Anúncio de subscrição

A “vergonha” da linha de crédito do DeutscheBank

12 Jan. 2022 Opinião

 

Venho cá para mim, que muito poucas empresas angolanas conseguirão tão cedo preencher os requisitos da linha de crédito do banco alemão, a qual, até agora, só serviu para o Governo fazer propaganda dizendo que tem mil milhões de euros para o sector privado e estes é que não sabem aproveitar.

A “vergonha” da linha de crédito do DeutscheBank
D.R

 

Na ‘entrevista’ colectiva da semana passada, o Presidente da República, João Lourenço, trouxe para o primeiro plano da actualidade o tema do crédito ao sector privado.

Questionado pelo Expansão sobre o suposto favorecimento de Carrinho, Gemcorp ,Mitrelli e Omatapalo, João Lourenço deu o exemplo da linha de crédito do DeutscheBank (DB) no caso do Grupo Carrinho.

“O Executivo negociou com o DB uma linha de crédito de mil milhões Euros destinados a financiar o sector privado angolano e essa linha está disponível há dois ou três anos”, começou por dizer o PR.

O funcionamento da linha de crédito é simples. O DB financia o Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA) que, por sua vez, financia empresas de direito angolano com capitais maioritariamente detidos por cidadãos angolanos na aquisição de equipamentos, bens ou serviços junto de fornecedores de certos países aprovados pelo DB. São priorizados projectos de investimento nos sectores da agricultura, pecuária, agro-indústria, pescas e indústrias transformadora e mineira que tenham uma componente de exportação não inferior a 75% da sua facturação.

“Anunciei a disponibilidade da linha num encontro no Centro de Convenções de Talatona com a classe empresarial: aproveitem a linha, é para vocês!”, recordou João Lourenço

Mas os empresários angolanos não chegam a ver a cor do dinheiro. O DB exigiu ser ele a entregar os valores directamente ao fornecedor estrangeiro. Além disso, o banco alemão fez mais duas exigências: uma garantia soberana do Estado Angolano e um seguro de crédito. Para cobertura do risco país, a garantia soberana não é suficiente.

“Passado esse tempo (…) a única empresa que provou estar habilitada, num valor pouco abaixo dos 200 milhões de euros, chama se Leonor Carrinho”, lamentou o PR.

“Será que o executivo que gosta tanto da Leonor CArrinho e impediu que os outros entrassem? Não! Ainda estão disponíveis 800 milhões. De quando em quando, vamos perguntando aos nossos empresários o que é que se passa? É uma vergonha! Perante o credor, perante banco alemão, o que vamos dizer? Que imagem estamos a passar?”, questionou João Lourenço.

“A gente luta para conseguir financiamento lá fora neste caso até nem é para obras públicas é parafinanciar  o sector privado e de um total de mil milhões de euros em três anos só temos garantido que vamos consumir 200 milhões? Qual a imagem que a gente está a passar?”, questionou, de novo, o PR.

“Se o Grupo Leonor Carrinho é o único que conseguiu passar no exame, significa dizer que é o único que conseguiu dar garantias reais, talvez não de não depatrimónio, mas de organização empresarial, de contabilidade. Conseguiu dar essas garantias quer ao banco credor, quer ao executivo angolano que emitiu a garantia soberana”, explicou João Lourenço.

“A garantia soberana funciona assim no caso do tomador do credito não honrar com a sua palavra o Estado que deu a garantia soberana funciona como uma espécie de fiador, a responsabilidadecai sobre o fiador”, concluiu o PR.

Ou seja, os empresários angolanos não estão a conseguir convencer lá fora o DeutscheBank.e a seguradora de crédito e cá dentro o BDA e o Governo de que são capazes de reembolsar o financiamento. Financiamento que vai apenas até 85% do projecto. O promotor tem de avançar com um dowpayment (pagamento adiantado) de 15%, que é uma das principais reclamações dos empresários angolanos. O problema é que as entidades envolvidas no financiamento querem garantir que o promotor também está a correr riscos e para saber nada melhor do que obrigar a fazer um pagamento adiantado.

Tenho cá para mim, que muito poucas empresas angolanas conseguirão tão cedo preencher os requisitos da linha de crédito do DeutscheBank, a qual, até agora, só serviu para o governo fazer propaganda dizendo que tem mil milhões de euros para o sector privado e estes é que não sabem aproveitar.

Uma afirmação no mínimo injusta. As condições das linhas de crédito do tipo da do DeutscheBank são demasiado exigentes para o estádio em que se encontra o país e, por tabela, os nossos empresários. É como pôr uma equipa do Girabola a jogar na Bundesliga.

O crédito para diversificar a economia angolana composta na sua por maioria micro e pequenas empresas será crédito bancário interno.

Durante o devaneio socialista, que durou até final dos anos 80, Angola destruiu os poucos empresários que vieram do tempo colonial. Nos anos 90, com o multipartidarismo, o país adoptou, no papel, a economia de mercado. Na realidade abraçou a acumulação primitiva do capital em que em vez de empresários, criaram-se sobretudo “emprestários” à sombra dos negócios com o Estado.

Agora, o PR veio deitar culpas aos empresários. Mas, em minha opinião, eles não são culpados, são vítimas do sistema que vigora em Angola desde a independência. Os verdadeiros empresários ainda são poucos. Infelizmente. E não nascem como os cogumelos.

Dos poucos empresários que temos, muitos são verdadeiros heróis, considerando o ambiente de negócios que vigora no País.