Balumuka revisita legado do Ngola Ritmos entre memória, resistência e crise financeira
MÚSICA. Festival dedicado à preservação das sonoridades tradicionais homenageou o Ngola Ritmos, mas voltou a expor dificuldades de financiamento e o afastamento do público jovem da música de matriz identitária.
A quinta edição do Festival Balumuka prestou homenagem ao histórico conjunto Ngola Ritmos, considerado uma das principais referências da música angolana e símbolo de afirmação cultural durante o período colonial português.
Realizado entre 25 e 26 deste mês, no Palácio de Ferro, o “Balumuka – Baluarte da Musika” decorreu sob o lema “Honremos o legado histórico do Ngola Ritmos, exaltando o seu património rítmico e musical”, numa edição marcada pela valorização da música tradicional, apesar da reduzida adesão do público.
Ao longo das duas noites, músicos como Zé Maria Boyoth, Banda Muzangala, Tóto ST, acompanhado pelo conjunto Nguami Maka, e o folclorista Tiviné revisitaram temas históricos do semba e repertórios ligados à tradição oral angolana, num espectáculo centrado na recuperação da memória musical nacional. Entre os momentos mais aplaudidos esteve a interpretação de “Muxima”, composição de Liceu Vieira Dias para o Ngola Ritmos e considerada uma das obras mais emblemáticas da música angolana. O tema foi interpretado por Tóto ST, que apresentou ainda “Mbiri Mbiri”, outro clássico associado ao grupo homenageado. Já a Banda Muzangala revisitou canções como “Nzage” e “João Domingos”.
O festival acabou igualmente por reabrir o debate sobre o espaço reservado à música tradicional no actual panorama cultural angolano. O jornalista e investigador cultural José Weza criticou a “ausência e o esquecimento” destas sonoridades nas rádios nacionais, defendendo que parte da nova geração de músicos perdeu a ligação à “angolanidade”.
Já a coordenadora das actividades do Palácio de Ferro, Odeth Cassilva, reconheceu dificuldades financeiras na organização da edição deste ano, revelando que as limitações orçamentais condicionaram a programação, reduziram o número de dias do festival e limitaram a mobilização do público.
Apesar das restrições, a organização decidiu manter o evento como forma de garantir continuidade a uma iniciativa dedicada à preservação do património musical angolano.
Criado pelo músico e pesquisador Jorge Mulumba em parceria com a produtora Onart, o Festival Balumuka nasceu em 2022 como plataforma de valorização da música e dos instrumentos tradicionais angolanos, tendo já homenageado figuras como Amaro Fonseca, Mestre Kamosso e artistas ligados à cultura Ovimbundu.









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