O controlo interno no contexto actual das pequenas e médias empresas

08 Sep. 2020 Opinião

As pequenas e médias empresas (PME) têm grande importância na economia, nos seus mais variados segmentos, sendo extremamente relevantes na criação de emprego. A situação que o mundo atravessa, no que respeita aos efeitos da pandemia da covid-19 e, consequentemente, com o alastrar do impacto para a realidade económica e financeira do país, surge a necessidade de as PME serem muito criteriosas na gestão da sua tesouraria e dos seus custos, para além da necessidade imperiosa de inovarem a sua abordagem ao mercado e reverem os seus processos de negócio.

Em tempos de crise e/ou alteração significativa no seu negócio, por serem de dimensão e complexidade mais reduzida, as PME podem também adaptar-se mais rapidamente a um novo contexto, não obstante os desafios significativos que muitas delas enfrentam (exemplo, dificuldades de financiamento), que podem até ameaçar a sua continuidade. Assim, é relevante considerar que existem oportunidades a explorar para aquelas PME que funcionam com uma gestão mais competente, capaz de perspectivar e implementar mudanças no negócio, que representem vantagens competitivas face à concorrência.

A comunicação clara de objectivos e de responsabilidades associados aos processos existentes ou a novos processos tornará o capital humano mais eficiente e eficaz nas operações e rotinas de trabalho. Adicionalmente, a existência de controlos que assegurem que os processos estão implementados e a operar como pretendido, e de sistemas com capacidade para capturar com fiabilidade os dados do negócio que permitam monitorizar e mensurar o sucesso das decisões, permitirá, de igual modo, ao gestor identificar os desvios e tomar as acções correctivas para operar as mudanças que pretende para o negócio.

Por outro lado, para todas as organizações, os riscos associados à ocorrência de fraudes são de extrema relevância uma vez que, frequentemente, para além de potenciais perdas financeiras, as fraudes podem implicar danos significativos (e, por vezes, irreparáveis) na reputação da organização e na confiança dos investidores e demais stakeholders. Neste sentido, apesar de normalmente os gestores das PME estarem mais directamente envolvidos nas operações do dia a dia, nas suas diversas vertentes, as circunstâncias do combate à pandemia da covid-19 acabam por determinar diversos constrangimentos novos (exemplo, maior distanciamento de colaboradores ou parceiros de negócio, dificuldades na formalização de contratos ou na inspecção de mercadorias, decisões tomadas à distância) que são potenciadoras de riscos, incluindo riscos de fraude. Tais riscos serão tão mais difíceis de gerir quanto mais inadequados forem os sistemas de controlo interno da PME.

Efectivamente, a gestão das PME é feita, frequentemente, de forma intuitiva, sem processos e controlos devidamente estruturados, sem utilização de técnicas adequadas de gestão e dados fiáveis de apoio à tomada de decisão, o que, no contexto actual, potencia riscos que podem afectar a performance das PME. Assim, é importante que os gestores reconheçam a necessidade rever os seus sistemas de controlo interno face a esta realidade dinâmica e complexa, de forma a proteger os seus activos e recursos (escassos), assegurar a conduta ordenada e eficiente dos negócios e a existência de dados fiáveis para tomar decisões que, em última instância, podem contribuir, de forma decisiva, para a resiliência da PME e prepará-la para o ambicionado crescimento.

 

Garcia Paca,

Senior Consultant EY, Assurance Services

 

Joana Carvalho,

Manager EY, Assurance Services

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