Girabola Zap
Banco BAI
Nuno Borges da Silva, Empresário e CEO da Toyota de Angola

“Este ano poderá ser o pior dos últimos 30 anos”

Justifica a não adesão dos empresários à linha de crédito do BAD com as exigências “extremamente difíceis de cumprir”. E considera “difícil prever quão profundos serão os efeitos” do coronavírus. Para o empresário, depois de tudo passar, “será importante apoiar, de forma mais activa, o sector agrícola e da construção e dinamizar a indústria transformadora”.

“Este ano poderá ser o pior dos últimos 30 anos”

Como é que avalia a actual relação entre o Executivo e a classe empresarial. Já conseguem sentir os efeitos da criação do Grupo Técnico Empresarial (GTE)?

O GTE tem dado prioridade às questões mais importantes e transversais a todos os sectores com forte impacto na diversificação da economia com destaque para a implementação prática dos programas Prodesi, PAC e PIIM.

O que ainda deve ser melhorado ou afinado nestes programas, sobretudo o Prodesi e o PAC?

Os dois programas estão bem concebidos e são dois excelentes instrumentos para apoio ao desenvolvimento do empresariado privado nacional tendo, como primeiro objectivo, a redução das importações. As dificuldades estão na sua implementação que exige recursos humanos qualificados para apoio à sua execução, empresas estruturadas e projectos viáveis e consistentes. O PAC permite acesso ao crédito em condições bastante mais favoráveis que o crédito oferecido pela banca comercial. Esta é uma grande oportunidade.

 

Há correntes que defendem, em relação ao PAC, por exemplo, que, enquanto o Estado passar o ónus de financiar a Agricultura, nunca este sector atingirá o nível de desenvolvimento esperado. Concorda?

Não concordo. O PAC não é um programa paternalista. É um programa realista e essencial para o apoio ao Prodesi e que conjuga facilidades de crédito e assistência às empresas, facilitando o seu desenvolvimento e competitividade.

No ano passado, o GTE identificou mais de 80 constrangimentos na relação com o Governo. Estes gargalos estão a ser ultrapassados?

Muitos desses constrangimentos identificados foram submetidos à discussão entre os vários sectores do Governo e do GTE sob a coordenação do Ministério da Economia e Planeamento, tendo daí resultado decisões muito concretas que muito estão a contribuir para um melhor desempenho de muitas das nossas empresas.

A melhoria do ambiente de negócios é um dos objectivos do Governo. Pelo que foi alcançado até agora, acredita tratar-se de um objectivo a concretizar até ao fim do actual mandato?

No Programa de Desenvolvimento Nacional (PDN) 2018-2022, foi estabelecido o objectivo de subir 15 posições acima da posição 175 que ocupávamos em 2018. Em 2019, baixámos para 173. Não me parece que seja possível recuperar 17 posições até ao final do mandato. Muito trabalho já foi feito nesse sentido, mas muito mais há a fazer. Não é tarefa fácil reformar o sistema administrativo do Estado, o sistema legislativo, o sistema de tecnologias de informação, comunicações etc.

 Pelo menos há vontade política, empenho da classe empresarial e dos vários intervenientes para a melhoria do ambiente de negócios?

Sem dúvida. O Grupo Multissectorial criado para o efeito está a promover importantes reformas nos vários sectores conforme já referido. O GTE já deu significativas contribuições tendo por base a sua experiência e o conhecimento dos estrangulamentos existentes para o desenvolvimento da sua catividade.

Ao ritmo actual e mantendo as reformas que têm sido feitas,  quanto tempo considera necessário para alcançar o ambiente desejado?  

A Covid-19 vai ter um forte impacto negativo em todos os sectores quer público, quer privado. É difícil, neste momento, prever quando terminará e quão profundos serão os seus efeitos. O programado no PDN estará longe de ser cumprido.

A banca continua a culpar os empresários pelas dificuldades de cedência de crédito. Acusam os empresários de continuarem a apresentar projectos que deixam muito a desejar…

É verdade que a qualidade de apresentação dos projectos, por vezes, não está alinhada com o que é recomendável. Por essa razão, o Ministério da Economia e Planeamento está a dar um suporte considerável aos empresários com recurso à consultoria privada que não só identifica a viabilidade dos projectos, como também valida os vários factores intervenientes na sua gestão. Esta intervenção tem também um papel extremamente didáctico. Os resultados desta intervenção são extremamente positivos, tendo possibilitado que muitos dos projectos propostos tenham já sido financiados.

Mas a linha de financiamento do BAD continua intacta por suposta falta de projectos credíveis. Não é um indicador bastante que a classe empresarial ainda está muito distante de cumprir as exigências?

As exigências do BAD são extremamente difíceis de cumprir por uma classe empresarial que se encontra numa fase inicial do seu desenvolvimento. Por essa razão é que foram criados o Prodesi e o PAC, para permitir que as empresas se desenvolvam e possam criar recursos para a sua sustentabilidade.

Os empresários continuam a queixar-se das taxas de juro praticadas pela banca. Vê alguma solução para que os financiamentos sejam mais baratos?

Não é possível que as taxas de juro da banca comercial estejam abaixo da inflação do país. Essa é a razão por que foi criado o PAC, que tem um mecanismo de financiamento que permitiu fixar um limite máximo de taxa de juro e custos de até 8,5%.

 “Este ano poderá   ser o pior dos   últimos 30 anos”

Já se referiu aos efeitos ainda desconhecidos da Covid-19 sobre a economia. Mas, em termos gerais, como perspectiva o ano económico e empresarial?

As perspectivas são pessimistas, como não poderia deixar de ser. A forte queda na procura de petróleo no mercado internacional provocada pela Covid-19 e a falta de entendimento entre a Arábia Saudita e a Rússia sobre a produção provocaram uma queda no preço totalmente inesperada. A Covid-19 está a provocar o caos nos mercados e a consumir recursos financeiros muito expressivos. Angola está a ser fortemente afectada por toda esta turbulência com grande impacto nas nossas empresas. Este ano poderá ser o pior dos últimos 30 anos.

 

Quando estima o pior ano das últimas três décadas, está a olhar para que indicadores?

Crescimento negativo da economia angolana mais acentuado que nos últimos cinco anos, preço do petróleo a cerca de metade do previsto no Orçamento Geral do Estado (OGE), receitas fiscais muito abaixo do previsto devido ao colapso da actividade económica, quebra no investimento público e privado. São factores muito negativos para o país.

Caso este ano venha efectivamente a ser o pior dos últimos 30 anos, quanto pensa que será necessário para reerguer o país e que medidas deveriam ser tomadas?

A Covid-19 não estava nos nossos planos. Surge numa fase em que o país estava no bom caminho para o crescimento e consolidação das contas públicas. O Governo tudo está a fazer e tem o apoio inequívoco dos empresários para tentar minimizar os efeitos desta crise, mas as consequências extremamente negativas são inevitáveis. O Governo, com certeza, estará já a rever as suas previsões económicas e financeiras e a delinear um plano estratégico, com apoio da comunidade internacional, para o pós-Covid-19. Além de um programa task-force, deverá dar continuidade aos programas já em curso, basicamente o Prodesi, PAC e PIIM.

Face à pandemia da Covid-19, os governos estão a precisar muito da acção de responsabilidade social e solidariedade da classe empresarial. 
Como avalia a capacidade e disponibilidade da classe empresarial angolana para apoiar e auxiliar o Governo neste momento? 

As empresas são das que mais estão a sofrer com esta crise. Não têm condições para dar a sua contribuição no ponto de vista da responsabilidade social. Estão a tentar sobreviver e manter os empregos. O GTE está a apelar ao apoio possível do Estado para que não encerrem.

Foi declarado o estado de emergência. Que medidas devem ser criadas para proteger a classe empresarial no período pós-pandemia?

As empresas necessitam, já nesta fase, de alivio das suas responsabilidades fiscais e de segurança social, diferindo e, nalguns casos, perdoando a sua liquidação, que os bancos façam uma moratória aos créditos. Este seria o pacote mínimo de sobrevivência das empresas e do emprego. Depois da pandemia, será importante apoiar, de forma mais activa, o sector agrícola e da construção e dinamizar a sua indústria transformadora. De uma forma muito geral, seria importante aliviar a carga fiscal das empresas e, à medida do crescimento económico, ir melhorando salários para aumentar o consumo.

O momento actual lembra a necessidade de diversificar a economia. Mas, sobretudo, coloca a pensar quais os sectores que mais rapidamente ajudariam a sair desta crise. Quais seriam?

Sem dúvida que a solução é o que o Governo definiu como sua prioridade, ou seja, a diversificação da sua economia sustentada nos nossos recursos naturais e nos seus recursos humanos. Estes objectivos requerem uma gestão cuidadosa dos parcos recursos financeiros disponíveis.

PRESSÃO NOS AUTOMÓVEIS


Que avaliação se pode fazer do sector automóvel?

O sector automóvel está a sofrer uma enorme pressão provocada pelas razões já referidas, com a agravante de ter de reduzir a sua actividade quase na totalidade, mantendo todas as suas obrigações salariais e fiscais. Vai ser muito difícil.

Depois de vários anos a registarem-se quedas nas vendas, no ano passado, registou-se uma tendência de aumento. O que esteve na base desta ligeira melhoria?

O mercado estava lento, mas a reagir de forma positiva, suportado pelos programas do Governo e uma melhor gestão macroeconómica.

Como perspectiva as vendas para os próximos anos?

Difícil de imaginar neste momento, quando estamos dependentes de elementos que não controlamos. Vamos ver se, daqui a mais dois ou três meses, poderemos rever as nossas projecções com base em pressupostos mais controlados.

A concorrência do mercado paralelo foi sempre uma das maiores preocupações da Acetro. Esta preocupação mantém-se ou sentem-se mais protegidos?

Os factores que estão na base dessa preocupação ainda se mantêm. O que a Acetro deseja é que haja uma concorrência saudável, transparente e de igual oportunidade para todos.

 

A dívida para com os fornecedores era outra preocupação dos concessionários. Qual é a condição actual da dívida?

O BNA fez um grande trabalho de organização e disciplina no sistema financeiro, que permitiu que regularizássemos as dívidas a fornecedores e um funcionamento bastante normal do actual sistema de pagamentos.

No ano passado, falou-se da possibilidade de a Toyota ter uma fábrica de montagem em Angola. É um projecto para avançar?

Vai levar algum tempo. Essa possibilidade passa pela análise do mercado interno, aspectos legais e fiscais, conteúdo local etc.

 

 

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