A Luanda da Sonangol

19 Jan. 2021 Opinião
A Luanda da Sonangol

Entramos num novo ano com os velhos problemas que afectam a nossa sociedade. Problemas que, de idade, são seniores e de barba branca, calejados de continuarem a girar em mãos diferentes, porém todas iguais na sua “in aptitude” de os resolver. Lembro-me do Pedro Fortunato dizer-me, em 1976, que ele iria fazer de Luanda uma cidade melhor. Quis o destino acabar com ele antes que tivesse tempo até para se coçar. Foi simplesmente exterminado, talvez propositadamente, para que Luanda não se tornasse numa cidade melhor.

Luanda não era um jardim plantado a beira-mar, porém tinha o ar e a graça duma cidade a querer ser divertida e crescer como uma jovem dotada de seios avantajados e convidativos, pernas esculturalmente longas e moldadas e inteligência fulgurante. As praias eram limpas e, com as águas límpidas e mornas, eram convidativas. Ia para o trabalho com o prazer de ganhar o dia para viver a noite sem os sobressaltos das grandes capitais. Aliás, Luanda nem sequer era uma cidade grande embora fosse uma grande cidade.

Só que tal como Luanda falhou tudo. Falhou a cidade, falhou a educação e a ciência, falhou a saúde, falhou a indústria e o comércio, falhou a urbanização e falhou tudo mais. Só não falhou a guerra porque, fazendo-a, os capitães de areia ficaram ricos. Acreditem que até falhou a religião, fragmentando-se ao ponto de hoje existirem mais de mil denominações, incluindo inúmeros muçulmanos. E, assim, chegamos a 2021.

As ruas de Luanda estão todas sujas. Cheiram a urina e a fezes. Luanda cheira a podre, sobretudo na parte mais baixa que era o orgulho da jovem dotada de 1976. Não há água em grande parte da cidade, porém corre água por várias artérias. Basta de promessas. “Exijo” que se resolva este problema em 2021.

Durante anos, a chave mágica para a solução de todos os problemas era o petróleo. Dava para “tudo”, uma vez que “tudo” ia à santa Sonangol buscar a água benta para “missas e orações”. E, pelos vistos, usou-se muito mal esse recurso de tal maneira que hoje, desgastado, debotado e, por todos violado, parece ter perdido o brilho e o cheiro. Anda desvalorizado e de cabeça baixa. Aliás, já anda assim há uns anitos.

Em 2017, a nova gestão de gestores inexperientes e sem formação específica em gestão pareceu que ia dar um empurrão. Só que empurrar líquidos não é a mesma coisa que empurrar uma camioneta que não arranca porque o motor de arranque avariou. E ainda por cima e, para além disso, sob o manto de cumplicidade matrimonial com o passado recente.

“Nevaram” promessas que rapidamente se transformaram em água, pois é isso que acontece sempre que há neve. Das promessas feitas, o sucesso foi o surgir duma agência que ainda não sabe bem o seu papel e que como tal continua a apalpar terreno. Continua sem orçamento próprio e sem saber bem como obter os fundos de que necessita. Mas, com esta mexida, aligeirou-se a Sonangol de 10-15% da carga laboral o que transformou a agência num navio sobrelotado à nascença com, quiçá, três vezes mais pessoal do que normalmente precisaria. A Sonangol ficou com o “resto”, o que só por si significa ter guardado três a quatro vezes mais do que realmente precisa.

Tudo o resto tem sido um falhanço total talvez devido ao “pára-quedismo” de quem se encarregou de fazer as mudanças. Eis alguns exemplos desse falhanço:

- O casamento (ou divórcio) entre a E&P e a P&P ainda está por clarificar.

- O Estado gastou cerca de mil milhões de dólares na aquisição de duas plataformas de exploração que estão inoperativas.

- O Estado gastou cerca de dois mil milhões com os blocos 20 e 21 e vendeu 80% deste “asset” por cerca de setecentos e 50 milhões perdendo descaradamente mil duzentos e cinquenta milhões, e nada aconteceu de bom para o país até agora.

- O Estado alinhou a comercialização de refinados com a Total e não há resultados visíveis dessa nova aliança.

- O Estado precisa de fazer pesquisa e exploração para se tornar produtor e nada está a fazer nesse sentido.

- Silenciou-se um complexo industrial com uma refinaria cuja aprovação havia sido decretada em 2017 pelo antigo titular que, a ter sido edificada, iria revolucionar a produção de refinados e lubrificantes a Sul do continente pelo menos e de assumir o surgimento de 10 mil postos de trabalho.

- Em contrapartida, negociaram-se refinarias diversas e até ao presente não há sinais de alguma refinaria estar no horizonte numa altura em que várias refinarias pelo mundo fora estão a fechar as portas antevendo-se o fim da “era do petróleo”.

- Entregaram-se os campos de gás disponíveis a uma velha operadora, porém, até ao momento, a planta de gás continua a operar pouco acima dos 60% da sua capacidade por falta de matéria-prima, por falta de gás.

- Finalmente, a maior promessa continua hibernada no baú dos interesses de Estado: a privatização da Sonangol. É que, sem a sua privatização, a Sonangol nunca irá funcionar duma forma responsável e transparente.

É na realidade preocupante que a privatização da Sonangol foi a maior promessa do Executivo de 2017. Aparentemente nada está a ser feito nesse sentido. Será que o Governo já sabe quanto vale a Sonangol? Será que já se calculou o valor real desse monstro que é de todos nós e que como tal todos nós temos o direito de conhecer o seu valor? Certamente que alegam que a empresa não está pronta para ser colocada numa bolsa de valores como se de um bolo se tratasse e precisasse de fermentar antes de ir para o forno.

É óbvio que dá jeito que a Sonangol continue como está, que continue a ser o que tem sido até hoje: um saco azul. Cadê a auditoria que vários deputados têm atempadamente solicitado? Quanto vale a Sonangol? Será que só as eleições de 2022 poderão ditar o seu valor?

E acabamos por verificar que não são só as ruas de Luanda que estão sujas, que cheiram a urina e a fezes. Não é só Luanda que cheira a podre na parte mais baixa, essa parte que era o orgulho da jovem dotada de 1976. Não é só a falta de água em grande parte da cidade. Como Luanda, a Sonangol de 1976 que até foi bem cuidada enquanto adolescente, foi violada, vítima de abuso e usada na juventude, de tal forma que hoje, adulta, não está muito melhor que as prostitutas que povoam e pululam as noites da baixa de Luanda. Por falta de inteligência e dos cuidados necessários nessa sua fase de maturidade. Afinal de contas, aos 45 anos ainda não se é suficientemente velha para que caia em desleixo, e, quiçás desgraça.

“Exijo” que se resolva este problema. Que se esqueçam os pára-quedistas e se projectem os profissionais. Já. Só assim, iremos corrigir o que está mal e melhorar o que está bem. E quem ganhará é o povo. O futuro promete.

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