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Gravidade da crise obriga todos a explicarem alguma coisa a alguém

29 Oct. 2019 César Silveira Opinião

O estado a que chegou a situação económica do país, sobretudo a alta de preços, motiva um interesse generalizado sobre o que está a acontecer. Chegou-se a um estágio em que todos se apercebem de que alguma coisa não está bem. Até mesmo as crianças não estão a ser poupadas. Os pais dão detalhes perante a necessidade de justificar a impossibilidade de atender algum pedido do filho e/ou face à necessidade de explicar a razão porque a mensalidade não foi paga a tempo de se evitar a expulsão da escola.

Zungueiras, roboteiros, desocupados, prostitutas e, inclusive, quem ocupa o tempo apenas e somente a beber estão interessados em saber a razão de em tão pouco tempo os preços dispararem como tem acontecido ultimamente. Cada um pede explicação a quem acredita entender melhor a situação. E os que acreditam saber de alguma coisa explicam o que acreditam saber. Há também os que, mesmo não sabendo, se sentem obrigados a dizer alguma coisa em defesa do estatuto de pessoa intelectual e informada. Disseminam-se as supostas razões. Estas que, infelizmente, não cobrem as necessidades impostas pela inflação e pela desvalorização. Disseminam-se as justificações. Estas que vão deixando claro que, infelizmente, o povo se deixou levar pela divisão parida no MPLA. Uns a manifestarem-se lourencistas e outros eduardistas.

Uns defendem ferozmente que tudo é consequência da governação do passado, enquanto outros entendem que a culpa é das escolhas do presente, quando está mais que claro que é uma combinação de ambos. Está mais que claro que, considerando os erros do passado, o presente exige inteligências que foram ignoradas no princípio da governação.  

Os erros do passado eram um facto. Nada mais poderia ser feito. Depositou-se a esperança no presente e existiram outras opções em relação às decisões tomadas. Era, por exemplo, possível não celebrar o acordo com o FMI agora. Era, por exemplo, possível não implementar o Iva numa altura em que as pessoas já estavam sem dinheiro. Era possível, antes de partir em busca de novos credores, reconquistar a confiança do maior credor até agora e renegociar condições para que o crédito do passado não pesasse tanto como está a acontecer. Era possível, considerando a escassez de divisas, apostar em sectores que depois de dois anos já estariam a parir alguma divisa.

Nada disso foi feito e, pelo que parece, não está a ser feito. E,  por isso, dentro de dois anos, a crise de cambiais continuará…

 

César Silveira

César Silveira

Editor Executivo do Valor Económico