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SOBRE OS DADOS MANIPULADOS

05 Nov. 2019 V E Editorial

O dilema dos dados falsos em documentos oficiais não começou nem terminou no discurso sobre o ‘estado da Nação’. O engano geral a que João Lourenço se expôs ou foi exposto, a 15 de Outubro, é um problema crónico da governação. É uma deficiência que se enquadra no tema genérico da manipulação, da desconfiança e da insuficiência das estatísticas oficiais.

No seu último número, o VALOR trouxe mais um exemplo a superar o escândalo. Um investidor ligado aos petróleos garante que o Governo está a fazer contas, no Orçamento Geral do Estado de 2020, com projectos que não devem avançar no próximo ano. O caso específico é do Gimboa Noroeste no Bloco 4/05. O Governo inscreveu-o nas contas do próximo ano com uma contribuição média anualizada de quatro mil barris/dia. O investidor assegura, no entanto, que é impossível que tal aconteça, considerando que o primeiro poço já deu em seco e os trabalhos para a operacionalização do próximo vão levar tempo. O investidor chega mesmo a estimar que o projecto com o qual o Governo conta para o próximo ano só poderá produzir efeitos no Orçamento Geral do Estado de 2022, o ano em que João Lourenço termina o mandato.

Assumindo tudo isso como facto, não há exercício intelectual que ignore pelo menos uma dessas duas conclusões. Ou alguém anda deliberadamente a enganar os angolanos, inscrevendo projecções num documento tão crítico, como o OGE, com dados fabricados. Ou alguém esteve inexplicavelmente distraído no momento de elaboração do documento, ao juntar projectos duvidosos entre as fontes prováveis de receitas. Se qualquer dessas hipóteses é simplesmente inaceitável, a terceira ‘não lembraria ao diabo’: ninguém poderá afirmar que foi incluído, no OGE, um projecto que não deve operar, por simples desconhecimento. ‘Cairia o Carmo e a Trindade’.

João Lourenço pode juntar assim mais uma tarefa entre as que levou para casa, após o discurso sobre o ‘estado da Nação’. Enquanto se aguarda pela responsabilização dos que colocaram o Presidente numa situação constrangedora, segundo palavras do próprio, a propósito do ‘caso Mediateca do Bié’, fica-se à espera também da responsabilização dos que enganaram o Presidente e os angolanos com um OGE manipulado.