Dois anos e nada sobre os Boeings

14 Apr. 2021 César Silveira Opinião

Nesta semana, completam-se dois anos desde que o Presidente João Lourenço decidiu cancelar a decisão de reforçar a frota da Taag com a aquisição de 17 aeronaves entre Boeings e Bombardiers.

Passavam-se apenas quatro meses desde a decisão de comprar as referidas aeronaves. E, por culpa também de decisões anteriores, o Preside da República deu motivos para reforçar as suspeitas de que alguma coisa não estava a correr bem na sua equipa. Não era a primeira vez que João Lourenço recuava de decisões pouco tempo depois de tomadas. As exonerações prematuras são o melhor exemplo disso.

Voltando às aeronaves, o tempo foi passando e ficando mais claro que, das duas uma: ou o Governo não sabe o que pretende ou esconde a real razão que motivou a aprovação do reforço da frota e, posteriormente, o cancelamento da decisão. E, passado mais alguns meses, uma nova postura estranha.

O Governo avança para a compra das aeronaves da Bombardier mas, contrariamente ao que aconteceu com as decisões anteriores, já não houve qualquer despacho oficial. Optou pelo método da suposta especulação, seguindo-se confirmações oficiosas e, posteriormente, o anúncio da chegada dos aviões.

Em relação aos Boeings, a dúvida continua porque o Governo continua mudo. A construtora norte-americana, no entanto, garante que continua a construir as aeronaves porque nunca recebeu qualquer notificação oficial no sentido de cancelar a encomenda das oito aeronaves.

Uma trapalhada difícil de entender e que já deu lugar a diversas interpretações, mas todas ignoradas pelo Governo como se o negócio em causa fosse da esfera privada dos governantes. Não é. E, ainda que fosse, existem situações e momentos em que estes, enquanto gestores públicos, estariam obrigados a prestar esclarecimentos.

É, entretanto, o negócio de interesse público. São milhões em jogo. Ainda que se mantenha o cancelamento, o Estado deve perder, no mínimo, 50 milhões de dólares. Portanto, por tudo isso, o Governo deve explicações. Oportunidades não faltaram.

O Ministério dos Transportes comemorou em Janeiro 45 anos de existência, o ministro discurso e nada sobre os Boeings. Está errado. Expliquem-nos sobre os Boeings e todas as outras situações semelhantes. Ainda há tempo de fazer justiça ao slogan de transparência que muito foi entoado no princípio da governação de João Lourenço.

César Silveira

César Silveira

Editor Executivo do Valor Económico
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