

Seria um bom instrumento. Também a entrada dos bancos digitais em Angola… Temos um banco digital que, inclusive, foi levado para Angola através da Câmara do Comércio e que possivelmente começa as suas actividades.

 

Perfil

Camila Silveira de 41 anos é paulista e formada em Comércio Exterior pela Universidade Paulista, UNIP. Tem ligações com Angola desde 2004, ano em que chegou para a implementação de uma jornada de empreendedorismo. Em Fevereiro lançou o livro Vencedor ou Vítima e garante que escreveu mais seis durante a quarentena. Directora da Câmara de Comércio Angola Brasil, é fundadora da Federação das Câmaras de Comércio. Também fundou a empresa Terra Brasil.

 

 

 

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