Haja luz… mas só para o Papa
Enquanto o mundo assiste, com expectativa e curiosidade, ao ensaio do regresso do homem à Lua, por cá ensaiamos algo muito mais radical: a transformação do homem em anfíbio. Esta semana, Luanda e Benguela decidiram transformar-se na versão africana de Veneza, mas sem as gôndolas românticas e com muito mais lixo a boiar.
Enquanto o mundo assiste, com expectativa e curiosidade, ao ensaio do regresso do homem à Lua, por cá ensaiamos algo muito mais radical: a transformação do homem em anfíbio. Esta semana, Luanda e Benguela decidiram transformar-se na versão africana de Veneza, mas sem as gôndolas românticas e com muito mais lixo a boiar. Os americanos gastam biliões em combustível de foguetão para chegar a uma rocha seca a milhares de quilómetros, enquanto nós, com uma chuva de algumas horas, conseguimos trazer o oceano directamente para dentro de casa. Se morrer no espaço vira uma tragédia de cinema, morrer arrastado por uma vala de drenagem que nunca viu uma limpeza é apenas "estatística da época chuvosa". Já contamos 45 óbitos, enquanto os governadores de Luanda e Benguela percorrem as margens do desastre à procura de culpados. Olham para o céu, olham para o histórico de S. Pedro, olham para todo o lado, menos para o espelho. Eles, coitados, são meros espectadores de um filme que dirigem há décadas. Mas nem tudo está mal… O Executivo acabou de carimbar 3,5 mil milhões de kwanzas para garantir que, onde o Papa Leão XIV puser os pés, haverá luz e água. No sábado passado, as pessoas morreram por falta de infra-estrutura. Esta terça-feira, o dinheiro aparece "por decreto" para iluminar a estrada de um chefe de Estado estrangeiro. A rede eléctrica nacional, que normalmente sofre de fadiga crónica e desmaia a cada ameaça de trovoada, subitamente ganha vigor se houver uma batina branca por perto. Pelos vistos, para termos água na torneira e luz sem "pisca-pisca", não precisamos de engenheiros, precisamos de santos. De repente o dinheiro apareceu e a vontade nasceu. Mas atenção, vai fazer-se luz e jorrar água apenas nas "localidades que acolherão Sua Santidade". Para o resto da vizinhança, o resto do povo que não está na rota do papa, a recomendação é continuar a rezar. E por falar em fé, quem também precisa de orar muito é quem ainda acredita que, sob este regime, as instituições decidirão, por erro ou cansaço, funcionar. A CNE, a nossa "NASA das urnas", que foi confrontada pelo movimento Mudei, Kutakesa e Uyele sobre a eterna e polémica contratação da INDRA, fez o que sabe melhor: em vez de responder ao "quê", questionou o "quem". O órgão presidido pelo juiz "Manico" ignorou o mérito da petição para atacar a legitimidade de quem pergunta. E, quando a professora Cesaltina Abreu pediu documentos, a CNE simplesmente respondeu que não se pode mostrar nada para não "violar direitos de terceiros". Ou seja, contratos que decidem o futuro de milhões são segredos de estado protegidos por uma cláusula de privacidade que ainda se está por entender a quem, de facto, beneficia. No final do dia, a diferença é clara. Enquanto uns querem conquistar o satélite da Terra, nós ainda estamos a ‘xixilar’ para em tempos de chuva conseguirmos chegar à Mutamba sem precisar de botes. Nós continuamos aqui a testemunhar o Governo a querer iluminar o caminho do Papa e a CNE a esconder os papéis da INDRA. Diante do teatro do absurdo em que nos tornámos, estou aqui a pensar com os meus botões: O Inamet já previu que este mês vai chover a potes. O executivo, por sua vez, optou por priorizar a energia e a água nas torneiras, em detrimento do saneamento. Será que o plano de contingência é esperar que, em caso de mais um dilúvio, o Papa reedite o milagre de Jesus e caminhe sobre as águas?
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 10 de Abril de 2026




Manuel Vicente entre as peças de João Lourenço