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PROFISSÃO VAI DANDO EMPREGO E ATÉ DÁ PARA FAZER POUPANÇAS

Consertar sapatos 
ainda está na moda

OFÍCIOS . Consertar sapatos e outros tipos de calçados foi sempre quase obrigatório. VALOR ouviu histórias de pessoas e visitou algumas sapatarias. Há uma ‘clínica’ que surgiu de uma pequena loja. Há jovens e mais velhos a vingarem na vida com pequenas oficinas de sapatos, mas com desejos maiores.

Consertar sapatos 
ainda está na moda

 

Da deformação de um sapato, surgiu a oportunidade de se criar uma simples sapataria, mas que rapidamente se transformou numa clínica de sapato de referência em Luanda. Apesar de não dominar o ofício, há mais de 13 anos, Gabriela Kongo, antiga bancária e fã de sapatos altos, necessitava de arranjar um calçado a um sapateiro de rua. Mas, em vez de dar uma solução, o sapateiro deformou-o, retirando toda a estética e beleza. Gabriela Kongo ficou insatisfeita: “Era um sapato que tanto amava”, lamenta.

Em conversa com o companheiro, em 2006, viu ali uma chance de investir numa sapataria. Mesmo com poucos recursos disponíveis, a rua Rainha Jinga foi o ponto de partida para a ‘aventura’, abrindo uma janela de conserto de calçados. Começou com três funcionários. E uma simples sapataria de janela transformou-se numa clínica de sapato. Em 2012, é convidada pelo grupo Kero a abrir uma loja nas suas instalações. Daí em diante, nunca mais parou. A empresa hoje está localizada na avenida Pedro de Castro Van-Dúnem, defronte à pista de motocross, sentido Benfica.

Para dar mais robustez ao negócio, Gabriela Kongo recorreu a Portugal, Itália e Espanha à procura de fornecedores e para a compra de materiais. Nasceu assim a ‘clínica do sapato’ que hoje dispõe de muitos clientes e tem uma facturação a oscilar entre os 500 e os 700 mil kwanzas mensais. Além da venda e do conserto de calçados, a clínica dedica-se à venda de acessórios de pele, cintos e de todo o tipo de produtos de limpeza como ‘spray’ para hidratar e manter limpo qualquer tipo de sapatos.

Dispõe igualmente de serviço de alargamento de todo o tipo de calçados e dá conselhos aos clientes sobre os cuidados para evitar maus cheiros nos calçados.

A clínica não pretende limitar-se a consertar e pintar calçados. A proprietária revela que a próxima etapa passa por fabricar todo o tipo de sapatos para ambos os sexos por encomenda.

SUBIR A PULSO

Ariel dos Santos, 20 anos, é muito jovem na profissão, mas não tem dúvidas de que as mulheres são as que mais querem arranjar calçados, “por serem mais vaidosas”, enquanto os homens só procuram os serviços quando os sapatos estão completamente degradados. O jovem nunca pensou ser sapateiro, mas o destino e a influência do pai colocaram-no nesta profissão que revela amar e ser o primeiro emprego. Entrou como ajudante e hoje já consegue fazer muitas coisas, mas sempre com a supervisão do mestre.

Lourenço Jamba, 30 anos, foi zungueiro de cintos, pastas e carteiras para homens e mulheres e, cansado de deambular pelas ruas, recorreu ao conserto de calçados como principal sustento da família. Com a boca cheia de preguinhos e fios de costura, tem uma pequena oficina, montada junto à loja de roupa da Samirana, na Vila Alice. Garante que o seu dia-a-dia tem sido razoável, com preços que variam de acordo com o estado de cada calçado.

FALTAM MATERIAIS

Mestre Lourenço, como é tratado pelos clientes, faz tudo o que for preciso em sapatos usados. Por dia, consegue arrecadar entre dois e três mil kwanzas. O trabalho tem consistido em colar e coser, mas com alguma limitação por falta de materiais. Com o dinheiro que consegue arrecadar, o objectivo passa por transformar este trabalho numa sapataria moderna, adquirir mais conhecimentos e dar emprego a outras pessoas. “Vou fazendo algumas poupanças”, revela.

Apesar de não ser o emprego que tanto desejava, Filipe Muanha, 32 anos, hoje gosta de ser sapateiro. Afinal, a profissão ajudou-o nos “momentos difíceis”. Trabalha numa cooperativa de sapateiros constituída, na sua maioria, por jovens, onde muitos deles encontraram o primeiro emprego.

Filipe Muanha ainda não se considera um mestre, mas ajudante, porque ainda tem muito que aprender com o responsável da cooperativa. Pela negativa, queixa-se do cheiro da cola, da borracha e de algum chulé que sai, sobretudo, de calçados de homens, o que ele acredita “não constituir qualquer problema para a saúde”. Consertar sapatos é único meio que tem de subsistência.

O desejo de ter a sua própria sapataria leva o jovem ajudante a fazer algumas poupanças e confia tão longo ter as condições financeiras criadas e com o conhecimento adquirido vai ganhar muitos clientes.

O preço aqui varia de calçado para calçado. Em dia de muita clientela, consegue entre cinco e sete mil kwanzas, mas o valor é partilhado às meias com o mestre principal.

Manuel João, 60 anos, é outro exemplo que encontrou a realização do ofício de reparar sapatos. Desde que deixou a tropa, por razões administrativas, não encontrou apoio na caixa de segurança social das FAA. Mas descobriu na profissão de sapateiro, que exerce há mais de dez anos, a única fonte de rendimento. Revela, com orgulho, que o terreno e a casa construída foram conseguidos graças às poupanças desta profissão. ‘Tio Manuel’, como é tratado, começou com três mil kwanzas a arranjar calçados na rua e hoje dispõe de um lugar fixo no mercado do Kapalanga, Viana, e factura, por dia, entre sete e dez mil kwanzas. Fruto da experiência, encontrou material mais sofisticado e um espaço maior para montar uma sapataria e deu emprego a dois jovens.