Sete anos de teimosia
Por hoje, peço que me perdoem a audácia de hierarquizar a importância dos assuntos segundo os desígnios do meu próprio umbigo.
Por hoje, peço que me perdoem a audácia de hierarquizar a importância dos assuntos segundo os desígnios do meu próprio umbigo. Mas como sabem, estamos em festa! E como poderia eu ignorar o facto de que já andamos a gastar o latim por estas bandas há precisamente sete anos? Para quem vê de fora, sete anos parece um sopro. Mas para quem sabe verdadeiramente o que a casa gastou, chega a parecer um milagre divino (com o perdão do ateu que mencionarei mais à frente) termos chegado vivos até aqui. A perseverança, ou mais honestamente, a teimosia de dois jovens trouxe-nos a este porto. Os bosses que me perdoem a inconfidência, mas vou contar-vos um segredo: nós já passámos maléee… Passámos meses a fio a olhar para a conta bancária à espera de um salário que nunca chegava, e a chegar ao edifício com aquele frio na barriga, sem saber se encontraríamos um cadeado gigante na porta principal. Somos muitas vezes combatidos, tidos como os do contra e antipatrióticos. Somos preteridos nos eventos presidenciais, como se desconhecessem a nossa existência. Alguns de nós já fomos detidos, sem qualquer motivo aparente… enfim…
Porém alguns de nós mantiveram-se firmes. E atenção, digo isto sem qualquer desprimor aos que decidiram abandonar o barco a meio da tempestade. Afinal, cada um sabe perfeitamente onde o calo aperta e o estômago reclama. Mas a verdade precisa de ser dita com todas as letras: nós, os que cá ficámos, sim, atravessámos o deserto a pé e sem cantil. Não "uns e outros" da nossa praça política que reclamam louros de travessias imaginárias! Porém, contra todas as probabilidades cá estamos. E se hoje celebramos, também devemos grande parte disso ao nosso eterno mestre. Como festejar sem falar do Emídio Fernando? Ele que desenhou a espinha dorsal da maior parte dos programas, inclusive este mesmo que vos fala e que, milagrosamente, tanto vos agrada. A rádio é uma espécie de herança viva que o Emídio nos deixou. Onde quer que esteja agora aquele incorrigível e irrecuperável ateu, sei perfeitamente que não está satisfeito. Conhecendo a peça, nunca estava! Estaria a apontar um erro técnico, a criticar o alinhamento, ou a praguejar-nos por usarmos palavras que ele abominava. Mas espero que, algures no meio do seu eterno cepticismo, ele consiga sentir um pingo de orgulho por termos tido a audácia e a irreverência de dar continuidade ao seu legado. Parabéns a nós. Sobrevivemos! Que venham os próximos anos, de preferência com menos deserto e mais água fresca.
Entretanto, porém, todavia, apesar de ser nosso aniversário os dias continuaram a andar… E esta semana voltámos a provar que somos bons organizadores de evento. A nossa capital engalanou-se para receber a fina flor do turismo mundial na Cimeira de Investimento do Fórum Global, com o habitual desfile de sorrisos protocolares, fatos de corte impecável e discursos inspiradores sobre o "potencial turístico incomensurável" das nossas terras. Ouvindo o nosso Presidente quase conseguimos visualizar os milhões de turistas estrangeiros a acotovelarem-se para conseguir um bilhete para o Moxico Leste. Só que não. E não me vou repetir sobre este assunto. Já cansa. Contudo, como qualquer bom anfitrião sabe, organizar festas desta magnitude exige uma carteira recheada, ou, na falta dela, uma capacidade de passar cartões de crédito institucionais. E é aí que entrámos no segundo acto da semana. Para garantir que a engrenagem não emperra e que os nossos credores não comecem a nos dar ‘olhada’, fomos endividar-nos em mais 340 milhões de euros para pagar antecipadamente a quem já devíamos. Obviamente, perante este cenário de opulência diplomática financiada a crédito, a oposição não quis perder a oportunidade de saltar para o palco. Adalberto Costa Júnior veio a público, com a sua habitual solenidade, recordar-nos de que o rei vai um bocado nu. O líder da UNITA fez questão de sublinhar que Angola já não aguenta mais promessas de "diversificação da economia". Adalberto defende que precisamos de uma economia "suficientemente livre". O que ele talvez não saiba é que a economia já é livre até demais, mas só para um grupinho. Resumidamente, esta semana debatemos o futuro do turismo com o dinheiro que pedimos emprestado no presente para pagar as dívidas do passado, enquanto a oposição nos avisa que o futuro, afinal, já devia ter começado ontem.
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 19 de Junho de 2026




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