O país dos milhões…

05 Feb. 2026 Suely de Melo Opinião

Esta semana, fomos todos surpreendidos com o verdadeiro espetáculo de ilusionismo nas páginas do Plano Anual de Contratação Pública. Aquilo não é um documento contabilístico, é um manifesto surrealista. Ora, no Cazenga, a administradora Nádia Neto decidiu que o futuro das crianças passa por um investimento de um milhão de dólares para "brincar". Uma visão pedagógica revolucionária.

O país dos milhões…
Mário Mujetes

Esta semana, fomos todos surpreendidos com o verdadeiro espetáculo de ilusionismo nas páginas do Plano Anual de Contratação Pública.  Aquilo não é um documento contabilístico, é um manifesto surrealista. Ora, no Cazenga, a administradora Nádia Neto decidiu que o futuro das crianças passa por um investimento de um milhão de dólares para "brincar". Uma visão pedagógica revolucionária. Num país onde faltam carteiras, as crianças do Cazenga terão, presumivelmente, baloiços banhados a ouro ou escorregas que as levem directamente para a classe média. Já na Ingombota, Milca Caquesse parece querer vestir a população com o rigor de uma passagem de modelos em Paris e, por isso, reserva mais de 170 milhões de kwanzas em t-shirts. Pode não haver pão, mas algodão há! Em Viana, Demétrio Sepúlveda não quer ficar atrás e quer torrar 70 milhões de kwanzas em "farras e confraternizações". Mas o prémio da criatividade vai, sem dúvida, para a AGT. Os nossos guardiões do fisco, sempre tão ávidos por cada kwanza do nosso bolso, revelaram-se péssimos a fazer compras. Precisam de 5 milhões de kwanzas para comprar... 9 botijas de gás. A menos que as botijas sejam feitas de ouro ou venham cheias com o hálito de unicórnio, alguém precisa urgentemente de ensinar a AGT a ir à praça. Para garantir que ninguém faz perguntas impertinentes sobre estes preços, vão gastar outros 100 milhões para "gerir a reputação". É um conceito brilhante: em vez de serem eficientes, pagam para que os portais de fofoca digam que o são. Enquanto isso, na Cidade Alta, o orçamento para "Bens e Serviços" ignora a palavra "crise". São 7 milhões de dólares inscritos, prova inequívoca de que a dieta orçamental é apenas para os figurantes. Os protagonistas continuam a usar e a lambuzar-se do banquete. O toque de génio humorístico é o anúncio do Governo da possibilidade de bloqueio de despesas das Unidades Orçamentais por irregularidades contratuais, responsabilizando directamente os gestores máximos, com vista a reforçar o controlo e a disciplina financeira na execução do OGE. Ou seja, o Governo promete disciplina enquanto os seus gestores fazem uma competição de quem consegue ser mais supérfluo. Ou talvez o importante seja que eles de facto gastem a massa com o que se propuseram. Portanto, se os 900 milhões caírem, senhora administradora do Cazenga, gastar mesmo com as criancinhas, hãn? Aí a AGT os 5 milhões têm mesmo de servir para comprar as botijas de gás. Vejam já aí no mercado paralelo quem está a vender mais caro… Brincadeira de mau gosto. No fim do dia, a National Geographic tem razão: Angola é mesmo o destino de 2026. É o único lugar do mundo onde se pode ver uma botija de gás custar o preço de um carro usado e onde a felicidade das crianças custa um milhão de dólares em "brincadeiras". Se não é este o país dos sonhos, qual será?

 

*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 30 de janeiro de 2026