O Crescimento do Crédito em Angola Não Está a Gerar Desenvolvimento
Uma análise da distribuição do crédito em Angola revela um paradoxo central da economia nacional. Apesar do crescimento nominal do financiamento bancário em 2025 — estimado em 22,6%, correspondente a cerca de 1,36 biliões de kwanzas — os desequilíbrios estruturais da economia permanecem praticamente inalterados.
Uma análise da distribuição do crédito em Angola revela um paradoxo central da economia nacional. Apesar do crescimento nominal do financiamento bancário em 2025 — estimado em 22,6%, correspondente a cerca de 1,36 biliões de kwanzas — os desequilíbrios estruturais da economia permanecem praticamente inalterados. O resultado é um sistema financeiro que cresce em volume, mas falha em promover desenvolvimento sustentável, diversificação produtiva e inclusão económica.
Do ponto de vista geográfico, a concentração do crédito continua excessiva: Luanda absorve 51,44% do total do crédito concedido, reforçando um padrão histórico de centralização económica. Do ponto de vista sectorial, as grandes empresas concentram cerca de 54% do crédito, sendo particularmente preocupante o facto de 17% desse montante já se encontrar em situação de incumprimento. Estes dados revelam não apenas um problema de concentração, mas também de qualidade do crédito.
Este padrão não reflecte a visão nem as aspirações de uma economia que procura afastar-se da dependência do petróleo e caminhar para um modelo de crescimento mais inclusivo. Pelo contrário, perpetua desigualdades regionais, limita o desenvolvimento das pequenas e médias empresas (PME) e fragiliza a resiliência económica do país.
Sem uma mudança estrutural no processo de descentralização do crédito, no apoio efectivo às PME e na criação de uma plataforma sólida de inclusão financeira, a instabilidade social e económica tenderá a intensificar-se e o desempenho da economia continuará aquém do seu potencial.
A elevada concentração de crédito em Luanda tem, à primeira vista, uma explicação racional: cerca de 80% das empresas formalmente registadas e aproximadamente 30% da população encontram-se na capital. No entanto, esta realidade transformou-se num mecanismo de autoreprodução.
As restantes províncias — muitas delas ricas em recursos naturais, com potencial hidroeléctrico significativo e solos férteis — continuam economicamente negligenciadas precisamente porque o crédito não chega. A ausência de financiamento limita a actividade económica local, o que, por sua vez, é utilizado como justificação para a continuação da concentração do crédito em Luanda. Cria-se, assim, um círculo vicioso de exclusão regional.
Aviso BNA n.º 10/2024:
boa intenção,
impacto limitado
O Aviso n.º 10/2024 do Banco Nacional de Angola (BNA) representou uma tentativa relevante de orientar o sistema bancário para o financiamento da economia real. Contudo, os resultados demonstram falhas significativas na sua implementação.
Na prática, as grandes empresas em Luanda continuaram a absorver a maior fatia do crédito, quase como antes da entrada em vigor do aviso. Os bancos comerciais mantiveram uma postura fortemente avessa ao risco — algo reconhecido publicamente pelo próprio governador do BNA — o que ajuda a explicar porque o crescimento do crédito ficou abaixo da meta implícita de 30% registada no ano anterior.
As PME enfrentaram exigências colaterais excessivas, incompatíveis com a sua realidade, e não foram estabelecidas quotas vinculativas por província nas estruturas operacionais dos bancos. O resultado foi uma política bem-intencionada, mas sem capacidade real de alterar comportamentos.
Angola necessita de uma política de crédito deliberadamente redistributiva. Neste sentido, o BNA, em coordenação com o Ministério das Finanças, deveria estabelecer metas claras e verificáveis:
• Pelo menos 40% do crédito total à economia real deve ser canalizado para projectos e empresas fora de Luanda até 2028;
• No mínimo 30% do crédito concedido deve ser destinado especificamente às PME, preferencialmente com taxas de juro bonificadas.
O fundo de garantia de crédito “Diversifica Mais”, recentemente criado com apoio de um financiamento de 80 milhões de dólares do Banco Mundial, constitui um instrumento útil, mas claramente insuficiente. É necessária uma expansão significativa da sua cobertura, melhoria dos termos de garantia e uma estratégia activa de promoção nas capitais provinciais, incluindo através de serviços de banca móvel e plataformas digitais.
O crédito, por si só, não basta. Para atrair investimento privado para as províncias, é indispensável criar polos económicos competitivos, apoiados por infra-estruturas adequadas. Isto implica investimento público estratégico em energia, logística e conectividade digital, de modo a reduzir os custos de contexto fora de Luanda. O Governo deveria comprometer-se a criar pelo menos três Zonas Económicas Especiais (ZEE) até 2027, em províncias com vantagens comparativas claras:
• Huíla, focada na agro-produção e agro-indústria;
• Lunda-Norte, orientada para mineração e transformação de recursos;
• Cabinda, com vocação logística e portuária.
Estas ZEE deveriam beneficiar de isenções fiscais por um período mínimo de 10 anos para investidores nacionais e estrangeiros que criem, pelo menos, 100 postos de trabalho. Paralelamente, 15% do investimento nacional em agro-indústria e energias renováveis deveria ser obrigatoriamente alocado a projectos nas províncias, financiados através do fundo soberano constituído com receitas petrolíferas.
Literacia financeira: a base de longo prazo
Nenhuma reforma estrutural será sustentável sem uma mudança na cultura financeira. A literacia financeira deve tornar-se disciplina obrigatória no ensino secundário (8.ª a 10.ª classes), abordando poupança, investimento e crédito. Mecanismos simples — como esquemas de poupança escolar a partir de valores simbólicos (por exemplo, AKZ 100) — podem criar hábitos de gestão financeira desde cedo. Combinados com pagamentos móveis e microcrédito, estes instrumentos podem desencadear uma mudança estrutural na relação dos jovens com o empreendedorismo e o risco económico.
Conclusão
O futuro económico e social de Angola depende da democratização do capital. A actual concentração geográfica e sectorial do crédito está a aprofundar desigualdades e a sufocar o espírito empreendedor necessário à diversificação económica.
Instrumentos como o Aviso BNA n.º 10/2024 e o fundo Diversifica Mais representam passos na direcção certa, mas carecem de revisão profunda, com metas territoriais claras, maior ambição infra-estrutural e investimento consistente no desenvolvimento humano.
Sem estas mudanças, o crescimento continuará abaixo do potencial do país e inferior à média da África Subsaariana, perpetuando um modelo económico frágil, desigual e vulnerável a choques.
Resumo
O padrão de financiamento dentro da economia real de Angola é um dos principais obstáculos ao desenvolvimento, pois existe uma sobreconcentração tanto em Luanda como entre grandes empresas. Espera-se que isto dificulte o desenvolvimento no país, pois existem projecções de instituições internacionais para um baixo crescimento económico. As medidas actualmente em vigor, como a linha de crédito "Diversifica Mais", não são eficazes porque se baseiam num sistema que favorece clientes de baixo risco bem estabelecidos e sediados na capital, em vez de resolver a questão subjacente do desenvolvimento nas províncias.
Um plano estratégico terá, portanto, de promover uma mudança sistémica. Isto implicará tornar obrigatório o empréstimo entre bancos para conceder uma quantia substancial de crédito às MPME nas regiões além de Luanda, para travar o círculo vicioso da concentração. Isto exigirá uma estratégia de puxar substancial juntamente com a abordagem de empurrar. Será necessário um investimento público substancial na infraestrutura global, particularmente na produção de electricidade utilizando recursos hídricos nas províncias ricas, para tornar o investimento privado menos arriscado. Serão também necessários incentivos fiscais excepcionais para atrair investimento estrangeiro nas regiões devido ao ambiente macroeconómico reforçado, que atrairão investidores estrangeiros.
Em última análise, o investimento financeiro sustentável terá de se basear em mais do que apenas crédito. Terá de ser acompanhado por investimento em capital humano para desenvolver uma geração de empreendedores provinciais rentáveis em Angola. Só desta forma Angola poderá desbloquear o potencial subjacente das suas províncias, alcançar a diversificação da sua economia e lançar as bases para uma estabilidade social sustentável.




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