MARCENEIROS COM MAIS DIFICULDADES E MENOS LUCROS

Material mais caro e vendas escassas

Crise. Carpinteiros e marceneiros lamentam a redução de lucros por causa das restrições impostas pela covid-19. Há preços de materiais que dispararam para o dobro. Época das chuvas poderá trazer mais aumentos.

 

Material mais caro e vendas escassas

Oficinas de móveis e de materiais rústicos têm registado quedas sucessivas de wreceitas desde o ano passado. Actualmente, a facturação mensal situa-se entre os 110 e os 300 mil kwanzas, ao passo que, antes da pandemia, atingiam entre os 600 mil e os 1,5 milhões de kwanzas, em média, dependendo do tamanho da oficina. 

Com este cenário, também passaram a investir menos. Na compra de matérias-primas, por exemplo, houve alturas em que investiam, por mês, entre 400 e 600 mil kwanzas. Hoje, não ultrapassam os 200 mil kwanzas mensais.   

Por isso, o gestor da Marcenaria da Brigada, em Luanda, Osvaldo David, admite que “não tem sido fácil” gerir o negócio, porque, “devido à crise, as pessoas decidiram fazer contenção financeira”, reservando o dinheiro para questões mais básicas, como saúde e alimentação.

“As pessoas decidiram dar prioridade à saúde, adquirir produtos de carpintaria só mesmo quando extremamente necessário”, desabafa, estimando que, em bons momentos, registava receitas mensais que variavam entre 900 e 1,5 milhões de kwanzas.

“Os trabalhos, com o surgimento da pandemia, foram muito afectados e, em 2019, recebiam-se encomendas diárias. Num dia, a oficina podia receber cinco encomendas de guarda-fatos de 250 mil, mas agora recebemos uma a duas encomendas por mês”, revela. E acrescenta que, apesar de o custo da matéria-prima ter aumentado, o mesmo guarda-fatos, antes vendido a 250 mil, passou para os 170 mil, devido à pouca procura.

João de Almeida é outro empreendedor que dá voz às dificuldades. No melhor momento, tinha uma margem de facturação não muito distante dos números de Osvado David. Juntava cerca de 1 milhão de kwanzas mensalmente, mas hoje baixou para os cerca de 250 mil kwanzas.

Apesar da queda brusca, a empresa conseguiu manter-se e os trabalhadores. Já atendeu, mensalmente, mais de 20 clientes, que requisitavam mobílias de grande porte, mas os números reduziram-se para dois a três clientes. “Durante o dia, até vêm clientes visitar a loja, saber dos preços, mas, para encomendar, é uma ou duas vezes por mês”, compara.

Por outro lado, Agostinho Santos, há mais de 20 anos na profissão, entende que a construção de móveis foi dos sectores mais afectados nos últimos tempos.

Outro empreendedor, Fernando António Manuel, defende a intervenção do Governo para que Angola possa produzir matéria-prima “com qualidade”, evitando móveis feitos com material sem qualidade. Acusa empresários, sobretudo de origem asiática, de estarem a produzir contraplacado de eucalipto que “dificulta a produção e tira valor à profissão”. Recorda que, no tempo colonial, se trabalhava com contraplacado feito de moreira, mogno, kibaba. “Hoje está a ser feito de eucalipto, nunca antes vi contraplacado de eucalipto”, reclama.

ALTOS CUSTOS DA

MATÉRIA-PRIMA

Outro desafio dos marceneiros tem sido o alto custo da matéria-prima. Estimam, por exemplo, que as tábuas que, antes custavam entre 10 e 12 mil, tenham passado para os 15 e 16 mil kwanzas. Também o preço do verniz disparou. O litro passou dos 5 para os 18 mil kwanzas.

Segundo cálculos dos marceneiros, o contraplacado de quatro milímetros varia entre 34 e 35 mil kwanzas. Antes custava 24 mil. Para a compra do mesmo material, pelo qual pagavam cerca de 150 mil kwanzas, hoje pagam cerca de 300 mil kwanzas, ou seja, o dobro do preço. Além disso, já calculam que os preços poderão registar um novo aumento, nos próximos tempos, seguindo a tendência em época chuvosa.

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